Casar de preto?

A pergunta do título faz sentido porque, na capa deste pequeno livro de ficção chamado O Vestido de Noiva, de Filipa Leal, na realidade o vestido é preto... Hum, que trama nos espera então nestas páginas? Pois bem, sem querer ser desmancha-prazeres, alguém leva intempestivamente um vestido de noiva a uma lavandaria ao fim de dez anos de casamento para pedir que o tinjam de preto. Imaginam porquê? Não? Pois eu não posso contar, evidentemente, sob o risco de vos poupar a leitura (e o importante é lerem!); mas o mais inesperado na circunstância nem é esse pedido, mas sim o facto de a mulher que traz o vestido vir completamente nua... Assim às primeiras, pode parecer nonsense, mas não é, e há que perceber que existem efectivamente razões para mudar a cor do vestido e uma razão para a nudez, melhor do que qualquer outra; para isso, porém, é preciso mergulhar o nariz nestas páginas (poucas, e por isso boas para uma viagem de comboio ou duas noites de uma semana aborrecida) e descobrir que, ao contrário do que muitos podiam esperar, esta ficção não é nada poética, embora a sua autora seja uma poetisa conhecida, tendo afinal o texto mais afinidades com o  seu trabalho de guionista  (algumas das páginas até contêm partes de parágrafos que podiam ser notas para a realização de um sketch). Com algumas frases atravessando todo o texto («se lá estivéssemos» ou «como lá não estávamos») em que o «nós» que conta a história parece saber tudo apesar de não ter assistido a nada (o que é bem curioso como técnica narrativa), esta é uma história com laivos de comédia, mas não só. A colecção, de contos longos num formato bem simpático, tem (pelo menos no caso dos autores portugueses) como organizadora a escritora Ana Margarida de Carvalho.

Comentários

  1. A mulher só tem aquele vestido... daí a nudez.
    Tingir de preto, enviuvou!
    Pode ser falta de imaginação, mas à primeira vista é o que m'a mim parece!

    Saudações cá da Cidade Morena.

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  2. Já li O Vestido de Noiva. Encomendei-o, mal soube da sua existência. Adoro a poesia da Filipa Leal e gostei muito deste pequeno livro de conto.
    Não sei explicar porquê, só sei que ler pessoas como a Filipa Leal me faz sentir bem, é como se viesse mais esperança ao mundo, ou pelo menos ao meu mundo.

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  3. Numa cidade esquecida, silenciada pela decisão colectiva de apagar o seu nome da memória, habitava uma mulher cuja vida conjugal, balançando entre o medíocre e o inexistente, atravessou uma década. Foi então que, sob a cinza dos dias que se repetiam ou talvez intoxicada por um excesso de finais felizes cinematográficos, jamais realmente experimentados, ela teve uma epifania. Era o momento de dar vida nova... ao seu vestido de noiva. Sim, pois nada proclama uma "crise de meia-idade" com tanto fervor quanto tingir de preto o emblema por excelência do matrimónio.

    Se porventura testemunhássemos o ocorrido, veríamos essa senhora, cujo nome guardaremos em segredo para salvaguardar os inocentes (ou pelo menos aqueles apenas moderadamente culpados), adentrar com ímpeto numa lavandaria local, adornada apenas pela... sua absoluta nudez. Despida, como se a ideia de vestuário fosse um mero capricho, e não uma norma social rigorosamente observada. Ela portava o seu vestido de noiva, não tanto como um estandarte da sua revolta pessoal, mas talvez por se ter esquecido de se vestir com a pressa.

    A reacção dos presentes na lavandaria foi de choque, incredulidade e uma curiosidade mórbida. "Por que raios alguém desejaria tingir um vestido de noiva de preto?", questionava-se interiormente o jovem empregado da lavandaria, cujo repertório de experiências ainda não abrangia encontros com nudistas amotinados com a indumentária matrimonial.

    "Quero que este vestido seja preto. Como a minha alma", proclamou ela, com teatralidade, evocando a grandiosidade e o pathos dos grandes monólogos trágicos, onde dramas humanos se desenrolam com a força das paixões antigas.

    Ausentes do local, só nos resta conjecturar sobre o vendaval de pensamentos que assolou o empregado. Talvez meditasse sobre a efemeridade da alegria conjugal, ou quiçá estivesse apenas a tentar recordar-se do procedimento para tingir vestidos de noiva de preto, enquanto se esforçava por desviar o olhar da nudez da bela mulher.

    Este episódio poderia ser um esboço para um filme, realçando a entrada majestosa da protagonista, o olhar perplexo do empregado, desviando-se da púbis, e a chegada da polícia, tardia (por causa de um bloqueio de estradas por agricultores) mas inevitável, visto que, aparentemente, a nudez pública ainda é um tabu. A cena final, com a mulher a explicar aos polícias que apenas tentava expressar a sua individualidade através da moda, enquanto se envolvia no vestido agora tingido, seria o clímax perfeito para um dia já de si peculiar.

    "Se lá estivéssemos", diríamos ao recordar a expressão do polícia, indeciso entre tratar o caso pela via judicial ou psiquiátrica, porque não estava habituado a estas ocorrências, uma vez que apenas substituía os seus colegas ausentes por baixa psicológica. E "como lá não estávamos", resta-nos imaginar o rumor a crescer em absurdo, até se transformar numa lenda urbana sobre as mulheres desnudas de amor que vagueiam pelas lavandarias, em busca eterna de tingir o seu vestido de noiva da cor da sua amargura.

    Este conto actua como um lembrete de que, confrontados com uma crise, alguns recorrem à terapia, outros a jornadas espirituais, enquanto há quem escolha a nudez e a moda alternativa como meios de expressão. E, no final, quem somos nós para julgar? Afinal, se lá estivéssemos, talvez fizéssemos o mesmo. Ou talvez não, porque, estando ausentes, o enigma perdura, envolto na sombra de um vestido de noiva negro como o mais insondável mistério nocturno.

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