Árvores
Nunca fui boa aluna às disciplinas ditas científicas (Física, Matemática...), mas apaixonei-me aos catorze anos pela Botânica e adorei fazer um herbário que, infelizmente, a minha irmã acabou por deitar fora. Mais tarde tinha, claro, de enamorar-me pelo Herbarium de Emily Dickinson (belo livro com tradução portuguesa da querida Ana Luísa Amaral), que ofereci à minha sobrinha poeta e recebi de presente da minha amiga fadista Aldina Duarte. Mas, entre todos os elementos do reino vegetal, são as árvores que me fascinam (quando estou muito triste, penso que gostaria de me deitar num bosque e respirar fundo). E, como ser eminentemente urbano e «capitalista» (ou seja, que viveu sempre na capital), tinha muitos ciúmes de quem dizia ou escrevia naturalmente palavras como «liquidâmbar», «araucária», «ligustro» ou «metrosiderio». Pus-me então a estudar... E, já a meio do projecto do meu segundo herbário, dei com um livrinho para crianças que adultos que gostam de árvores adorarão: Procuras Uma Árvore?, de João Gomes de Abreu, Maria Manuel Pedrosa e as deliciosas ilustrações de Madalena Matoso. Ensina o essencial sobre copas, raízes e troncos e permite identifcar uma data de espécies. De grande ajuda para adultos citadinos, será um objecto maravilhosamente útil para as crianças!
Não conheço a obra em questão, mas muitos adultos serão melhor informados através de livros infantis, porque mais básicos e explicativos serão o ponto de partida para uma aprendizagem.
ResponderEliminarHá livros infantis muito mais adequados aos adultos, passe alguma "infanitlização" do texto.
Normalmente os livros de botânica são muito dirigidos a quem já seja iniciado no tema.
Fazem falta as saudosas edições das Selecções do Reader's Digest, da Alfa ou da Salvat, quem muito fazia pela divulgação científica.
Ainda recentemente pude adquirir na África do Sul um excelente livro com identificação de cobras, da Struik Publishers, uma referência nestas áreas das ciências naturais. ~
Saudações vegetais cá da Cidade Morena e suas acácias rubras!
Partilho do seu gosto pelas árvores (além da história do herbário deitado para o lixo). Gosto de saber os nomes, características, tudo. Uma das minhas embirrações é o facto das árvores plantadas pela Junta/Câmara da zona onde vivo, não serem identificadas e, pior ainda, nenhuma destas entidades saber responder quando questionada sobre uma árvore em particular.
ResponderEliminarQuanto ao "Procuras uma árvore?", não conheço mas é um livro que vou comprar. Tenho a maior estima pelo belíssimo " Trinta árvores em discurso directo" de António Bagão Félix, com ilustrações de João Leal Pereira.
ResponderEliminarPOEMA DAS ÁRVORES
As árvores crescem sós. E a sós florescem.
Começam por ser nada. Pouco a pouco
se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.
Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,
e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.
Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,
e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,
e os frutos dão sementes,
e as sementes preparam novas árvores.
E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.
Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.
Sós.
De dia e de noite.
Sempre sós.
Os animais são outra coisa.
Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,
fazem amor e ódio, e vão à vida
como se nada fosse.
As árvores não.
Solitárias, as árvores,
exauram terra e sol silenciosamente.
Não pensam, não suspiram, não se queixam.
Estendem os braços como se implorassem;
com o vento soltam ais como se suspirassem;
e gemem, mas a queixa não é sua.
Sós, sempre sós.
Nas planícies, nos montes, nas florestas,
a crescer e a florir sem consciência.
Virtude vegetal viver a sós
e entretanto dar flores.
António Gedeão
Novos Poemas Póstumos (1990)
Beijos, querida amiga
Cristina Carvalho
Obrigada, Cristina!
ResponderEliminarTambém o tenho!
ResponderEliminar"Uma das minhas embirrações é o facto das árvores plantadas pela Junta/Câmara da zona onde vivo, não serem identificadas e, pior ainda, nenhuma destas entidades saber responder quando questionada sobre uma árvore em particular."
ResponderEliminarEspanta-me que as pessoas que trabalham com determinadas coisas (estas ou outras e, às vezes, anos) não tenham a mínima curiosidade em saber o é que aquilo com que todos dias, trabalham.
É arrepiante a falta de curiosidade da maioria deste tipo de pessoas (incuri osas).
Sou bem capaz de procurar os dois livros que recomenda. E só não cito aqui o poema de Gedeão, que é do mais do mais bonito que há, porque já alguém aqui o plantou. E pega de estaca. Sempre.
ResponderEliminarFalta de curiosidade e de profissionalismo. Felizmente nem todas as edilidades são iguais. Há uns anos (2019, creio) visitei o pequeno jardim do Palácio do Morgado, em Arruda dos Vinhos, e as árvores não só tinham identificação e proveniência, como também cada uma estava "baptizada" com o nome de um poeta e uma poesia do mesmo. Achei lindo!
ResponderEliminarCurioso, julgava na minha presunção de gedeanista que conhecia todos os versos do poeta... e afinal não me lembro deste!
ResponderEliminarAinda bem que o recordou, Extraordinária Cristina!
Gosto de árvores, já tenho uma bela colecção delas nas minhas fotografias; amo passear pelas florestas, pelos bosques e pelas alamedas dulcificantes da noite. Sou adepto da terapia japonesa das florestas, de que não recordo o nome japonês! Alguém sabe!?
ResponderEliminarAntónio Luiz, conhece os dois últimos livros de poesia de António Gedeão? Têm por título "Poemas Póstumos" e "Novos Poemas Póstumos" ...
ResponderEliminarCC
E qual é esse poema? Posso saber?
ResponderEliminarCristina Carvalho
Não os conheço não!
ResponderEliminarPassou-me despercebido, mas é coisa que conto resolver muito em breve... é já para a semana!!!!!
Obrigado!
Bonsai?
ResponderEliminarA terapia dos jardins, também é árabe e europeia... mais perto portanto que o Japão.
Shinrin-yoku?
ResponderEliminarO chamado banho de floresta?
Como é bom de ver, é o Poema das Árvores. "As árvores crescem sós e a sós florescem começam por ser nada..." é um poema tão lindo e tão cheio de verdade que apetece beijar as mãos de quem o escreveu.
ResponderEliminarBoa noite
Sensibilidade, é preciso sensibilidade, só que...
ResponderEliminarOs poemas de António Gedeão, mais do que cheios de verdade (que é relativa), estão cheios de sabedoria, que essa é diferente da verdade, porque é plena!
ResponderEliminarDa verdade nos apercebemos, mas da sabedoria bebemos e poucos a entendem.
É a minha maneira, muito pessoal e assumo que pretenciosa de ver a obra de A. Gedeão, numa óptica iniciática, coisa que não sou, mas gostaria de ser.
Nem toda a verdade é relativa, essa foi a grande querela entre sofistas e filósofos e não me parece que falte razão a qualquer dos grupos. Suponho eu que a própria relatividade tem ou pode ter várias gradações. Mas também penso que, tal como a luz cria a sombra, sem concepções ideais a própria e tão humana relatividade, perde valor.
ResponderEliminarAntónio Gedeão capta esses lampejos ou está muito perto (como toda a boa poesia, aliás). Não me confrange que lhe chame sabedoria, mas o que mais vejo na poesia não é o saber de quem escreve. O poeta entrega-se ao poema como ninguém.
Mas não é o senhor que não lê poesia nem compra livros de?! (sorry, se fiz confusão)
Não sou leitor habitual de poesia, sim. O que não significa que não a leia e nem que não goste de poesia.
ResponderEliminarCompro um ou outro livro de poesia, que me interesse e de que goste.
Já agora esclareço que gosto de pouca poesia, justamente porque o que me interessa nela é o saber que ela contenha, não por ser um texto com palavras bonitas que reflete a entrega do poeta. É a tal relatividade, é ainda a diversidade, coisas que aliás me encantam.
Saudações cá da Cidade Morena.
É esse mesmo! Obrigado!
ResponderEliminarA poesia permite isso, diversidade na visão. E benditos sejam os poetas por no-la entregarem em mão.
ResponderEliminarBoa noite, cá do Alentejo:)