Mãe e filha

O livro, pelos vistos, tem já uns bons aninhos, mas foi recentemente redescoberto ou desenterrado, e ainda bem, porque as mulheres até parece que andam na moda e é, de facto, de mulheres que fala (embora, claro, muitas das casadas tenham  maridos que as adoram, ou as enganam, ou lhes batem, ou já não estão com elas mas determinam, assim mesmo, muito do que é a sua vida). Neste Vínculos Ferozes, de Vivian Gornick, com tradução de Maria de Fátima Carmo, mãe e filha passeiam pela Lexington Avenue em Nova Iorque e quase sempre estão em desacordo, porque são de gerações diferentes, e também porque passaram demasiado tempo à sombra uma da outra durante a vida, e talvez ainda porque uma é divorciada e a outra viúva e ambas rezingonas. Mas falam acima de tudo das suas memórias no bairro de judeus do Bronx onde viveram, memórias essas que estão cheias até ao topo de vizinhas, mulheres que morrem de medo dos maridos, ou mulheres jovens e bonitas como Nettie, que já era viúva quando o filho nasceu e não tinha qualquer talento para ser mãe, tendo de ser ajudada para que a criança não andasse de fraldas sujas e a sua cozinha não cheirasse tão mal. Mas, além de Nettie, há muitas mais, que ora são chumbadas pela mãe e apreciadas e copiadas pela filha, ora se abraçam à mãe no momento da morte sem nunca lhe terem prestado atenção em vida. Não é um romance, são as memórias da própria Vivian Gornick, mas lê-se, garanto, como excelente ficção.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco28 de julho de 2023 às 01:54

    Um livro destinado a mulheres, também e portanto?
    Passo. Não por falta de interesse pelas mulheres ou desrespeito, mas porque não sou mulher e o tema é claramente destinado a elas.
    Se fosse um livro claramente destinado a homens, seria apelidado de machista, garantidamente, e, um coro de furiosas feministas, radicais ou casuais, se levantaria contra ele mesmo sem o lerem, apelando ao seu boicote. Mas sendo só para mulheres, isso pode!
    Não é o caso, a César o que é de César, portanto tenhamos livros para homens ou para mulheres e até para os que são uma mistura de ambos, é a diversidade do livro e vivam os livros!
    Fica a provocação nesta Sexta-feira de final de mês e os meus votos de um Extraordinário fim de semana a todos, homens e mulheres ou as suas misturas!
    Cá desde a Cidade Morena, bastante feminina e felizmente.
    Eheheh!

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  2. Com todo o respeito, que o livro seja destinado a mulheres é uma conclusão sua, não me parece que tenha sido essa a intenção da autora. Por essa ordem de ideias Borges, Eça, Camilo, Cortázar, Primo Levi, Orwell e tantos outros só escreveram para homens. Felizmente, a literatura não tem género. Bom fim de semana.

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  3. António Luiz Pacheco28 de julho de 2023 às 07:52

    "Com todo o respeito, que o livro seja destinado a mulheres é uma conclusão sua,"
    - Não é uma conclusão minha, até porque nem li o livro, é uma questão que ponho, ou se quiser é uma sugestão, mas nada tem de conclusivo, a não ser que o tema não me desperta interesse particular.

    "não me parece que tenha sido essa a intenção da autora."
    Conclusão sua? Terá as suas razões, foi por ter lido o livro que assim conclui?

    "Por essa ordem de ideias Borges, Eça, Camilo, Cortázar, Primo Levi, Orwell e tantos outros só escreveram para homens."
    Leu estes autores todos? Nenhum deles escreveu só para homens, na minha opinião de traça e pelo que li destes autores. Pode algum até sofrer de alguma misoginia e isso transparecer na sua escrita, porém não me parece que só homens possam apreciá-los.
    No entanto há autores que podem causar essa impressão, sim, de terem escrito de uma forma dirigida para homens ou mulheres. Como aliás bem sabemos.
    Quais?
    Ora, fica aqui a minha provocação para que os Extraordinários e a Cara Su Tap, procurem esses autores! Seria pretexto para uma animada tertúlia por um lado e dará azo a que se investiguem e leiam obras! Portanto diria que tem tudo a ver connosco!

    Eu sabia que atirando o barrete ao ar ele ia cair nalguma cabeça que o enfiaria, eheheh!

    Votos de um bom fim de semana, com boas leituras, cá desde a Cidade Morena.


    Felizmente, a literatura não tem género. Bom fim de semana.

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  4. Provavelmente até há homens que tenham lido „Vínculos Ferozes“ de Vivian Gornick; eu, mulher, não tenho curiosidade de o ler.

    „O Segundo Sexo“ de Simone de Beauvoir também foi um livro considerado para o sexo feminino. Eu sempre lutei contra isso. Penso mesmo, que é um livro que nenhum homem deve perder.

    Hoje, morreu um escritor alemão que escreveu para homens e mulheres‼️
    Esses são os autores que merecem a minha aprovação.

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  5. Maria do Rosário, por que pouquíssimas mulheres ganharam o Prémio Leya até hoje ou mesmo foram publicadas como finalistas? São poucas mesmo. Será que vocês não estão fechados às particularidades da escrita feminina? Será que não estão esperando que os romances tenham apenas as características dos livros escritos pelos homens?

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  6. Caro,

    Os concorrentes mandam o livro com pseudónimo, não sabemos se se trata de mulher ou homem... E houve bastantes mulheres finalistas, mas nem todas quiseram que se o facto fosse referido quando os livros saíram. Outras, sim, sem problema: Ana Margarida de Carvalho, Cristina Drios, Isabel Rio Novo... Há sempre mais concorrentes masculinos do que femininos logo à partida, não sei porquê.

    Obrigada.

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  7. Entendo, é uma amostra do mundo. Talvez, as mulheres estejam despertando para a arte e para a literatura, mas ainda não em um número tão expressivo. Obrigado pela resposta.

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