Um certo verão

Uma das desvantagens de passar férias em lugares que praticamente não têm livrarias (aconteceu-me ao longo de muitos anos, acreditem) é que, se não acertarmos nos livros que levamos connosco, é uma tragédia termos de gramar as estopadas que acreditámos serem leituras gratificantes e pode inclusivamente estragar-nos as férias (é por isso que devemos sempre levar um ou dois clássicos). Já me aconteceu mais de uma vez a decepção total, mas também já me aconteceu o contrário: levar uma pasta cheia e serem todos livros maravilhosos. Por exemplo, o ano em que li Rabos de Lagartixa, de Juan Marsé, foi o mesmo ano em que li O Leopardo, de Lampedusa, e um romance absolutamente notável que é, na verdade, o que me leva hoje a escrever este post: La Coca, de Rentes de Carvalho. Já não me lembro se cheguei a escrever sobre a obra-prima aqui no blogue (estou com preguiça de ir ver), mas soube agora que a Quetzal assinala o décimo aniversário da publicação deste livro com uma edição novinha em folha e tenho mesmo de a aconselhar a quem ainda não conheça: a par de uma investigação sobre o contrabando e posteriormente o tráfico de droga no Minho e na Galiza, um relato proustiano (mesmo!) da infância e juventude do narrador que é delicioso. Avancem. Se não conhecem o autor, podem começar por aqui e depois papar os outros todos. (A capa do meu é diferente.)


P. S. Hoje Itamar Vieira Junior estará à conversa com Isabel Lucas na FNAC do Colombo às 18h30.


La Coca.jpg

Comentários

  1. Já li o livro e gostei, gosto de todos do autor. Que ainda não li a totalidade, mas pretendo. "Ernestina" também elucida bastante o passado de José Rentes de Carvalho. São fases da vida e acontecimentos diferentes.
    Passar férias sem livros do meu agrado, não as estraga. As férias valem por si e a leitura não é o que mais pratico durante esse período que sempre me foi tão breve. Levo apenas um livro ou dois e daqueles que são, para mim, garantia segura.

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  2. O seu post suscitou-me um pensamento que me acompanha como uma diversão há anos: que livros levaria comigo se estivesse confinado numa ilha deserta? Na extensa esfera das letras que companheiros de papel elegeria para partilhar comigo o silêncio, a solidão e a beleza selvagem de tal lugar?

    Ao longo das décadas, fui mudando de "companheiros" insulares. Que livros levaria hoje? Dei por mim a colocar duas restrições: Só podia levar dois livros (que miséria!), não podiam ser muito volumosos (não se poderá levar mala de porão!), e um tinha de ser de um autor português (pátria oblige!) e o outro de um autor estrangeiro (há mais mundos no mundo!).
    A escolha provou ser um verdadeiro desafio, mas após muita reflexão, aqui estão as minhas opções.

    O romance português que me iria acompanhar no santuário ermo seria "Ensaio sobre a Cegueira" de José Saramago. Uma obra cuja actualidade é incalculável, cujo olhar lúcido e crítico sobre a condição humana não deixa de me fascinar. Com a sua escrita fluida e a riqueza das suas ideias, Saramago seria o companheiro ideal para enfrentar os desafios de uma ilha deserta. Não é o meu livro preferido de Saramago, nem tampouco o meu livro preferido escrito em português. Mas de certo modo, julgo que a fragilidade da minha condição, o isolamento, e a sina ver todos os dias a mesmíssima paisagem, corresponderiam na minha mente a uma cegueira “branca” … e, num refúgio desolado, ter este livro converter-me-ia num rei!

    Viajando de Ocidente para Oriente, da nossa pequenina nação para as longínquas terras da antiga civilização japonesa, escolheria "O Romance de Genji" de Murasaki Shikibu, editado pela Relógio D'Água, como o clássico para me acompanhar. Sendo uma obra de grande envergadura, não seria um volume colossal que sobrecarregasse a minha bagagem.
    Esta magnífica obra, considerada por muitos como o primeiro romance do mundo, capta a vida na corte de Heian com uma elegância e profundidade que me deslumbram a cada releitura. Confesso que tenho um fascínio particular pela literatura asiática, que nasce, creio eu, da sua capacidade de entrelaçar o real e o espiritual, de unir o efémero e o eterno num voluteio literário único e excitante. Mas, a escolha talvez nasça de gostar de reler a obra, o que nem sempre acontece, mesmo com os livros que mais me impressionaram numa primeira leitura. A cada releitura de Genji, descubro uma nova faceta neste sumptuoso vórtice de histórias.

    Estes dois livros, cada um à sua maneira, cada um em seu tempo, falam da condição humana, das nossas falhas e das nossas possibilidades. Eles levam-nos a olhar além do óbvio, a ver a humanidade nos outros e em nós mesmos. Em suma, eles seriam os meus companheiros ideais numa ilha desumanizada.

    Veremos que livros levarei daqui a uma década (se ainda cá estiver).

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  3. Mandei este post ao Rentes. Abraço.

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  4. "La Coca", de Rentes de Carvalho, é uma obra que tem residido numa estante cá de casa desde 2011. No entanto, a sua leitura foi sendo sistematicamente adiada devido à interposição de outras publicações. Inspirado pelo seu post, decidi finalmente pegar na obra e, para minha surpresa, deparei-me com uma citação de José Saramago em que nunca tinha reparado: "Uma linguagem que decide sugerir e propor, em vez de explicar e impor".

    Este encontro inusitado entre o autor do livro que seleccionei para a minha vida de eremita e a obra mencionada no seu post reforça a minha convicção na capacidade singular da literatura para nos surpreender e estabelecer vínculos intrincados entre autores, obras e leitores.

    "Ensaio sobre a Cegueira", a minha escolha (portuguesa) para a ilha deserta, partilha desta perspectiva em sua concepção. Saramago demonstra uma maestria na arte de sugerir e propor, em detrimento de explicar e impor, resultando numa narrativa que nos instiga à reflexão e à construção das nossas próprias interpretações, o que me levou a seleccioná-lo para a tal viagem.

    A citação de Saramago na capa desta terceira edição de "La Coca" ressoou em mim como uma espécie de aval à sua sugestão. Se uma editora conceituada como Maria do Rosário considera "La Coca" notável, e se Saramago, um dos mais proeminentes literatos da língua portuguesa, apreciou a linguagem e a técnica de Rentes de Carvalho, é provável que eu também venha a retirar um enorme prazer desta leitura.

    Com uma pitada de antecipação, estou prestes a "snifar" o "La Coca", esperando que, tal como dizem da substância que dá título à obra, me proporcione um prazer intenso e viciante, sem as consequências nefastas da cocainomania.

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  5. Prezado Fernando Venâncio,

    Dirijo-me a si com imensa deferência para expressar a profunda reverência que tenho pela sua obra. A sua dedicação ao estudo do idioma português é, sem dúvida, um farol inspirador. As suas publicações, em particular "Assim Nasceu Uma Língua" e "O Português à Descoberta do Brasileiro", representam para mim fontes de prazer literário e referências essenciais.

    É admirável como consegue, através da sua eloquente escrita, conduzir-nos às profundezas da nossa língua, desvelando a sua rica tessitura de maneira acessível, sem nunca comprometer a erudição e o rigor académico. A sua paixão pela língua portuguesa é verdadeiramente cativante.

    Este post da Maria do Rosário incentivou-me a ler o "La Coca" do seu estimado amigo, Rentes de Carvalho. Confesso que ainda não li nenhuma a obra deste seu amigo, mas, ciente agora do louvor conferido à sua prosa por nomes tão respeitados como Maria do Rosário e José Saramago, sinto-me agora motivado a finalmente embarcar nessa leitura.
    No entanto, quero que saiba que, para mim, uma recomendação sua, caro Fernando Venâncio, tem um peso ainda maior. Peço desculpas à estimada Maria do Rosário por esta pequena "infidelidade" e descortesia, mas devo admitir: tenho enorme prazer em ler as suas obras, Fernando, e isso leva-me a valorizar ainda mais a sua opinião.

    Assim, com a sua bênção tácita, vou iniciar a leitura de "La Coca", na expectativa de que, mesmo se proporcionar apenas uma quarta parte do prazer que desfruto ao ler um dos seus livros, Fernando, já será uma experiência de leitura extremamente gratificante.

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  6. Este é o livro que serviu de inspiração à série Rabo de Peixe da Netflix?

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  7. Já passei por Rentes de Carvalho em duas ocasiões. Ernestina e O Meças. Cada um deles foi marcante, de forma distinta, fruto da ocasião de leitura. Tenho, também, grandes expectativas para o resto da obra.

    Aproveito para deixar aqui o meu canto na internet, um local bem recente mas que espero permaneça durante algum tempo: https://falhamosavida.blogspot.com/

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