Relacionamentos improváveis

Para me desforrar do livro do pianista de que não tinha gostado, abri o novo romance de Coetzee, que tem um piano na capa, e fui lendo com prazer este O Polaco que, apesar de não ser dos melhores do autor (Desgraça é imbatível), tem esse toque de genialidade de um mestre que, não por acaso, ganhou o Nobel. Trata do relacionamento entre Witold, um pianista polaco de apelido impronunciável que toca Chopin de uma forma praticamente isenta de romantismo, e a senhora catalã que gere uma espécie de clube musical fechado e selecto para o qual o instrumentista é convidado  para fazer um concerto numa dada noite. Witold, passados meses desse encontro, confessa à sua ex-anfitriã que vive para ela, que ela lhe dá paz, o que a desconcerta, porque na verdade só estiveram em presença um do outro nessa noite; mas o pequeno romance é realmente fascinante porque descreve muito bem o facto de nunca conseguirmos ser completamente indiferentes a quem diz que nos ama, mesmo que nos pareça que a pessoa em causa não faz minimamente o nosso tipo. Questões como culpa, pena, consciência pesada, intimidade, diferença de idades, arrependimento, fidelidade, são aqui abordadas de maneira muitíssimo interessante, não isenta de humor, sobretudo quando um conjunto de poemas em polaco (e portanto incompreensíveis, mas muito provavelmente íntimos) aparece para ser entregue à espanhola.

Comentários

  1. Também gostei muito deste livro, como aliás todos os que li do Coetzee. Acrescentava um tópico estruturante do livro aos que a MRP destaca: a comunicação numa língua não materna para ambos os protagonistas.
    De facto o inglês é hoje a melhor e mais frequente ferramenta para comunicar entre quais quer outras duas línguas, uma espécie de bote salvavidas. Mas com consequências, que aqui são exploradas pelo autor. Curiosamente, parece que este livro foi escrito por este falante de inglês em espanhol! No amor os protagonistas lutam constantemente com o que estarão a perder nestas traduções mentais, na escrita de Coetzee não sei, mas que é um livro simples, muito enxuto, é.
    Bom dia
    Miguel Henriques

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  2. António Luiz Pacheco15 de junho de 2023 às 02:29

    Gosto muito da escrita de JM Coetzee, ele próprio com um nome indizível de böer holandês, e, descendente de alemães e polacos por parte da mãe!
    É um escritor com uma universalidade notável, pelo seu percurso académico, de trabalho e pelos países onde viveu, pela sua história.
    Não admira que tenha escrito em espanhol e muito menos surpreende pelo tema e as nacionalidades escolhidas para este romance!
    Poucas vezes um Nobel se aplicou tão bem.

    Saudações expatriadas cá da Cidade Morena, amanhã de regresso ao meu Bairro Ribatejano com a missão de ir ser avô!

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  3. Vendo o conjunto de características humanas que a nossa anfitriã elencou no final do poste, lembrei-de de lhes juntar umas tantas mais - medo, ansiedade, vingança, depressão, euforia, amizade, esperança, etc. -, pesá-las, medi-las, avaliá-las através de novos meios tecnológicos e transferi-las para a Ciência. Acabava assim com a Literatura. E dsamava os livros.

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  4. Gosto muito de John Maxwell Coetzee, que conheci com o 'Desgraça' (livro e, posteriormente, filme com um notável John Malcovich).
    Mais tarde, li 'O Homem Lento' e 'Here and Now: letters 2008-2011', uma interessante troca de correspondência entre Coetzee e Paul Auster sobre os mais variados temas.
    Fiquei com vontade de ler o livro que hoje sugere.
    Boas leituras!📚

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