O que ando a ler
Depois do sublime À espera no Centeio, de Salinger, é preciso muita coragem para escrever um novo romance sobre um adolescente em apuros e com sucessivos problemas escolares. Mas, deste lado do oceano, há quem não se acanhe com o êxito do escritor americano, e Shy, de Max Porter, é a prova disso. Nunca tinha lido nada deste autor, já finalista do Booker Prize uma vez, que escreveu mais uns três livros antes deste; mas a crítica considera-o uma das mais promissoras vozes literárias em língua inglesa e eu posso dizer, por este livro apenas, que há no seu estilo qualquer coisa que vi em Lincoln no Bardo, de George Saunders, talvez na profusão de pessoas que falam à vez (e cada uma representada por um tipo de letra diferente), desde a psicóloga de Shy, que quer desesperadamente ajudá-lo mas não consegue, o narrador externo que acompanha os passos do adolescente na sua fuga de uma espécie de instituição para multi-expulsos chamada «Last Chance» (era mesmo a última oportunidade, depois disto já não haverá nada), a mãe (e é preciso dizer que o padrasto é parte do problema de comportamento de Shy), etc. Pesadelos terríveis, droga, violência, complexo de ejaculação precoce, automutilação, são tudo coisas de que ouviremos falar a propósito de Shy, que de noite caminha com uma mochila às costas cheia de pedras, quiçá evocando os bolsos de Virginia Woolf. Muito curto, muito duro, bastante original.
P. S. Para quem gosta de poesia, logo à tarde a minha multifacetada sobrinha, que também escreve poesia, Rita Pedreira, uma estudante muito diferente do Shy, convida a poetisa Rita Taborda Duarte para leitura de poemas, da qual podem participar todos os presentes com obra própria e alheia. Apareçam! A chuva vai parar.

Depois de ter começado a ler, em 1998, As Cidades Invisíveis de Italo Calvino, e não ter acabado, agora que estamos em maré de centenários, vou ver se termino esta ao que me dizem obra-prima do italiano.
ResponderEliminarSem me arredar da leitura, principalmente, de autores de língua portuguesa, estou a acabar de ler Terras do Demo do Aquilino Ribeiro depois de reler A Casa Grande de Romarigães. Excelente. É tão agradável voltar a ler os nossos grandes mestres da escrita.
ResponderEliminar"O velho Cardiga deitava-se cedo e a noite era dele só. Glòrinhas punha a roca à cinta, porém mais fiava amor que a fiandeira. Mioma era um bruxo a falar-lhe, entre coisas e loisas, do mundo que vira e não vira, da constância com que a trouxera no pensamento lá por longes terras, das penas sofridas do aparente desamor que ela, a espaços, lhe mostrara. Glòrinhas, em troco, abria-lhe seu seio leal e ele aspirava com a voluptuosidade dum delicioso as flores agrestes, rescendentes, da paixão que plantara e a que nem o tempo nem os desenganos haviam emurchecido. Não se cansavam de arrulhar e percorrer a gama de engrimanços dos noivos que estão à beirinha do mesmo par de lençóis. Mioma, no entanto, por cobardia ou por repugnância, abstinha-se de proferir a palavra decisiva ou palavras que esclarecessem, sequer, a vida nova. Não declarava: casaremos ou partiremos daqui a tal data, mas: agora nunca mais te deixo, sem ti não poderei viver, nunca nos apartaremos, e outras expressões fátuas do amor corriqueiro." A.R. - Terras do Demo.
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ResponderEliminarby
Edward Bernays
https://archive.org/details/BernaysPropaganda/page/n1/mode/2up
Meti-me finalmente à leitura de Vida e Morte dos Santiagos, de Mário Ventura. Não esperava este registo, bem diferente do neorrealismo que aguardava. Além disso é bem escrito, tem muita ação, surpreende-nos com frequência, desenvolve-se em épocas diferentes. Que mais preciso para ter uma leitura "à maneira"?
ResponderEliminarAgrada-me saber que ainda há leitores de mestre Aquilino, tão esquecido até pelos responsáveis da Leitura no nosso país; já li quase toda a obra aquiliniana, incluindo esses dois que reputo dos melhores; acabei de reler A Via Sinuosa, editada agora com prefácio de João Soares. Pelo menos não estou só e vou continuar, agora que se aproxima o Natal relendo a bela obra ilustrada O Livro do Menino Deus.
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