A escrita e o engajamento

Há poucos dias, numa memória do Facebook que o Manel partilhou, descobri um assunto que há  anos me persegue. Ainda eu dava os primeiros passos na edição quando comecei a acompanhar a obra de António José Saraiva. E foi num dos seus livros que li a afirmação (com que concordei logo, de resto) de que os escritores, ao escreverem, já estavam a cumprir um acto de cidadania, pelo que não tinham de modo algum de ser engajados no que escrevessem. Porém, nem toda a gente pensa assim: Adam Zagajewski, poeta polaco, numa entrevista ao jornal Expresso aqui há uns anos, disse: «Aprendi que a poesia não deve ser um esforço puramente estético. Se o teu país, se o teu mundo está sob ameaça, tens de discutir essas coisas nos teus poemas, não te podes esconder num paraíso de beleza. Um poeta tem de se interessar por tudo. Tem de abrir os olhos. Para a política, para a filosofia, para as ideias do seu tempo.» Também lhe dou razão. Continuarei com a questão às costas e sem me decidir.


 

Comentários

  1. O mais importante é escrever-se em liberdade, conseguir exprimir o que se sente e o que se quer oferecer aos outros.

    Além disso não conseguimos esconder-nos atrás de um país nem dos seus problemas, que se lá vivermos, também são os nossos. A não ser que optemos por viver "escondidos"...

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  2. Sei que para escrevermos precisamos muitas vezes de isolamento, de solidão. Mas mesmo assim, acho que não nos conseguimos alhear do que se passa à nossa volta. Até porque a escrita vive muito disso (toda, da poesia ao ensaio, passando pela ficção).

    Escrevemos sobre nós mas também sobre os outros.

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  3. Pois eu dou-lhe apenas razão parcial. Por haver necessidade de delatar e criar consciência crítica sobre o presente e isso caber também à poesia se assim o deseje ou o tema inspire o poeta. Mas é apenas condição suficiente. Poesia ou prosa dependem da vontade e da liberdade e desejo do autor em fazer-se crítico do seu tempo e dos problemas concretos que o caracterizam. Não se é menos nem mais poeta por tal.
    Bom dia

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  4. (hoje o comentário vá repartido em três... um fugiu e agora reparei que não falei do "acto de cidadania" do António José Saraiva)

    A escrita não é sempre um acto de cidadania, só o é quando conseguimos transmitir algo aos outros. Acho que com esta frase Saraiva procura defender os escritores e a literatura, de um mundo que a não levava muito a sério (e ainda não leva).

    Por me soar quase a "generalização", pode-nos levar para muitos caminhos.

    Mas continuo a pensar que o mais importante é conseguirmos escrever em e com liberdade (mesmo que se viva num país com um regime ditatorial).

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  5. E confuso, ou seja não é totalmente claro o que leio aqui e muito menos o que penso.
    Para mim, o escritor/poeta, não pode de facto isolar-se do que o rodeia, isto é, pode isolar-se durante o acto da criação, mas só nessa altura! No geral ele tem de estar muito atento ao que o rodeia: ver, escutar, interpretar e até ler, ler muito o que os outros pensam e escrevem.
    Senão escreverá apenas sobre o que imagina que é ou coisas tão romanceadas que são irreais.
    Claro que pode ser muito belo, escrever poesia ou prosa totalmente poética e romanceada, mas isso é um nicho da literatura, apena, próprio até de quem escreve mais para si ou em circuito fechado do que de quem escreve para os outros - o tal acto de cidadania.
    Também não me parece que o escritor/poeta tenha de ser de intervenção, dedicando-se a causas ou procurando transmitir uma idéia ou filosofia que normalmente caem na esfera da política, porque isso faz com que escreva na mesma apenas para alguns e não para todos, penso eu... será?
    Creio que o escritor/poeta deve procurar escrever sobretudo sobre o que vê, o que pensa e como interpreta e sente. É isso que dará "alma" à sua obra. Será?
    Quem sou eu para fazer estas afirmações? Apenas uma traça que esvoaça de livro em livro, autor em autor e depois passa por aqui atraída pela luz deste blog onde quase sempre aprende alguma coisa e tem a oportunidade de ler coisas que lhe interessam, concorde ou não com elas, mas ficando a saber o que pensam outros, e, portanto, melhorando o seu ideário.

    Votos de uma Extraordinária semana para todos!

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  6. Não sou anónimo, sou eu, novamente cá desde a Cidade Morena e após um breve interlúdio na Cidade de Moçâmedes!

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  7. nao invejo quem, por motivo diverso, vive o dilema.
    Simplificando, a obrigaçao de quem escreve é com o mercado, e sem mercado nao há "mais" escrita.

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  8. Não concordo nada com essa "obrigação de quem escreve, com o mercado", SOS.

    A literatura é outra coisa, muito diferente de batatas, sapatos ou limões...

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  9. talvez seja...como diz. Será mesmo ?!!! Isto para nao rematar : olhe que nao, olhe que nao .
    Lembro que a literatura é um produto.

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