Correntes
Hoje ao fim da tarde lá vou para a Póvoa de Varzim. Mais uma vez irei assistir, participar e apresentar livros como editora neste festival de línguas ibéricas que comemora em 2024 a sua 25ª edição e, ao mesmo tempo, celebra os 50 anos da elevação da Póvoa de Varzim a cidade e os 50 anos da Revolução de Abril. Tanta coisa num só ano é de loucos! A conferência de abertura (que já foi feita por figuras como Sobrinho Simões, Eduardo Lourenço, Marcelo Rebelo de Sousa ou Tolentino Mendonça, por exemplo) será de José Gil e versa sobre Literatura e Filosofia. As idas às escolas do concelho continuarão e haverá desta vez umas Correntes Itinerantes, em que os mais velhos vão explicar o 25 de Abril aos mais novos para eles saberem como era a vida antes de 1974. Nas mesas, estarão não apenas escritores, mas também gente de outros ramos, como é o caso de Pedro Abrunhosa ou Amélia Muge. Paralelamente, haverá exposições, formação para professores, teatro, concertos e muito mais. Contarei tudo no regresso, juro. Agora, só voltarei ao blogue na próxima segunda. O programa vai aqui:
Muito bem, esperam-se boas jornadas portanto.
ResponderEliminarQue tenha uma Extraordinária participação e aproveitamento é o meu voto, cá desde a Cidade Morena.
Estive nas correntes em 2020, ano fatídico para o Luís Sepulveda, que ainda vi a circular por ali. Não me lembro quem fez a abertura nesse ano, mas uma extraordinária abertura foi sem dúvida a do Viriato Soromenho Marques, que fez a ponte entre a literatura e o ambiente.
ResponderEliminarA escrita começa como uma semente, pequena e discreta, plantada no solo fértil da mente humana. Ela é o primeiro passo de uma viagem, um gesto simples que carrega em si o poder de transformar o vazio em expressão. Cada palavra que escolhemos, cada frase que compomos, é um tijolo na construção de mundos. Para o escritor, esse acto inicial é tanto uma descoberta quanto uma criação, um mergulho em si mesmo e um estender de mãos para o universo ao seu redor. Nesse instante, a escrita é simultaneamente reflexo e bússola, espelhando a nossa identidade e indicando caminhos possíveis.
ResponderEliminarÀ medida que a escrita se desenvolve, ela torna-se um diálogo entre o interior e o exterior, entre o eu e o outro. Os escritores, ao narrarem as suas histórias, as suas visões, os seus temores e amores, envolvem-nos, leitores, numa experiência compartilhada. Cada palavra lida permite-nos habitar outros mundos, sentir outras vidas. É nesse processo que a escrita se revela como uma ponte, um meio de comunicação e compreensão, unindo pessoas através do tempo e do espaço. Aqui, a escrita amplia-se, ganhando força, à medida que revela a sua capacidade de ligar seres humanos num nível profundo e significativo.
Prosseguindo na sua expansão, a escrita assume um papel transformador não apenas para quem escreve, mas também para quem lê. Através das palavras de outrem, somos convidados a questionar, a reflectir, a sonhar. A escrita desafia-nos a ver o mundo sob perspectivas novas, a explorar ideias que jamais teríamos considerado. Nesta fase, converte-se numa ferramenta de crescimento e evolução, um veículo pelo qual viajamos para dentro de nós mesmos e para fora, rumo ao desconhecido. Nessa caminhada, a escrita molda-nos, transforma-nos, tornando-nos mais empáticos, mais curiosos, mais abertos.
À medida que avançamos, a escrita torna-se ainda mais intricada e poderosa. Ela é um reflexo da complexidade humana, capaz de expressar os cambiantes mais subtis das nossas emoções e pensamentos. Nesse ponto, a escrita é uma arte, uma expressão da beleza e da dor, da alegria e do sofrimento que constituem a experiência humana. Os escritores, nesse cenário, são artistas, escultores da palavra, que moldam a realidade em formas novas, convidando-nos a apreciar a vida sob um olhar renovado. Aqui, a escrita alcança uma dimensão estética, emocional, tornando-se um espelho da alma humana.
Mas a escrita não se detém na beleza da expressão; ela espraia-se, tocando as bases do conhecimento e da inovação. Através dela, compartilhamos descobertas, teorias, ideias que têm o poder de mudar o mundo. A escrita, nesse estágio, é um motor de progresso, uma faísca que incendeia a imaginação e impulsiona a humanidade para o futuro. Ela é a fundação sobre a qual construímos sociedades, culturas, civilizações. Aqui, a escrita transcende a sua função original de comunicação, emergindo como um vector primordial no desenvolvimento da sociedade e na construção de um legado duradouro.
(continua)
(continuação)
ResponderEliminarE então, chegamos ao ápice, onde a escrita, na sua infinita diversidade e profundidade, celebra a essência do ser humano. Ela é uma coreografia de palavras, uma harmonia de vozes que narram a majestosa epopeia da vida. Nesse clímax, reconhecemos que a escrita é mais do que palavras no papel; é um reflexo da nossa busca por significado, um testemunho do nosso desejo incessante de interligar, entender e expressar. Neste momento de apoteose, a escrita revela-se em todo o seu esplendor, um triunfo da criatividade humana que nos eleva, nos une e nos inspira a transcender os nossos limites. É aqui que compreendemos, numa revelação silenciosa e poderosa, que a escrita é a linha mestra que narra a trama da experiência humana. Ela concentra a nossa luta, a nossa paixão, o nosso conhecimento e a nossa imaginação, servindo como um farol que ilumina as profundezas da alma humana. Neste ponto culminante, percebemos que a escrita vai além da mera troca de informações; é uma ode à vida em todas as suas formas, um hino à capacidade humana de reimaginar, criar e transformar.
Ela torna-se, assim, uma força viva, pulsante, que transcende o acto de escrever e ler. A escrita é um legado eterno, um elo que nos une não apenas uns aos outros, mas também ao passado e ao futuro, permitindo que vozes de eras distantes ecoem nos nossos corações e mentes. Ela é tanto uma janela para o mundo quanto um espelho da nossa própria essência, oferecendo reflexões infinitas sobre quem somos e o que podemos aspirar a ser.
Nesse momento de apoteose, a escrita consagra-se como um monumento à curiosidade humana, à nossa ânsia por compreender e à nossa necessidade vital de expressão. Representa, na sua essência, o testemunho mais puro da condição humana, capturando as nossas alegrias, tristezas, medos e esperanças. A escrita, no seu esplendor, desafia-nos a olhar além do horizonte, a imaginar mundos além do nosso alcance, a buscar verdades que transcendem o nosso entendimento.
Ao celebrar a escrita, aclamamos o que nos define: a nossa complexidade, a nossa capacidade de criar e destruir, de amar e sofrer, de questionar e descobrir. A escrita, na sua forma mais elevada, é um testamento da perseverança humana, um espelho da nossa incessante busca por significado num universo vasto e misterioso.
Por fim, ao reconhecer a magnificência da escrita, abraçamos a beleza da existência humana. A escrita, com a sua capacidade de unir e inspirar, serve como uma lembrança de que, apesar das nossas diferenças, trilhamos o mesmo caminho, enriquecido por palavras e sonhos. Neste reconhecimento, encontramos uma verdade universal: que através destas correntes de escrita, exploramos o infinito dentro e fora de nós, iluminando, assim, o âmago do espírito humano.
“Macht doch den zweiten Fensterladen auf, damit mehr Licht hereinkomme.
Du hast mir doch keinen Zucker in den Wein getan?”
Hoje acordei a sonhar com o “Regime Mu'allim” e com o seu inovador Ministério para a Promoção da Leitura e Estimulação da Escrita.
ResponderEliminarNo passeio que conduz ao Ministério, aprecio esculturas de Shiva, Vishnu, Zeus e Afrodite. A fachada do edifício, ornamentada com tijolos que formam padrões decorativos inspiradores, evoca uma sensação de reverência pelo conhecimento assente na tradição.
Adentrando o corredor inicial, cercado por elegante caligrafia árabe, sou conduzido a um encantador jardim suspenso, onde se evidenciam arcos ogivais e formas bulbosas.
Nas salas adjacentes, construídas em taipa estabilizada, vejo homens e mulheres, acomodados em kilims coloridos, que se dedicam à tradução de obras literárias para o Pashto e o Dari.
Retornando ao jardim, atravesso uma ponte sobre um riacho murmurante, onde frisos narram cenas mitológicas. O meu olhar é atraído para duas imponentes estátuas de Buda. Levanto o olhar para alcançar a sua grandiosidade e o sol encandeia-me. Fico sem ver durante momentos, até que dou por mim noutro lugar.
O sol bate com força sobre as rochas áridas da cordilheira Hindu Kush. A poeira levanta-se em nuvens com a passagem da carrinha Toyota, que avança penosamente pela estrada de terra batida. Na lateral, em letras desbotadas pelo sol, lê-se “برانکینهو دا فونسیکا”, "Branquinho da Fonseca".
Ao volante, o inspector escolar, um homem ainda jovem, mas já marcado pelas agruras da vida no Afeganistão, observa a paisagem árida e desolada. Quando me vê, pára a carrinha e convida-me a entrar. É um diligente funcionário do Ministério para a Promoção da Leitura e Estimulação da Escrita. Fala-me sobre o Regime Mu'allim e da sua esperança no futuro do Afeganistão. Diz-me que a sua missão é visitar as escolas remotas da província, avaliar as condições de ensino e levar livros e material escolar.
A viagem é longa e cansativa. As horas passam lentamente, enquanto a carrinha serpenteia pelas montanhas. Ao fim da tarde, chegamos à primeira paragem: uma pequena aldeia aninhada num vale verdejante.
Instalamo-nos na casa do arbab da aldeia e vamos dar um passeio pela povoação. É então que o vemos: um homem alto e magro, de barba branca e longas vestes brancas, sentado à sombra de uma árvore frondosa.
O inspector aproxima-se e cumprimenta-o. O homem, com um sorriso enigmático, apresenta-se simplesmente como o “Khan”.
Ao longo da noite, o inspector, o Khan e eu conversamos à luz das estrelas. O Khan conta histórias da sua vida, das suas viagens pelos vales e montanhas do Afeganistão e da sua paixão por livros. O inspector fica fascinado pela sua cultura e inteligência e eu intrigado com tamanha devoção pela leitura num meio tão depauperado e árido.
No dia seguinte, de manhã cedo, visito com o inspector a escola da aldeia. É uma sala pequena e precária, com poucos livros e quase nenhum material escolar. A professora diz-nos que as crianças, apesar da pobreza, estão ansiosas por aprender.
O inspector deixa alguns livros e material escolar que traz consigo. Promete à professora voltar em breve para avaliar o progresso das crianças. No exterior da escola espera-nos o arbab da aldeia e o Khan.
Agradecemos ao arbab a sua hospitalidade e seguimos com o Khan por uma quelha íngreme e poeirenta. Caminhamos até ao topo da colina, onde encontramos o palácio de Malika-e-Sabz, um antigo mausoléu em ruínas. Sob a sombra do Hindu Kush, depositamos uma rosa branca no túmulo da princesa Malika-e-Sabz.
Despedimo-nos do Khan, e sentimos uma certa tristeza. Tanto eu como o inspector sabemos que nunca mais o veremos, mas a sua figura enigmática e a sua paixão por livros acompanhar-nos-á para sempre.
Acordo e não ligo a televisão.
Contra a Corrente: Reflexões sobre o Fluir da Vida
ResponderEliminarA água corrente, incessante e cristalina, ziguezagueava pelo leito do rio, tal qual a própria vida em seu constante fluir. O tempo, esse rio implacável, também corria, impulsionando o presente, o "corrente" ano, o "corrente" mês, a "corrente" semana.
Na rotina banal, hábitos correntes se repetiam, como as ondas que se batiam contra a praia, numa correnteza ininterrupta de trivialidade. A maioria seguia a corrente, aceitando o que era comum e usual, sem questionar.
Mas nem todos se conformavam. Havia aqueles que buscavam romper com a corrente dominante, que nadavam contra a maré, em busca de novos horizontes. Eram os inconformados, os visionários, os que ousavam desafiar o senso comum.
As ideias também corriam, como um rio subterrâneo de pensamentos e conceitos. Correntes de pensamento, correntes literárias, correntes filosóficas, todas confluindo para o grande mar do conhecimento.
A corrente eléctrica, invisível mas poderosa, percorria os fios, vitalizando o mundo moderno. Uma corrente de ar fresco entrava pela janela, trazendo consigo o prenúncio da Primavera.
E assim, entre correntes de água, de tempo, de ideias e de energia, a vida se desenrolava, numa complexa teia de relações e acontecimentos. Assim ficam retratadas em sua perpétua transformação e fluxo constante as correntes descritas.
A Escrita Descrita
ResponderEliminarNa fluidez da tinta,
Segredos e linhas se unem,
Pensamentos em símbolos.
Hieróglifos ecoam,
Narrativas ancestrais em pedra gravadas,
Mistérios do tempo revelam.
Pincel traça ideogramas,
Sabedoria se desdobra,
Mentes em harmonia se unem.
Cunhas marcam,
Histórias acadianas em argila,
Vozes que ecoam.
Além destes, runas nórdicas segredam,
Destinos e deuses em madeira e pedra,
Ligando céus e terras em seu misterioso lema.
Glifos maias contam,
Ciclos do cosmos, vida e morte,
Sabedoria talhada.
Símbolos eternos,
Palavras abrem o passado,
Presente em cada traço.