Presentes

Como devem calcular (e eu já aqui disse), recebo centenas de livros todos os anos; a maioria são originais de ficção com vista a uma análise, mas também chegam livros em edição de autor; ou publicados por editoras pequenas, que não têm possibilidade de fazer promoção e marketing, pedindo um comentário; e até romances impressos por essas empresas que cobram aos autores ou os fazem comprar meia tiragem dos seus livros e depois quase não os distribuem. Há de tudo e, regra geral, as pessoas estão interessadas numa opinião, em publicidade, ou querem simplesmente republicar porque estão descontentes. Mais raramente, contudo, chegam livros publicados por editoras sérias, apenas como bons presentes. Quando são de poesia, é mais fácil agradecer a atenção ao autor com a minha leitura, porque para a prosa é mesmo muito difícil ter tempo. E um dia destes aconteceu-me receber um destes bons presentes (o título chamou logo por mim: a poesia vende pouco) de Luís Soares Barbosa (já com vários livros publicados); e, ao afastar a capa, logo na badana, o poema tocou-me de forma tão especial, senti com ele tanta afinidade e comoção, que não resisto a partilhá-lo aqui. Se gostam de poesia, este é um livro que não devem perder.


 


trago os meus mortos à flor da pele.


perigosamente inclinados


para dentro.


 


ocupam em mim todo o silêncio.


 


regra geral, não basta:


é preciso juntar os negativos,


certos quartos em pranto,


uma frase


suspensa.


 


os que me morreram aguardam pacientes.


 


comungamos trivialidades épicas,


suas mãos de outrora dissecam as noites,


cautelosas.

Comentários

  1. Belíssimo poema. Assim vale a pena abrir um livro. Obrigado pela partilha. Qual é a editora?

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  2. Também gostei... imenso.

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  3. Cláudia da Silva Tomazi23 de novembro de 2023 às 02:55

    Elegante poesia e presente!

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  4. Muito bonito. Até para mim, que tenho algumas dificuldades com a poesia.
    Lembrar os nossos ancestrais é ter memória, e quem tem memória tem consciência crítica. Nos tempos que vivemos, é fundamental lembrarmo-nos disso.

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  5. Gosto do poema; para presentes de Natal só quero livros.

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  6. Talvez uma prenda de natal para dar a mim mesma. Há muita gente que gosta de ler, mas não cultiva a poesia.
    Essa é a verdade que todos sentimos sobre os nossos mortos, mas dizemos - ou pensamos - sem arte. E o poema não.

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  7. Lindo - " os que me morreram aguardam pacientes."

    Temos poetas contemporâneos maravilhosos (não consigo encontrar um adjetivo melhor). Pena que não tenham lugar de destaque na promoção da leitura. Pena.

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