As vendas

Tenho ideia de que, quando comecei a trabalhar na edição, era decididamente mais difícil vender livros fáceis do que a verdadeira literatura. Tinham passado pouco mais de dez anos sobre a Revolução e, por isso, havia ainda muitas marcas de analfabetismo; os menos estudados liam revistas, mas as pessoas que compravam livros regularmente eram regra geral gente informada, culta e exigente. Recordo-me de que, na primeira editora para que trabalhei, uma colecção de policiais, com livros de autores como Ruth Rendell, Chesterton ou Michael Crichton, vendia bastante menos que a colecção de ficção literária (que tinha autores como McEwan, Ishiguro ou Updike e até autores pouco conhecidos como o irlandês Frank Ronan que, hoje esquecido, à época era um autêntico bestseller). Hoje, quanto mais prémios e boas críticas tem um livro que publico, mais espero que ele venda; mas não, na maioria das vezes não acontece. Apesar de ter lido recentemente que Portugal é um dos mercados editoriais em alta com uma subida nas receitas de 6,5%, uma das razões apontadas para esta subida é justamente a importância dos influenciadores no TiKToK, que fazem disparar um livro para os TOP quando os aconselham; porém, os livros que aconselham são geralmente ficção comercial ligeirinha ou biografias de famosos, incluindo a do príncipe Harry. Ou seja, será que Portugal, que nunca recuperou do seu analfabetismo, vai ficar pelos livrinhos que não fazem pensar e vai a caminho de uma outra espécie de analfabetismo? Tudo indica que sim. 


P. S. Hoje, na Biblioteca do Palácio Galveias, em Lisboa, Alberto Manguel falará ao fim da tarde de Italo Calvino. 

Comentários

  1. Eu continuo a preferir a grande Literatura, clássica ou contemporânea. Não embarco em TIK TOKS, até porque não os frequento. Estou a ler As Cidades Invisíveis de Italo Calvino.

    ResponderEliminar
  2. A literatura de entretenimento impõe-se à outra e vende mais, muito mais. Não é uma questão literária, é uma questão comercial. No cinema aconteceu o mesmo. E na televisão, se compararmos o nível médio dos programas de agora com os de há 30 ou 40 anos, o resultado é ainda mais claro. Aí o entretenimento e a fabricação de idiotia triunfam em toda a linha. Mas não há que desesperar, creio que o número daqueles que leem livros que vale a pena ler também aumentou.
    Boas leituras neste fim-de-semana prolongado.

    ResponderEliminar
  3. António Luiz Pacheco7 de dezembro de 2023 às 03:18

    Já disse e repito, que para mim, ignaro barrão que compra e lê livros até desde antes de saber ler, aquilo que influencia ou decide a compra de um livro é o tema, o interesse que ele me desperta. Felizmente tenho muitos interesses, acrescento.
    Faço notar que nem por isso sinto ou senti a necessidade de comprar livros "para pensar", o meu quotidiano se encarregando disso e até bastante.
    Também não compro livros porque um influenciador qualquer o aconselha! Aliás sou muito selectivo nos meus influenciadores e alguns frequentam este Blog Extraordinário, fique o registo.
    Ainda e decididamente, não compro livros porque se anuncia que ganharam prémios, o que associo ao merchandising das editoras e nem por isso à qualidade ou mérito intrínsecos.
    Finalmente, não compro livros lá porque venderam não-sei-quantos-mil. Quanta obra de que gostei pouco ou mesmo não gostei, foram best-sellers, e, quantas obras pobrezinhas ou de pouca circulação tenho lido e gostado muito.
    Excepção ao "A arte de driblar destinos", o qual ando a ler, que tendo a notoriedade dos premiados literários, circulação, merchandising, divulgação e tudo o mais, até neste Blog (com toda a propriedade), é uma obra muito boa. Portanto dentro do que gosto ou me interessa. Isto para que não pareça que sou algum eremita da leitura!

    Desconheço que tipo de leitor serei, não faço idéia e nem isso me preocupa. Mas, decididamente sei cada vez mais aquilo de que gosto e como já não conseguirei ler tudo o que gostaria ou devia, leio cada vez mais só aquilo que me interessa!
    Ignoro se Portugal terá recuperado do aludido analfabetismo, suponho que sim pois hoje muito mais gente sabe ler e até tem estudos, segundo anunciado pelos arautos das excelências do regime que nos garante vivermos no Paraíso - o que uma grande maioria dos portugueses ainda não parece ter sentido. O que se me afigura como realidade é que no tempo do citado analfabetismo se lia mais do que actualmente.
    Hoje compram-se livros, acredito, pois estão sempre a sair novidades como manuais sobre como coçar orelhas aos gatos; a higiene dentária das celebridades que procuram sê-lo nem que seja por isso; romances históricos descontextualizados da época; as fantasias de quem presume ter entendimento sem ter a experiência; loas às tendências actuais onde até se prova que as mulheres são mais eficientes a engravidar outras mulheres do que os homens e tudo o mais que se possa imaginar nesta sociedade de consumo, ansiosa e desnorteada. Livros esses, dirigidos objectivamente a nichos, ou, genéricamente ao grande público manipulado, todos se julgando esclarecidos, porque dão atenção um apresentador gay, um cantor ganzado ou uma artista de telenovelas alucinada, que se presumem sábios, debitam aplaudidas atoardas inseridas num contexto em moda, havendo quem os edite porque vendem!
    Enfim... falamos de analfabetismo? Ou iliteracia?
    Ou daquilo a que chamo "ignorância esclarecida"? Isto é, quem estudou e julga que sabe, mas na verdade não sabe, porque leu apenas o seu próprio lado daquilo que é um todo. Ora o saber é um todo e nunca apenas uma parte.
    No tempo do analfabetismo, talvez porque cresci e me criei num desses nichos que refiro e em que se lia, terei sido eu mesmo vítima de influenciadores?
    Um tema interessante para se conversar, porque me parece afinal que sim, que na verdade nunca se recuperou do analfabetismo, ele só foi mascarado.

    Saudações cá da Cidade Morena onde Sol e calor já acordaram hoje cedo!

    ResponderEliminar
  4. Ou seja: vendem-se mais livros hoje do que há quarenta anos.
    Mas vender-se-á menos boa literatura hoje do que há quarenta anos?
    Essa seria a verdadeira comparação.
    Se os "menos estudados" liam revistas, hoje lerão "livros TiK ToK". Comparar a venda desses livros com os outros seria o mesmo que comparar a venda de revistas com a de livros, há trinta ou quarenta anos.

    ResponderEliminar
  5. Cláudia da Silva Tomazi7 de dezembro de 2023 às 05:12

    Em algum lugar do mundo leões ainda, matam javalis. Haverá sempre quem tenha “fome” de uma boa literatura. Obviamente, a questão gira em torno do que se lhe é confortável. Bulhufas aos algoritmos.

    ResponderEliminar
  6. Perante tanto intelectual fico com complexos: eu só leio porcarias, é o que concluo. vou deixar de ler e assim evito as porcarias.

    ResponderEliminar
  7. Sempre me fez "confusão" o "ULISSES" do James Joyce ser considerado um livro de referência (uma obra prima), por muito gente supostamente entendida, mas, ao mesmo tempo, confessam que não o leram.
    Nunca li que alguém dissesse que tinha lido o livro e tivesse gostado, pelo contrário, o que sempre ouvi é que é um livro chatérrimo-uma sêca-. Também unca li algo que me incentivasse a lê-lo (para além da curiosidade em fazer a minha avaliação e o porquê desta fama).

    ResponderEliminar
  8. António Luiz Pacheco7 de dezembro de 2023 às 10:56

    Viva ó Severino!
    Olha, ainda bem que puxas pela palavra que isto andava meio adormecido... e sabes que eu pélo-me por uma boa conversa, sobretudo porque aqui onde me encontro é escassa a oportunidade de a ter desta qualidade e não fora este Blog, não sei se não estaria já completamente cafrealizado! Eheheh!
    Imagina só, um barrão e cafrealizado ainda por cima, há de ser coisa difícil de aturar!
    Bom, como estamos num blog de leitura, fogo à peça:
    - Somos dois a sentir o mesmo em relação a este celebrado livro... mais chato só o Lobo Antunes (pronto, já disse!).
    No entanto, deixa-me dizer-te o seguinte. Pelo que julgo saber, este romance é celebrado por ter constituído uma ruptura, sendo um marco literário, o que me leva a pensar que não é tanto a excelência da narrativa escrita mas sim o que ela constitui.
    Talvez muitos dos que apregoam ter lido, na verdade, não tenham, como nós não temos, a capacidade para o apreciar e o finjam que gostaram só para se exibirem e ficar bem-vistos.
    Porque para os verdadeiros literatos julgo que o interesse e valor da obra é outro.

    Permite-me reproduzir isto, que fui ignominiosamente sacar à Wikipédia, o que às vezes dá jeito porque é rápida a busca:
    " Ulysses foi um livro revolucionário no estilo e na concepção. O aspecto mais evolucionário foi a técnica de narração de fluxo de consciência por meio da qual a consciência de um personagem é transmitida directamente. E também porque não havia qualquer separação entre esta narrativa e a descrição, ou acção, estrita, e muitas vezes sem o nome do personagem ser indicado. Além deste método, que confunde o leitor habituado a um estilo mais direto de escrita, o espaço de referência da narrativa torna-se muito complexo por meio de numerosas alusões à literatura grega, a Shakespeare, à Bíblia e a muitas outras."

    "A edição em língua inglesa foi considerada pelas entidades oficiais como obra pornográfica e acabou por ser proibida em todos os países anglo-saxónicos. "

    Mais se diz "Não é um livro adequado para quem se queira iniciar na literatura".

    Portanto, no fundo, nem "Estrada de Santiago", "Contos da montanha", ou "Levantados do chão", conseguiram ser tão famosos se bem que gostemos infinitamente mais de os ler!
    O que quero dizer, é, não te rales!

    Grande abraço cá da Cidade Morena.

    ResponderEliminar
  9. Se vivesse em Lisboa ou nas proximidades, ia ouvi-lo.
    Temo que a Rosário acerte. Poucos são os que gostam de literatura seriamente. E, embora esses leiam bastante, por cada um há talvez uma centena que não lê ou se fica pelo mesmo: um livro fácil, por vezes mal escrito a vários níveis, a conselho de gente que não se entende porquê arvora - ou é arvorada - em autoridade na leitura. Só não entendo a razão de se gostar sempre do mesmo, de não querer experimentar coisa diversa, um tu a tu com livro diferente pode ser um desafio entusiasmante. Há quem escolha e quem apenas siga as escolhas de outrem sem outro critério que os acima enunciados. Passados 50 anos, esperava melhor do povo português.

    ResponderEliminar
  10. Não tenho bem a certeza se o li completamente, há muito tempo, na tradução brasileira do António Houaisse; mais recentemente comprei também a edição portuguesa, bem traduzida, mas não consegui passar das primeiras páginas; achei chatérrimo; penso que a melhor parte do livro é o monólogo final da Molly Bloom!

    ResponderEliminar
  11. A minha leitura do Ulysses de James Joyce, passou-se nos anos setenta em que, quando ia estudar ou ler na biblioteca do Palácio Galveias. Era um livro que estava à cabeça da requisição do que pretendia ler, (edição brasileira) e abria ao acaso e lia algumas páginas pelo prazer de ler, pois tinha a noção de que só assim o conseguiria assimilar. Tinha lido algures que o próprio James Joyce o tinha escrito de forma desconexa e juntara posteriormente. Talvez?. E a lembrança que tenho é de que me agradava imenso esta leitura. Posteriormente adquiri, a tradução de João Palma-Ferreira, mas ainda não iniciei a leitura.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário