Citar e dedicar

Quando publicamos um livro de autor português, temos sempre de perguntar se há epígrafes, dedicatórias e agradecimentos por causa das páginas que é preciso guardar. As epígrafes são cada vez mais comuns, uma espécie de ponto de partida ou explicação apriorística que justifica o que aí vem; mas ficaram de tal maneira na moda que, muitas vezes, sinto que os autores vão à procura de qualquer frase que ilustre o seu texto quando deveria ter sido a frase a desencadear a escrita do livro. Isso faz-me lembrar uma colega de faculdade com quem tive de fazer um trabalho de grupo que, antes de começar, já tinha um número de citações que queria incluir à força no trabalho... Enfim, com as dedicatórias é diferente, e elas geralmente funcionam como agradecimento, homenagem ou uma espécie de presente. Aprendi, porém, com a newsletter da Livraria Bertrand que nem sempre foi assim e que, na época do Império Romano, se dedicava um livro a alguém importante e com poder para o publicar, e não a uma pessoa íntima, e que as dedicatórias eram muitas vezes longos elogios a esse desejado patrono, tornando-se mais curtas apenas no século XVIII. Hoje em dia, costumam ser bastante curtas, e diz a referida newsletter que maioritariamente contemplam membros da família, amigos, namorados e cônjuges. Já os agradecimentos costumam ir para o final e, regra geral, são dirigidos a quem leu, releu, ajudou a fazer, contribuiu com informações e opinou sobre o próprio livro. Curiosamente, são bem recentes em Portugal, pois nos anos setenta e oitenta era muito invulgar os autores agradecerem fosse a quem fosse.

Comentários

  1. Modas...

    Pessoalmente o que me aborrece são as capas e badanas cheias de encómios do jornal A, do autor B, da personalidade C.
    Parece que o livro não vale por si próprio, precisa dum aval, dum empurrão para singrar

    Faltei na sexta, fica aqui o meu modesto contributo:

    " 'If you have a garden and a library', wrote Cicero, 'you have everything you need.'

    How much is enough? - Money and the Good Life
    Robert Skidelsky & Edward Skidelsky

    Boa semana!

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  2. António Luiz Pacheco9 de outubro de 2023 às 02:14

    Ora, se bem me recordo do que aprendi nas aulas de Português, uma Epopeia (clássica) seria composta por:
    Proposição: introdução da obra com apresentação do herói/personagem e do tema, uma espécie de sinopse?
    Invocação: parte em que se apela à inspiração.
    Dedicatória: dedicação da obra - forma de agradecimento ou bajulação?
    Narração: o desenvolver da acção, do tema, a parte mais importante por suposto.
    Epílogo: encerramento da obra, o grande final, que a meu ver ganha se houver esse cuidado.
    Enfim, perdoem alguma asneira, mas é uma livre adaptação daquilo de que me lembro

    Ora, voltando ao nosso tema de hoje, uma "não-epopeia", pode no entanto compreender todas ou algumas destas partes, penso eu, assim como poderá haver pequenas variações onde caibam essas nuances. Será?

    Acredito que seja questão de "moda" fazer umas ou outras. As citações denotando cultura, serão uma exibição pura por parte do autor, talvez até porque falho de idéias, em vez de criar citações, usa as dos outros para mostrar que leu e conhece. A dedicatória, parece-me coisa mais simples de perceber e faz sentido.
    Como tudo, a escrita/literatura é dinâmica. Deve-se a essa dinâmica (e ainda bem) ir havendo essas modas ou tendências, que podem ser positivas. Normalmente tenho o hábito de as ler, pura bisbilhotice, mas interessam-me.
    Já as citações, por vezes incomodam a leitura e cansam, quando em excesso. Porém, se a dinâmica da escrita criar frases ou idéias que constituam posteriormente citações a ser usadas por outros, isso é Extraordinário, ou nunca haveria idéias novas em apenas se citando eternamente aos clássicos.

    Saudações dinâmicas cá da Cidade Morena.



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