O que ando a ler
Na última sexta-feira, se fosse dia de excerto da quinzena, teria escolhido um parágrafo do maravilhoso livrinho Uma Família em Bruxelas, de Chantal Akerman, cineasta belga (1950-2015), oriunda de uma família judia (o pai era polaco) que se salvou do Holocausto mas passou pelos campos. Provavelmente, este nome não vos diz muito, mas em 2022 o seu filme Jeanne Dielman, 23, Quai du commerce, 1080 Bruxelles foi considerado o melhor do mundo por um grupo de conhecedores. Chantal Akerman foi também guionista, professora e escritora e, em grande parte do seu trabalho, a mãe foi a figura central, o que é igualmente verdadeiro no caso do muito belo Uma Família em Bruxelas, uma pequena novela que começa com uma mulher que acaba de perder o marido e com o que será a sua vida em termos de memória e experiência a partir de então. Trata-se de um texto curto e corrido, ao ritmo do pensamento, no qual a pontuação está muitas vezes ausente, mas incrivelmente empático, que chama constantemente por nós com uma cadência de canção ou de oração. Foi uma amiga especial que mo recomendou e não é fácil encontrá-lo (penso que se vende na Cinemateca, é da BCF editores, eu consegui apanhá-lo na Feira do Livro), mas por favor não deixem de ler esta maravilha, deixem-se convidar por esta família e entrar na casa desta senhora viúva, conhecer as suas duas filhas, os parentes próximos, o marido morto. É uma beleza de todo o tamanho e não pode passar despercebido a quem ama a literatura.
Embora seja coisa rara, leio dois livros em simultâneo (acabei já o de poesia de Ruy Belo pelo que não conta...).
ResponderEliminar"Este tempo" de Maria Judite de Carvalho é uma coisa absolutamente extraordinária (para mim claro). Como é que é possível que crónicas escritas há quarenta e cinquenta anos, permaneçam tão actuais, continuem tão focadas nos nossos problemas (ainda hoje transcrevi uma no meu blogue...), mesmo que a televisão seja substituída pelo smartphone, os problemas são quase iguais. Percebo que esta leitura lúcida, que não mudámos assim tanto...
Também estou com o "Levantado do Chão" de José Saramago (já próximo do final...), praticamente há um mês, não costumo levar tanto tempo a ler romances, mas trata-se de Saramago (a sua escrita tem muitas virtudes, mas a acção não é uma delas...). Perguntei a mim mesmo porque demorei tanto tempo a pegar neste livro...
Talvez já o tenha respondido. A leitura dos livros de Saramago é tudo menos entusiasmante. A experiência de "Memorial do Convento" (andei uns três meses de volta do livro e só o acabei graças a uma grande dose de teimosia...) diz-me que os romances históricos do nosso Nobel têm grande interesse pela informação rigorosa que nos oferecem sobre os problemas de outras épocas, mas são uma grande "xaropada", para quem gosta de mais acção...
Quem como eu já conhece a vida de escravidão dos trabalhadores dos campos alentejanos, apenas relembrou esse tempo que matou uma "Catarina Eufémia" e mais alguns trabalhadores, cujos nomes não ficaram na história (a dedicatória desta edição do livro é feita a dois deles...), em que a igreja e as forças de autoridade abraçavam os grandes senhores das terras.
Escrevi umas notas num dos meus cadernos de apontamentos, na primeira parte da leitura. Falava que o livro estava cheio de poesia triste misturada com doutrina comunista. Pois... É bom não esquecer que esta obra fora escrita em 1980... na tal viragem do "director adjunto de jornal saneado" com o 25 de Novembro para o escritor, que anos mais tarde consagraria a Língua Portuguesa.
O comentário não é anónimo, como foi vontade da "caixa de comentários", é meu.
ResponderEliminarLi mal foi publicado e só posso tecer-lhe elogios.
ResponderEliminarAs livrarias Snob e Almedina também costumam ter livros desta pequena mas excelente editora.
Não sou grande fã de Saramago, não por questões de ideologia, mas porque não sou... no entanto, se há livros portugueses que devem absolutamente ser lidos pelos portugueses, "Levantado do chão" é precisa e exactamente um deles!
ResponderEliminarNão por ser de Saramago, mas pelas razões que muito bem aponta: por ser o retrato fiel e a memória de um tempo que não pode nem deve ser obliterado, esquecido, ignorado:
- Era assim a vida real no Portugal rural, explorado, atrasado.
Quem hoje se manifesta por coisas absurdas, vãs, que se passam no outro lado do Mundo; queixa-se por puras mariquiquices que acontecem a quem se partir uma unha corre para as urgências de uma clínica; quem pretende que se apague todo o passado da globalização portuguesa; tem de ter a noção como foram e eram as coisas e a vida dos resistentes, valentes, bravos, generosos, resilientes e não tão longínquos bisavós, avós e pais!
Saramago fez perdurar essa memória ao deixá-la nesse livro que é a alma recente de um povo.
Atrevo-me a dizer-lhe que procure, pelas mesmíssimas razões que o levaram a lamentar só agora ter lido "Levantados do chão", um par de bons livros que lhe afagarão essas memórias:
" Vida e morte dos Santiagos" talvez o melhor livro que já li sobre o Alentejo e a sua colonização, a sua gente. De Mário Ventura.
"Entre Cós e Alpedriz", uma memória extraordinária, vivida e bem contada dos nossos serranos do Ribatejo, por José Cipriano Catarino.
Mais recente, "Velhos Lobos", o livro que já li, que melhor retrata as idiossincrasias e a forma de ser do alentejano profundo. Por Carlos Campaniço.
Creia que vai gostar!
Abraço cá de volta à Cidade Morena!
Depois de me lambuzar todo com o fabulástico D. Perdigote - Paulo Moreiras não te atrevas a fazer-me esperar outra data d'anos por outro! Atenção, hein!!!! - aproveitando estas duas semanas de férias no torrão Natal, com viagens longas e estadas em aeroportos de permeio
ResponderEliminarli "O espelho do mar" de Joseph Conrad, que me faltava e ainda bem que resolvi colmatar essa falta! A alma de Conrad é absoluta e eterna. Depois, esperava-me em casa, do meu amigo e confrade António Maria Pignatelli : "Javalis de espera (ou de qualquer maneira), só aconselho a caçadores, evidentemente... ou a quem se interesse pelo nosso pensar e sentir.
Tinha também à minha espera, oferecido e dedicado, "Ferreira de Aves medieval - identidade e memória", da autoria de uma prima direita da minha mulher, Adelina Silva Morais, professora aposentada que se tem dedicado ao estudo da terra Natal da família Morais, que também e curiosamente foi berço dos Pacheco da Beira, ramo primeiro e antecessores dos de Ribadouro.
"Terrinhas" - Catarina Gomes, comprei por impulso e li de uma vez, talvez não com a melhor atenção, mas decepcionou-me um bocado, pois voltámos a cair nos clichés das interpretações urbanitas de um passado aldeão e dos avós que lá os esperavam nas famosas férias... cruzar estas terrinhas, com Cós e Alpedriz é perder a alma e a memória das coisas que se pretendem recordar depois, adulteradas pela sofisticação citadina.
Não é para mim, barrão empedernido e rural convicto.
No avião, ontem mesmo, li "O tesouro" de Selma Lagerlof, comprado num abençoado impulso e graças à nossa Extraordinária Cristina Carvalho que me despertou a atenção para esta Escritora. Pequeno livro, grande e magnífica história!
Comecei ainda no avião, a ler: "Angola - Colonização, descolonização" de Fernando Paula Vicente. Promete! Porém será de interesse apenas a quem como eu pretenda saber como eram e foram as coisas, os antecedentes daquilo que hoje vivo. Seria de leitura obrigatória aos que entendem que se deve apagar o nosso passado colonial, que o não conhecem e menos entendem, julgando dever envergonhar-se dele.
Entretanto aguardo ansiosamente pela aquisição da encomendada obra que vi anunciada no Correio do Ribatejo: "Serranos, campinos e bairrões - etnografia e falares do Ribatejo, da autoria de Luis Duarte Melo e Francisco Santos Serra.
Haja livros, e, haja óculos que já não dispenso para ler!
Saudações cá da Cidade Morena.