A arte de (não) amar

Frederico Lourenço traduziu recentemente a poesia de Horácio para a Quetzal e temos a certeza de que não vai ficar por aqui em matéria de tradução e apresentação de clássicos. Já Carlos Ascenso André se ocupou de A Arte de Amar, de Ovídio, que li, salvo erro, na edição da Cotovia há muito tempo, observando já (e não eram ainda os tempos do Me Too, nem pensar) como algumas das afirmações do mestre sobre as mulheres poderiam irritar e até ofender as feministas mais radicais e as leitoras que não conseguem situar certas obras na época e no contexto em que foram escritas. Disto mesmo falava Mário Cláudio um dia destes no Facebook (citando um excerto de A Arte de Amar especialmente «colorido»), e a filha de um amigo nosso que dá aulas de literatura clássica em Inglaterra contou-nos que, nas primeiras aulas do semestre, é obrigada a descrever exaustivamente aos seus alunos de que tratam certas obras e autores (Ovídio e A Arte de Amar, por exemplo) para que estejam avisados do que aí vem; mas (pior!) esses alunos podem recusar-se, só pela temática anunciada, a estudar certos livros por motivos ideológicos, concluindo o curso universitário sem chegar a ter posto os olhos em autores essenciais. E Ovídio, diz ela, é geralmente o mais banido... É a arte de não amar a literatura...

Comentários

  1. https://pressreader.com/article/281548000603754

    « Combien y a-t-il de quarts d’heure dans 3/4 d’heure?» À cette question, seule la moitié
    des élèves sortant de CM2 répond correctement. Un « énorme dé􀀁cit de compréhension des fractions » qu’avait déploré le scienti􀀁que de l’éducation nationale en septembre. Enseignants peu formés aux maths, apprentissage tardif des notions complexes… Les lacunes s’accumulent et les écoliers français enregistrent, année après année, des résultats catastrophiques lors des évaluations internationales. Au bout de la chaîne, les professeurs de lycée déplorent «une dégradation continue et progressive du niveau » et ceux de classes
    prépaconseil ratoires constatent que «le niveau s’est e􀀂ondré».

    ResponderEliminar
  2. Enfrentemos a realidade, estamos a ficar mais burros ( individual e colectivamente)

    ResponderEliminar
  3. Esse eu li quando estudava Letras na USP. Por aqui, temos de ler os livros que os professores nos pedem, mas, para o trabalho final de cada disciplina, podemos escolher um ou outro livro de uma lista. Além disso, eles sempre os contextualizam. Gostei muito de conhecer a obra.

    ResponderEliminar
  4. Cláudia da Silva Tomazi8 de novembro de 2023 às 03:28

    Às vezes a apresentação de um livro se lhe diz mais sobre a época e sobre amor, que a própria História. Sensivelmente cada apresentação carrega tal vertente de “suor e lágrima” quer feminina ou masculina. Tempos atrás, pela Guttemberg Digital, deparei com um livro, era de uma escritora, finais dos anos 60. O livro até discreto diante de todo arsenal de valores e creio que o inebriou naquele dado momento, entre seus ditos “iguais”. Ora, me foi surpreendente a inclinação algoz, revelando a vulnerabilidade de uma voz feminina. Sabendo que tão fielmente fez diferença a presença feminina na Grande Guerra. Lidar principalmente após, fazer reverberar a sensibilidade na conciliação dos ânimos. Nada mais solidário em acenar um lenço branco, antes ou depois dos braços mornos do acolhimento. Os livros nos ensinam variadas sensações, transitam argumentos na vastidão do ser, são apessoados fenômenos e divagam gerações no entanto ouso questionar se com tantas páginas já escritas nos ensinaram amar. Está tal Arte de Amar.

    ResponderEliminar
  5. Aposto, como os ingleses, na leitura dos clássicos e não vejo mal em aprender Ovídeo ou a Ilíada ou qualquer outro do mesmo tempo numa cadeira de literatura clássica. Parece-me até paradoxal retirá-los do programa. Eles começaram a aventura de passar aos vindouros o que sabiam. Foi assim que nasceram, ciências, romances, poesia... E sabiam bastante sobre o que é essencial. Por outro lado, é da história que os homens, todos nós, pertencem ao tempo e as marcas têm que estar lá. Mas será isso o que mais importa?!

    ResponderEliminar
  6. António Luiz Pacheco8 de novembro de 2023 às 06:49

    Aplaudo o seu comentário!
    Saudações concordantes cá da Cidade Morena.

    ResponderEliminar
  7. António Luiz Pacheco8 de novembro de 2023 às 07:03

    Já o disse variadíssimas vezes e repito:
    - A maior maravilha da humanidade é a diversidade, desde logo do pensamento!
    Ora, pobres seremos todos aqueles que não lemos um livro porque contém idéias contrárias às nossas. Um "estudante", sobretudo de literatura ou filosofia, que recuse ler um autor por essas razões, além de pobre de espírito será um ignorante e sobretudo um intolerante.
    O que se passa actualmente é que campeiam de mãos dadas a ignorância com a intolerância, justamente e no meu pouco modesto pensar, porque se institucionalizou a recusa a ler ou ouvir, ver, aquilo que é contrário às nossas idéias, conduzindo a uma exacerbada sensibilidade, tornando quase toda a gente em virgens ofendidas.
    Vai-se-nos a humanidade afinal.

    Saudações coreácias cá da Cidade Morena.

    ResponderEliminar
  8. Eu escrevo (quando e se escrevo), mas é coisa que deixo a quem e não me fica na memória. Portanto, se alguém se mete comigo, tenho de ir ver qual a razão (cuja nem sempre destrinço). Desta vez foi fácil, estamos de acordo com a leitura e análise dos que viveram tão antes de nós, os descobridores desta aventura de ler e escrever. Neste mundo escuro e determinado em se fazer difícil, o seu comentário foi o oposto

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório