Morrer só

Na minha família, uma avó e uma tia morreram sós e foram encontradas já sem vida. Penso sempre que deve ser terrível para alguém sair do mundo sem o conforto de uma outra mão ou uma palavra calorosa de alguém próximo; mas talvez seja lirismo da minha parte. Num livro que já deve ter perto de cinquenta anos (A Morte de Um Apicultor, do sueco Lars Gustafsson), o protagonista, ao sentir as primeiras bicadas da morte, escolhe ficar só; na verdade, ao receber a carta do hospital com o resultado dos exames laboratoriais (não tem telefone, mas vive no campo e nos anos setenta isso era mais ou menos comum), rasga-a e prefere ficar a recuperar ou piorar da sua doença a saber o que tem e tratar-se num centro de saúde onde (lá como cá) as pessoas têm de ir de madrugada para serem atendidas. Vivendo com a eterna dúvida, faz a vida que sempre fez desde que se reformou (era professor primário mas, lá como cá, as escolas fecham e os meninos são mandados de autocarro para a única escola que resiste, a muitos quilómetros dali), que é cuidar das colmeias e recordar o passado: da infância bastante pobre (este homem sempre viveu com os mínimos) aos últimos anos do casamento, passando pelos tempos da universidade e os namoros inconsequentes. Um retrato impiedoso de um país que parece muito o que não é num romance magistral há muito publicado em Portugal numa colecção que fez as minhas delícias, a Pequenos Prazeres da ASA.


 

Comentários

  1. Cómodo Lúcio Aurélio19 de setembro de 2023 às 01:24

    Também foi publicado em 2015 pela editora MARCADOR com tradução de Afonso Cruz.

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  2. Tal como se pode ler na contracapa (ASA) deste grande romance:
    "A obra-prima de um dos maiores escritores suecos contemporâneos".

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  3. Li-o há muitos anos e gostei imenso. Ando a pensar numa releitura, mas estou com um certo receio, por razões que não vou revelar aqui...
    Boas leituras! 📚

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  4. Quase que me apetece dizer: uma história muito portuguesa, dos interiores...

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  5. Boa tarde. Queria apenas partilhar - para o caso de não lhe ter ainda chegado ao conhecimento - o bem que a sua poesia chegou ao Brasil, em especial ao também autor Marco Severo:
    https://www.instagram.com/reel/CxXs5zyOngL/?igshid=MzRlODBiNWFlZA==

    Cumprimentos

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  6. Lars Gustafsson é sueco. Afonso Cruz sabe sueco? Muito me admiraria, mas enfim, talvez seja. O mais provável é ter traduzido de outra língua (inglês todos sabem, francês nem tantos e muitos nem querem, castelhano há quem pense que sabe, talvez também o italiano). Mas enfim, tradução de tradução, não. Não quero. Já basta, sendo sueco, ter de ler uma tradução. E há-a, directa, em alemão, uma língua relativamente próxima. É por aí que vou.

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  7. Cómodo Lúcio Aurélio19 de setembro de 2023 às 12:48

    "Tradução de Afonso Cruz com Mélanie Wolfram", é o que consta no livro. A simplificação foi minha. Talvez assim o cenário fique mais composto.

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  8. Atentemos que o livro já tem 50 anos. Essas comparações com Portugal consideram esse aspecto? Ou compara com o Portugal de há 50 anos? E a Suécia ainda hoje é assim?

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  9. :) Imagino... Se calhar foi revisor, mas como é famoso apareceu como tradutor, vende mais do que Mélanie Wolfram... Conheço bem esse mundo.

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  10. Cómodo Lúcio Aurélio19 de setembro de 2023 às 14:14

    Deve ser uma tradução da tradução alemã ("língua relativamente próxima"). Eu, como não leio alemão por aqui me fico. Que remédio.

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  11. Parece que estão nervosos…

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  12. Antonio Manuel Carvalho Almeida20 de setembro de 2023 às 01:37

    Foi um livro que me deu prazer em ler, seguidamente li toda a obra deste autor publicada em Portugal. Aconselho vivamente.

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