Fosse

Desde que o Prémio Nobel da Literatura foi atribuído ao norueguês Jon Fosse (já indicado em várias apostas como o vencedor) leio as mais díspares opiniões sobre o assunto. Confesso que não conheço a sua obra dramática (não li as suas peças que estão publicadas em Portugal e não me lembro agora se assisti a alguma delas encenada por cá) e que ainda só li dois dos seus livros de ficção que a Cavalo de Ferro publicou (Manhã e Noite e Trilogia, sobre os quais aqui escrevi), mas destes gostei imenso. Contudo, lembro-me de que o recomendei a um amigo que é um grande leitor e que ele achou o texto meio infantil e muito repetitivo, não vendo nele nada de assinalável e achando-o até chatinho. Por isso se percebe que, quanto a Fosse, não haja consenso e tão depressa as pessoas se mostrem indignadas, como digam que é uma chatice absoluta, como elogiem muito. Outros vencedores recentes do prémio que também não reuniram muitos leitores à sua volta  foram, por exemplo, Elfriede Jelinek e Patrick Modiano, além, claro dos poetas, mas isso já se sabe.

Comentários

  1. Já li "Manhã e noite" e estou a ler "Trilogia". Gostei do 1º e estou a gostar igualmente do 2º. Não os considero chatos nem infantis. Parece-me que a escrita de Fosse se prende com os temas de que se ocupa. São histórias de pessoas sofredoras e aquela repetitividade reflete isso mesmo. Aqueles longos "balões de pensamento" e frases muito curtas no discurso direto expressam a angústia das personagens e passam essa angústia ao leitor.
    Não creio que houvesse melhor forma de passar tais histórias ao papel. Por isso, considero que, mais uma vez, o Comité Nobel mostrou que sabe o que faz e porque escolhe quem escolhe.

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  2. Só li "Trilogia" e concordo com o Extraordinário anterior na sua apreciação. Mas sou de opinião que, apesar do tom modernista da obra e da sua originalidade, a qualidade literária é insuficiente para justificar a atribuição do Nobel. Como leitor que sou vou ler "Manhã e Noite", mas não tenciono ler a obra dramática. Talvez mude a minha opinião, que é uma coisa que me agrada fazer sempre que vejo motivo para tal.

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  3. Eu sou do grupo dos portugueses que gostam de Jon Fosse, dramaturgo, ficcionista, poeta. Muitos prémios, muitas traduções. Comparam-no a Ibsen, a Shakespeare.
    Quero referir, em especial para quem nunca leu este escritor, o livro

    "MANHÃ E NOITE"

    romance curto, sentimental ao extremo, revelador de um certo espírito humano que coexiste em qualquer parte do mundo - esta descrição é passada numa ilha ao norte da Noruega, mas podia ter, exactamente, o mesmo sentido se fosse passado num deserto ou numa floresta, desde que houvesse pessoas - tem uma cadência à qual não estamos habituados, um tom embalado sequencial, uma coordenação absolutamente lógica do começo da vida e logo da morte com alguns acontecimentos no seu percurso, tudo natural, tudo elevado à potência mais simples que existe.

    Uma vida é o que aqui se conta com seu maravilhamento, descoberta, surpresa, angústia, medo e tristeza.
    Nascimento e morte.

    A linguagem não pode ser mais simples, por isso tão complexa mais não seja pela surpresa que causa uma pontuação - tudo o que anima um texto - estranha, inusitada e que obriga o leitor a uma muito maior atenção.
    Neste estilo conheço alguns extarordinários escritores islandeses, conheço os igualmente extraordinários escritores suecos - tenho preferência acentuada pelos do século XIX - e os noruegueses, enfim, os escritores escandinavos em geral.
    A sua luz é diferente, como tudo é diferente daqui para ali em qualquer parte do mundo. Cabe-nos apreciar e saber ler este tipo de latitude literária.

    "Manhã e Noite" é um livro excepcional. Pode e deve ser lido por todos os leitores de qualquer idade.

    Há quem conheça este escritor e goste (o meu caso); há quem conheça e não goste; há quem não conheça, mas há que conhecer para saber se gosta, se não gosta.


    A edição é da Cavalo de Ferro. A tradução é de Manuel Alberto Vieira.

    Quanto ao Teatro que escreve, vi em Lisboa, no início deste ano, no Teatro da Politécnica, a peça "Foi Assim" brilhantemente interpretada por José Raposo. E lembro-me de ouvir o nosso saudoso Jorge Silva Melo dizer o quanto gostaria de ter posto em cena esta peça.

    Mas isto é assim mesmo: uns sim, outros, não. Quero acreditar que quem o premeia (tanto prémio e honrarias literárias que já recebeu muito antes do Nobel, por esse mundo fora !) dizia eu, quero acreditar que não tem sido por acaso...

    Cristina Carvalho

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  4. Comecei a ler O Outro Nome de Jon Fosse; não estou a gostar nada, acho-o repetitivo, enfadonho, cheio de "digo eu", "diz ele", "diz ela" ; as expectativas saíram goradas, penso que não vou chegar ao fim; estava á espera de outra coisa vindo de um nórdico! A escrita do nosso Antunes tem alguma semelhança com esta xaropada norueguesa! Ao contrário, estou a reler A Via Sinuosa do nosso Aquilino Ribeiro, na edição que saiu agora e estou rendido a este escultor esquecido da maravilhosa língua portuguesa.

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