O que ando a ler

Já tinha comprado este livro há bastante tempo, mas, por causa das arrumações das estantes que o Manel fez recentemente, foi parar à prateleira e, perdendo-o de vista, esqueci-me dele por uns tempos. Foi só quando fiz um fim-de-semana de descanso para festejar os meus anos, que já são muitos, que o levei comigo. Chama-se Temporada de Furacões, escreveu-o a mexicana Fernanda Melchor e, entre outras distinções, foi finalista do National Book Award para ficção traduzida e do Man Booker International Prize no ano em que saiu nos Estados Unidos e em Inglaterra. É para quem tenha estômago, devo dizer, porque bem podia chamar-se «Feios, Porcos e Maus», já que, além da mãe beata de uma das personagens (o jovem Brando, que é tudo menos isso), não há ali realmente ninguém bom e que se recomende. Vivemos no romance o México do interior, paupérrimo, cheio de narcotráfico, onde todos se drogam com coca, comprimidos e marijuana, onde bebem, se prostituem, agridem, batem, vão à bruxa, tratam mal com a língua e com as mãos, desconsideram os mais velhos, enfim, é mesmo tudo feio, sujo e terrível. A história começa com um grupo de miúdos que encontram um cadáver num canal de rega e, a partir dali, vamos conhecer as várias versões do que aconteceu, sendo que nenhuma delas é boa, aviso, e todas metem sexo, loucura e morte. O livro é muito bom, apesar de não ser fácil de ler porque tem longos parágrafos e fica quase impossível interromper a leitura sem ser no final dos capítulos. Devedora de Rulfo, mas com voz própria, Melchor é um nome a reter.

Comentários

  1. Estou a ler a peça (são duas peças...) de teatro, "A Guerra Santa", de Luís Stau Monteiro.

    A peça foi proibida pela censura e percebe-se porquê, é uma sátira às guerras e aos generais, nos tempos da Guerra Colonial.

    O autor escreve como se estivesse em pleno ensaio da peça, o que torna tudo ainda mais absurdo.

    Enquanto leio, sinto que se trata de uma peça difícil de transpor para os palcos, teria de contar com "muita imaginação" do encenador...

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  2. O Diário de Witold Gombrowicz, publicado pela Antígona em dois volumes (já vou a meio do segundo). Vale a pena, um extraordinário escritor, ainda por cima provocador e iconoclasta. Uma bela surpresa. Tenciono continuar na sua companhia - "Ferdyduke"...

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  3. Estou a ler uma parábola de anel para o nosso tempo.
    Michel Bergmann conclui a sua trilogia de romances sobre a vida judaica em Frankfurt com "Herr Klee und Herr Feld". As linhas biográficas dão à sua coesão e ao romance humorístico uma seriedade mais profunda.

    Estou a ouvir as músicas que o „extraordinário“ António Luiz Pacheco me indicou.

    Vou procurar „Temporada dos Furacões“ na tradução alemã.
    Lembra-me um livro de DEEPTI KAPOOR, escritora indiana que vive em Portugal.

    Saudações da aldeia do Düssel.

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  4. Tenho-me divertido com o tom sarcástico de Bernard Shaw em "Um Socialista Insociável".

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  5. António Luiz Pacheco2 de outubro de 2023 às 08:23

    Numa onda de leitura africana...

    "Á sombra do Sombreiro" - Estórias de Benguela dos seus lugares.
    Coordenação de Magnólia dos Santos, uma colectânea de textos de benguelenses sobre as memórias da cidade e deles mesmos, aqui passadas.
    Conheço pessoalmente alguns dos autores e as memórias deles não deixam de me espantar enquanto português e ex-colono...
    Nota: O Sombreiro, ou ponta do Sombreiro é um acidente geográfico que limita a Sul a baía do Santo António, a uns 10 Km da saída da cidade. Um promontório que parece deveras um chapéu de aba larga, sendo característico e muito conhecido por cá. Pepetela escreveu um belíssimo romance de fundo histórico, chamado "A Sul o Sombreiro".

    A ler: de Fernanado Paula Vicente (militar) "Angola - colonização DESCOLONIZAÇÃO
    - Vida e obra do sogro do autor, António Cordeiro de Oliveira, pioneiro no Norte, fundador do Songo (uma antiga vila, hoje cidade).
    Uma história verídica que mostra bem a capacidade dos portugueses, a sua resiliência e a vontade de fazerem alguma coisa pela e na terra que passam a chamar sua quando emigram!
    Devia ser uma qualidade a celebrar, esta que nós temos e faz de nós colonos de mão cheia, não ocupantes mas colonos. Que deixámos obra que nos orgulha ainda que haja quem teime em achar que assim não é.
    Hoje, tantos anos passados a verdade vem vindo ao de cima, digo eu... vale a pena ler para quem como eu, se interessa por estes assuntos e procura saber como eram as coisas, como foram na verdade e não nas versões, florida do Estado Novo nem da versão negra e marxista posterior.

    Saudações africanas, passado que está o cacimbo e com o calor a subir, o Sol a brilhar e qualquer dia as acácias a florir.

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  6. Entretanto, soube que Fernanda Melchor recebeu o Prémio Anna Seghers e o Prémio Internacional de Literatura da Casa das Culturas do Mundo, em 2019, pelo ‘Saison der Wirbelstürme”.

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  7. Acabei ontem , salvar o fogo do Itamar . Gostei muito mais do seu primeiro livro .

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  8. Curiosamente estou a ler a Temporada de Furacões, não podia concordar mais com o seu modo de ver o livro. Aliás, este livro faz parte da lista de livros da Comunidade de Leitores das Bibliotecas Municipais de Loures. Quando chegar a vez da Fernanda Melchior, irei roubar o seu texto para a minha participação (e agora estou de sorriso malandro enquanto escrevo esta última frase).

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  9. Estou a ler "Três Filhas de Eva", de Elif Shafak, um romance passado em Istambul e Oxford, e onde Peri, uma mulher da classe alta turca na casa dos 40 nos narra a sua história.

    Num jantar entre gente abastada, com conversas que não a estimulam, Peri recorda as discussões com duas amigas da faculdade sobre a dificuldade de ser mulher e muçulmana. O tempo avança e recua entre os anos 80 (infância de Peri) e os da primeira década do novo milénio (tempos de estudante em Inglaterra).

    Política e crítica social com fartura. Estou a gostar.

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