O que ando a ler
Há alguns dias em que o céu atinge uma tonalidade rósea, e é dessa cor a capa do novo romance de Valter Hugo Mãe, intitulado Deus na Escuridão, que é o livro que tenho em mãos no momento em que escrevo este post. Contaram-me que, na apresentação do livro no Porto, com a sala cheia, o professor Carlos Reis terá dito que o livro inaugurava uma nova fase na obra do autor; mas, longe de querer perceber mais da coisa do que um académico especializado em literatura portuguesa, e apesar de encontrar no novo romance uma língua diferente (que é um português com um sotaque brasileiro e frequentemente sem pronomes reflexivos nos verbos), a verdade é que encontro neste livro amplas semelhanças com o primeiro romance que Valter Hugo Mãe escreveu (O Nosso Reino), talvez na ligação do protagonista à santidade ou na sua devoção sem limites a um membro da família (aqui o irmão, supostamente «defeituoso»; mas estrago o prazer do leitor se disser porquê; no outro livro a mãe) e até numa certa bruteza do mundo à sua volta, neste caso o do meio muito pobre e atrasado de uma aldeia madeirense. Também o casarão da baronesa (a excepção naquele meio) me levou a pensar noutros livros do autor em que os opostos marcam a história (O Apocalipse dos Trabalhadores, por exemplo), mas aqui a saúde mental está sempre em causa, sejam as personagens privilegiadas ou não. É, como quase sempre, um livro duro (a escuridão do título anuncia-o), mas ao mesmo tempo comovente na solidão de quem ama incondicionalmente alguém. Vamos ver como acaba.
Para não fugir muito aos meus temas e autores, ando, ou melhor, sento-me a ler, um belíssimo romance que descobri numa das minhas incursões de exploração à Bertrand, o qual constituiu uma grata surpresa!
ResponderEliminarSurpresa achá-lo pois não o conhecia, nenhuma surpresa quanto ao resto, evidentemente.
- Trata-se de "Ter e não ter", de Ernest Hemingway.
Numa edição dos Livros do Brasil, outra agradabilíssima surpresa é a belíssima tradução para Português, de Jorge de Sena.
Tudo conjugado para ser uma Extraordinária leitura, que deveras está a ser. Romance
típico deste autor, com as suas personagens carismáticas que dão um cunho forte à acção, esta sempre dinâmica e nos meios em que o autor consegue transmitir o seu génio.
Hemingway é eterno!
Trouxe-o comigo, com mais um par de outros bons livros de que darei notícias em devida altura!
Votos de Extraordinárias leituras, cá desde a Cidade Morena.
Há livros que nunca li e que, sem saber bem porquê, tenho classificados na categoria daqueles que tenho o dever de um dia os ler. Foi o que aconteceu com aquele que agora estou a finalizar, "Servidão Humana", de Somerset Maugham.
ResponderEliminarPartilho dessa mesma sensação... ainda ontem reconheci que nunca li F. Kafka.
ResponderEliminarInaceitável... temo.
Já agora, diga-nos o que achou desse livro de S. Maugham, considerada a sua obra principal, se não estou enganado.
SM, tem fama de ser "chato", e pode ser um bocadinho para quem não aprecie o estilo que pode ser "alongado", enfim extenso e até denso. Eu diria que o autor é sobretudo um viajante, que nos leva consigo. Embora não seja esse o caso do romance que lê agora, o qual é tido por ser sobretudo autobiográfico, segundo os estudiosos.
Tive em tempos um colega professor de português que o classificava como chatérrimo, e assumia o trauma de ter sido obrigado a dissecá-lo na faculdade de letras.
Não é o nosso caso, que lemos por gosto.
Abraço
É justamente Franz Kafka que estou a ler neste momento. Só que desta feita, não é um romance ou conto, mas são as " Cartas a Milena", edição Relógio d'Água.'
ResponderEliminarEstou nas primeiras páginas e ainda não sei bem quem foi a senhora Milena...
Pois... confesso que foi sempre esse o meu medo em relação a Kafka.
ResponderEliminarDepois quando souber, conte o que achou do autor, se lhe calhar.
Abraço
O livro é do género epistolar, isto é, são as cartas que o escritor escreveu a Milena.
ResponderEliminarConfesso que, pelo pouco que li, gostaria de também que houvesse no livro as respostas da dita Milena, mas do que folhei não vejo nada. E daí talvez o título " Cartas a Milena" e não, por exemplo, "Cartas escritas por Kafka e Milena"...
Curiosa amnésia que deu aos habituais comentadores. Então que tal recordar o que foi dito há poucos dias acerca do, entre outros “escritores”, sr. mãe!
ResponderEliminarNão achei Maugham um escritor chato, pelo contrário até gostei do seu género de narrar. O que me descoroçoa um pouco é a leveza com que carateriza psicologicamente os personagens. A literatura não tem que ser verosímil mas a sua caracterização é um pouco "básica" como diriam os jovens.
ResponderEliminarNão é amnésia, será antes respeito... como não ando a ler o Sr. Mãe, nem conto ler, não vale a pena falar nisso. Diria que o mesmo se aplica aos demais comentadores.
ResponderEliminarSaudações
A reler, Conduz o Teu Arado sobre os Ossos dos Mortos, de Olga Tokarczuk (Cavalo de Ferro).
ResponderEliminarNovidade cá em casa, o 1.º volume da poesia completa de Bob Dylan (Relógio D'Água)... e o álbum fotográfico que a Rita Carmo fez editar, do Jorge Palma (100 Folhas).
Para que fique claro: quando grafei “sr. mãe” referia-me ao “escritor” (o tique das minúsculas é dele). Quanto ao cidadão Sr. Mãe nada me move
ResponderEliminarSou um fanático Kafka!
ResponderEliminarKAFKA é realmente um escritor que não é fácil, mesmo nada fácil mas é, para mim, um escritor fantástico.
"O PROCESSO" é talvez um dos cinco melhores livros que li até hoje, mas, atenção, dá "trabalho" e muito que pensar.
Também "A METAMORFOSE" é um livro a não perder.
Todavia, KAFKA continua a ser para mim um mistério!
"AS ÁRVORES" de Percival Everett. Um excelente romance sobre o racismo, na América dos anos mais negros.
ResponderEliminarNesta altura leio: Uma mulher branca do Mississipi, em 1955, afirmou que um rapaz negro de catorze anos se lhe tinha dirigido de forma imprópria, o rapaz foi assassinado pelos familiares dela e foi atirado ao rio com.um pesado engenho de ferro atado ao pescoço com arame farpado. Mais tarde veio a provar-se que a acusação tinha sido injusta, pois a mulher mentiu.
Nesta altura, como nos mostra este livro, o linchamento de negros era prática comum.
Estou a gostar, pois foi um tema que sempre me interessou, e também porque me dá um excelente panorama do que era a America, e das suas gentes, daqueles primeiros tempos do século vinte.