Morte assistida

O papa Francisco ficou zangado com Portugal por ter sido finalmente promulgado pelo Presidente da República o decreto que permite a morte assistida. Gosto do papa Francisco e adoro o seu sorriso e algumas das suas tiradas corajosas, mas sou claramente a favor da eutanásia e, por mim, estendê-la-ia até a outro tipo de casos menos drásticos. Admiro, de resto, a coragem de alguns para decidirem a hora da sua morte (seja por suicídio ou morte assistida), como aconteceu, por exemplo, com Stefan Zweig ou o escritor flamengo Hugo Claus. O primeiro fartou-se do mundo tremendo em que vivia e matou-se juntamente com a mulher no Brasil, o que, passe o paradoxo, é uma morte bonita. O segundo, que sofria de Alzheimer, deu uma entrevista à televisão e, quando se viu no pequeno écran uns dias depois, percebeu que já não estava em condições e resolveu que não queria fazer figuras tristes; sem dizer nada a ninguém, passou uns meses a organizar a sua partida, almoçou com todos os amigos para se despedir e, num belo dia, deu entrada pelo seu próprio pé numa clínica onde o ajudaram a morrer. Duas histórias que podem parecer realmente chocantes a alguns, sobre tudo aos católicos, mas que a mim me parecem actos de grande lucidez.

Comentários

  1. Sobre a morte de Stefan Zweig, em Petrópolis, um dos meus escritores favoritos, ler uma boa biografia dele, da autoria de Alberto Dines, escritor brasileiro, intitulada Morte no Paraíso.

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  2. Publiquei-a há muitos anos em Portugal, na editora Temas e Debates. Um grande livro.

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  3. Foi, talvez, o último livro que, do Círculo de Leitores, comprei. Excelente e belo livro, do prestigiado jornalista brasileiro, Alberto Dines, esta biografia de um biógrafo (Stefan Zweig) !

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  4. António Luiz Pacheco23 de maio de 2023 às 03:31

    Não apenas os católicos, mas práticamente todas as religiões condenam o suicídio, e portanto, a morte assistida.
    Sou católico. Porém não faço esse tipo de juízos como não faço muitos outros... cada um sabe de si.
    A história está cheia de suicídios famosos, pelas mais variadas razões. Não comento, pois como disse, cada um sabe de si, e, o desespero que leva ao suicídio é para mim algo de sagrado e que me angustia.
    O que me causa preocupação com a legalização da morte assistida, não é a morte em si, por escolha consciente, opção pessoal, é o receio de estar a abrir-se uma porta. Conheço bem a humanidade e a história está cheia de tristes exemplos daquilo que os governantes fazem no abuso das suas prerrogativas de poder, como a própria sociedade.
    Vejo com consternação o autoritarismo (crescente e curiosamente à esquerda que se afirma libertária, apesar desta agitar o fantasma do fascismo, talvez para distrair) que se está a instalar, subtilmente, devagarinho, mas a tomar conta de todos os sectores e a pretender regular e dirigir toda a nossa vida. Temo por isso que um dia, com a evolução e "melhorias" na lei, já não seja apenas questão de se poder optar pela "morte assistida" em casos graves e terminais (o que não me choca) mas sim de determinar que esses casos passem a ser obrigatórios e a eutanásia passe para as mãos de comissões de avaliação da qualidade da vida ou mesmo decidida pela família, numa sociedade cada vez mais desumanizada que assim se libertará dos doentes, dos incapacitados, dos velhos que custam dinheiro aos estados ou famílias, assim poupando nas reformas, poupam no custo dos cuidados, poupam em muita coisa e sobretudo livram-se do incómodo que são essas pessoas dependentes, numa sociedade cada vez mais egoísta, insensível e cheia de sensibilidades trocadas que achará melhor eliminar o velhote com que se cruza no andarilho, do que vê-lo a arrastar-se, o que lhe causa grande incómodo.
    No entanto antes de apoiarmos a "morte assistida", é lembrar aqueles amigos, parentes, conhecidos, que visitámos nos hospitais em fase terminal e se agarravam à última centelha de vida com o desespero de quem não quer morrer. O seu olhar, o aperto da mão, ânsia ...
    É que é muito bonito e fácil, quando se está de saúde e força, dizer que preferimos morrer a viver assim... a questão é depois quando lá chegarmos e for a nossa vez!
    Se calhar valia a pena pensarmos nisso, antes de dizermos bravatas que parecem bem e denotam uma coragem que se pretende seja esclarecimento. É que diante da morte as coisas são diferentes. Quem já o experimentou sabe-o e sabe que se agarra à vida,

    Saudações pensantes e vivas cá da Cidade Morena.

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  5. Haver morte assistida não é obrigar ninguém a optar por ela. E, embora muitos se agarrem à vida em horas tremendas, como diz, outros, como os exemplos que dei no texto, preferiram sair da vida na altura que entenderam. Não há duas pessoas iguais e não devemos generalizar.

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  6. António Luiz Pacheco23 de maio de 2023 às 04:20

    Não generalizo, apenas recordo as pessoas que assisti em fases terminais da sua vida e nem por isso desejavam morrer! Suponho que já tenha passado por essa experiência e que a tenham marcado?
    Por outro lado, reitero aquilo que disse: desconfio muito que a prática da morte assistida, que aliás se justifica em circunstâncias concretas, possa vir a evoluir para eutanásia imposta, sim, e não me chamem doido, mas reflictam naquilo que eu disse.
    Já cá não estaremos para ver, mas temo que seja a antecâmara do fim da doença, do envelhecimento, das pensões e reformas, da invalidez.
    Enfim, os cavalos também se abatem (romance de Horace Maccoy) já que estamos num local de leituras. Deu origem a um filme de culto de Sidney Pollack.

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  7. Atenção que deveremos reflectir sobre as palavras do Paxeco, nomeadamente sobre a. "sociedade cada vez mais egoísta, insensível e cheia de sensibilidades trocadas que achará melhor eliminar o velhote com que se cruza no andarilho..." pois devo salientar que hoje mesmo o Prof. Júlio Machado Vaz, na sua rubrica diária na Antena 1 (às 9h20), falou sobre o assunto que é actualmente um tema muito preocupante no Japão (que parece querer determinar a eutanásia nos mais controversos casos, indo de encontro ao que realmente preocupa o Paxeco. É realmente preciso reflectir, porque isto é mesmo um caso de vida ou de morte.

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  8. Também li o Horace McCoy, mas não acredito no que diz, lá porque existe um livro que preveja uma situação isso não quer dizer que seja profético. Cada um com as suas ideias, o que é óptimo,

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  9. António Luiz Pacheco23 de maio de 2023 às 05:33

    É claro que sim! É até mais do que óptimo, é Extraordinário!
    Apenas falei no romance para lembrar que é tema já tratado por escritores... creio que há mais porém este teve a notoriedade do filme.
    Os livros não são proféticos? Olhe que não, doutora, olhe que não... quero dizer que a escrita não é mais do que o espelho da vida, pelo que muitas vezes o que é ficção vem a concretizar-se, alguns autores têm esse dom, o da premonição. Será?

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  10. um irmão e um cunhado (cancro) em grande sofrimento lutaram pela vida até se findarem.
    Desesperaram pela vida e não pela morte.

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  11. Mau Maria. Somos contra o aborto, não o praticamos. Somos contra a eutanásia, idêntico. Mas deixem a lei ser lei. Quanto aos aproveitamentos e desenvolvimentos...alguma lei permitia as atrocidades praticadas por Hitler e seus apaniguados?! Não, mas foram prática. Permitir que alguém, se assim o desejar, pare o seu sofrimento intolerável, parece-me um bem. O papa Francisco, todos os católicos - ou só alguns - e quem assim o deseje, que ame a vida até ao fim e nas condições que sejam as suas. E se estivermos a criar um precedente, uma aberta para a mortandade dos incómodos? Bom, mas, se esses tais ao abrigo de uma lei que não o permite, se lembrarem de fazê-lo, é que não têm moral. E alguém acredita que se a lei não existir, não conseguem criá-la?!

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  12. António Luiz Pacheco23 de maio de 2023 às 14:04

    Aquilo que Hitler e os seus apaniguados fizeram, que não foi só ele a idealizá-lo, era legal sim! Completamente legal, legalizado, oficial e oficializado por um governo legítimo porque eleito para governar e levar a cabo tamanha monstruosidade.
    Não foi aliás único na história da humanidade, daí as minhas reticências.
    Era mesmo o objectivo da política e da ideologia nazi, foi a "solução final", um plano sinistro, mas implementado e perpetrado por pessoas, pessoas que detinham o poder, que até foram eleitas, volto a lembrar!
    Convinha não esquecer... e não foram só judeus os que eram eliminados, lembremo-nos também disso!

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  13. Ora, ora, era legal porque eles assim o fizeram. Porque o medo da violência e do poder que detinham e ostensivamente mostravam, levou os "Inimigos" a baixar a cabeça. Obrigou-os. Coagiu-os. Se fosse um poder legítimo não teriam existido mais tarde os julgamentos que se conhecem. Foram crimes contra a humanidade. Podem voltar a acontecer, mau grado a repugnância que parece eclodir à mera recordação. O pior do homem existe sempre e nem sempre dorme.
    Bem sei que não foi apenas contra os judeus, mas eles foram, de longe, o maior número e a maior obsessão de Hitler. Como sei que uma única pessoa não consegue resultados tão exuberantemente danosos. O regime era contra todas as minorias, ciganos, incapacitados e deficientes, homossexuais, e outra gente que prejudicava a formação da raça perfeita. Segundo a ideologia vigente, nada aportavam de benéfico, serem eliminados representava poupança. Havia pessoas, os arianos. E do resto se veria.

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  14. António Luiz Pacheco24 de maio de 2023 às 05:58

    "Porque o medo da violência e do poder que detinham e ostensivamente mostravam, levou os "Inimigos" a baixar a cabeça" , bom e há algum regime onde tal não aconteça? Seja ele eleito ou imposto?

    Quanto ao holocausto/solução final: - Precisamente! Era legal porque eles assim o fizeram com a legislação para isso. Nem vale a pena citar outros regimes que legalizaram idênticas violências e morte dos seus povos, ao longo da história. Daí o meu receio de que se esteja a abrir uma porta para no futuro haver essa hipótese, legitimada por leis feitas por governos eleitos...
    Note que os nazis foram eleitos, portanto estavam legitimados pelo sufrágio, ao contrário dos sovietes, de Mao, de Pol Pot, de Ho Chi Minh, Pinochet, Fidel e outros que tomaram o poder á força. É curioso e faço-o notar: - Hitler foi sufragado e foi eleito!

    Saudações cá da Cidade Morena.

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  15. Quando admira a decisão de Stefan Zweig de terminar a própria vida por se sentir “farto do mundo em que vivia”, receio que essa visão possa ser um tanto superficial. Parece-me que falta um envolvimento mais crítico e reflexivo com o contexto sociopolítico no qual Zweig estava inserido - um mundo em convulsão devido à ascensão do nazismo e à Segunda Guerra Mundial - e o profundo trauma psíquico que isso lhe infligiu. A nota de suicídio de Zweig, em que afirma, entre outras coisas, “[...] começar tudo de novo após o 60º ano de um homem requer poderes especiais” [tradução minha], revela um homem exausto, um testemunho do sofrimento emocional por que estava a passar. Enquadrar o seu suicídio como uma “morte bonita” pode ser considerado uma romantização que carece de uma compreensão mais profunda das complexidades envolvidas na sua decisão.

    Ademais, a sua narrativa parece negligenciar por completo a presença de Lotte, a segunda esposa de Zweig, muito mais nova que ele. No suicídio de Zweig, um facto que chama a atenção é a ausência de menção a Lotte na sua nota de suicídio, apesar de ela ter compartilhado o seu destino final.
    Essa ausência deixa uma lacuna nas nossas suposições sobre o consentimento e a vontade de Lotte neste acto extremo. Existe, na sua análise, uma suposição tácita de que ela acompanhou Zweig voluntária e conscientemente no suicídio, contudo, não dispomos da perspectiva de Lotte ou de qualquer nota deixada por ela. A morte de Lotte parece ecoar o antigo costume hindu de Sati, sendo que neste caso uma jovem mulher de 33 anos se sacrificou na pira funerária do grande homem que não quer recomeçar a vida após o seu 60.º aniversário.
    Assim, considero uma omissão crítica na sua narrativa admirar o suicídio de Zweig, mas descurar as circunstâncias da morte de Lotte, que, na ausência de provas directas em contrário, poderia potencialmente ter sido uma decisão tomada sob coerção, ou, no mínimo, resultante do exercício de um poder nefasto. (Rosa Montero tem uma análise acutilante sobre este suicídio no seu livro "El peligro de estar cuerda").

    Em conclusão, embora o debate sobre a morte assistida e o suicídio possa envolver muitas questões filosóficas e éticas complexas, é fundamental manter uma abordagem matizada que leve em conta as circunstâncias individuais e os contextos societários. Isto implica questionar qualquer romantização do suicídio, que pode ofuscar as realidades mais profundas de sofrimento pessoal e desigualdade que possam estar presentes. Respeitar a autonomia individual é fundamental, mas é igualmente crítico garantir que essa autonomia seja genuinamente individual e não produto de coerção, influência ou negligência.

    Nota para leitores:
    Se o leitor ou alguém que conheça está a passar por dificuldades emocionais ou a considerar o suicídio, por favor, peça ajuda. Em Portugal, a Linha SOS voz amiga oferece apoio emocional e de prevenção do suicídio. Pode ligar para os números 213 544 545, 912 802 669 ou 963 524 660, disponíveis diariamente das 15h30 às 00h30. Não hesite em procurar ajuda. Todos nós enfrentamos momentos de crise, mas ninguém precisa passar por isso sozinho

    Nota para escritores:
    O suicídio é um assunto complexo e delicado que merece ser sempre tratado com o máximo respeito e consciência. Algumas considerações úteis para quando se escreve sobre suicídio:
    a) Evitar detalhes sensacionalistas ou explícitos acerca do método, local ou circunstâncias do suicídio, já que podem incentivar actos impulsivos por parte de pessoas em situação de vulnerabilidade;
    b) Abster-se de glorificar ou romantizar o suicídio ou a pessoa que o cometeu. É crucial lembrar que estamos perante uma tragédia humana, resultado de um profundo sofrimento;
    c) Evitar utilizar expressões como "suicídio bem-sucedido" ou "fracasso no suicídio", que podem transmitir uma mensagem negativa ou de julgamento e contribuir para a estigmatização do suicídio;
    d) Incluir informações acerca dos factores de risco, sinais de alerta e formas de procurar ajuda

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  16. António Luiz Pacheco24 de maio de 2023 às 07:33

    Extraordinária Graça Ventura, gostei muitíssimo de a ler.
    Interessante aquilo que refere sobre o suicídio de Zweig/Lotte, pois é! Será um mistério que podia dar para um bom romance, até porque como bem diz, ninguém comete suicídio por estar feliz na vida! E, ninguém pode deveras garantir tenha sido voluntário e de comum acordo.
    Para mim, a morte é um assunto sério, até demais para ser entregue ao debate político num parlamento cheio de aberrações, canalhas, protocriminosos, desequilibrados de todo o tipo, mentes perturbadas, e gente que carece em geral de honestidade de qualquer tipo!
    Destaco aquilo que diz e me faz eco: - "É crucial lembrar que estamos perante uma tragédia humana, resultado de um profundo sofrimento;".

    Saudações cá da Cidade Morena.

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