Excerto da Quinzena

Fábulas de animais - incluindo fábulas de peixes mortos que falam - têm estado entre as histórias mais persistentes do cânone oriental; e as melhores entre elas, ao contrário, digamos, das fábulas de Esopo, são amorais. Não procuram pregar sobre humildade ou modéstia ou moderação ou honestidade ou abstinência. Não garantem o triunfo da virtude. Como resultado, parecem extraordinariamente modernas. Por vezes, os maus da fita ganham.


A colecção conhecida na Índia como Panchatantra apresenta um par de chacais que falam, Karataka, o bom ou melhor dos dois, e Damanaka, o malvado conspirador. No início do livro estão ao serviço do rei leão, mas Damanaka não gosta da amizade do leão com outro cortesão, um touro, e convence o leão a acreditar que o touro é um inimigo e a assassinar o animal inocente enquanto os chacais assistem.


Fim.


Nos contos de Karataka e Damanaka também lemos sobre uma guerra entre corvos e corujas em que um corvo finge ser um traidor e se junta às corujas para descobrir a localização da caverna onde vivem. Depois os corvos ateiam fogo em todas as entradas da gruta e as corujas sufocam até à morte.


Fim.


 


Salman Rushdie, Linguagens da Verdade, Ensaios 2003-2020, tradução de Isabel Lucas

Comentários

  1. "O pintor Oskar Kokoschka estava tão apaixonado por Alma Mahler que, quando a relação acabou, mandou construir uma boneca, de tamanho real, com todos os pormenores da sua amada. A cara à fabricante de marionetas, que era acompanhada de vários desenhos com indicações para o seu fabrico, incluía as rugas da pele que ele achava imprescindíveis. Kokoschka, longe de esconder a sua paixão, passeava a boneca pela cidade e levava-a à ópera. Mas um dia, farto dela, partiu-lhe uma garrafa de vinho tinto na cabeça e a boneca foi para o lixo. Foi a partir daí que ela se tornou fundamental para o destino de várias pessoas que sobreviveram às quatro mil toneladas de bombas que caíram em Dresden durante a Segunda Guerra Mundial".
    Afonso Cruz, A Boneca de Kokoschka, Companhia das Letras, 2018, p.200.

    ResponderEliminar
  2. Perdão, "A carta à fabricante..."

    ResponderEliminar
  3. Fui soltando o meu queixume de tempos a tempos, dobrando-me a palpar as rótulas, boca às escâncaras, olhos semi-cerrados, todo o físico na orquestração mímica da guinada reumática... Os guardas da escolta, quando tal se dava, abrandavam o passo. O gordanchudo, encostando-se a mim, como que me oferecia amparo. O outro dava dois passos à frente e estacava à espera que acabasse o entremez, olhos ao largo sem me fitar. E assim fomos descendo [...]. Ia eu no meio dos dois, coxeando, saltando mais a miúde os meus ais sustenidos para inculcar--me uma lástima de percluso. Entretanto, o gordo puxava o pacatíssimo paivante. O picado das bexigas, esse, encabara as mãos nas algibeiras do seu sobretudo de algibebe e assobiava. Fiz menção de me abaixar, o que não surpreendeu os guardas. E acto contínuo apliquei aos dois um assombroso "croc-en-jambe". Com tal ímpeto descarreguei os braços à retaguarda sobre os seus arcaboiços, que o pançudo, que caminhava à direita, se pespenhou como uma massa; o outro foi cambaleando, tacteando o muro até se estatelar contra a sarjeta. E eu despedi como um raio. Ao fundo da rua, torneei para [outra...], sempre a mata-cavalo. Ao dobrar a esquina [...], já o magrizela, refeito do trambolhão, corria no meu encalço gritando:
    - Agarra! Agarra que é ladrão! Agarra!
    Era este o brado que eu mais temia. Mais duma vez tinha assistido a montarias ao homem nas ruas de Lisboa, onde cada honesto cidadão arma em caçador do seu semelhante. Não há sujeito cordato, nem dona barbuda que se não julgue na obrigação de cortar o caminho ao fugitivo. Cidade peregrina pelos nobres sentimentos, abnegada, altruísta, neste particular roça a vilania.
    Aquilino Ribeiro- Lápides Partidas

    ResponderEliminar
  4. *DESPENHOU como uma massa

    ResponderEliminar
  5. 8h30
    TORRE NORTE
    A primeira a chegar ao escritório situado no 89°. andar do Edifício 1 do World Trade Center, como sempre Dianne DeFontes, fechou a porta atrás de si, depois trancou-a com uma fechadura cujos braços entravam no tecto e no chão.

    "102 minutos"
    Jim De ter é Kevin Flinn
    - Uma obra-prima que reconstitui, minutos a minutos, o ataque às Torres Gémeas, a 11Setembro2001

    ResponderEliminar
  6. «Em tudo o resto, a nossa vida de casados corria sem percalços. Estávamos a aproximar-nos do quinto aniversário de casamento e, como nunca estivéramos loucamente apaixonados um pelo outro, conseguíamos evitar aquele estado de cansaço e tédio que pode transformar um casamento num verdadeiro tormento. O único senão era que, como decidíramos adiar a ideia de ter filhos até arranjarmos casa própria, o que só acontecera no último outono, às vezes punha-me a pensar se alguma vez chegaria a ouvir aquele som reconfortante de um bebé a balbuciar «papá» referindo-se a mim. Até um certo dia, em fevereiro passado, em que me cruzei de madrugada na cozinha com a minha mulher, ainda em camisa de dormir, nunca pensara na possibilidade de a nossa vida em comum poder sofrer uma mudança tão radical.» - "A Vegetariana", de Han Kang.

    ResponderEliminar
  7. «Nas profundezas da floresta de Avianor, a "Grande Asa" - eclética colónia de aves de tendência manirrota - debatia-se no meio de um temporal. Sob as plumas multicoloridas, a aparente harmonia era um disfarce para uma inquietação latente e fervilhante.
    De forma surpreendente, a Faisã Alankrita, de plumagem iridescente, abandona a "Grande Asa", carregando consigo uma dádiva demasiado generosa, causando alvoroço entre os pares.
    A jovem Coruja Ekagra, emissária do "Clã do Papagaio Vermelho" - uma facção notada pela sua dissonância - convocou o ilustre Parlamento das Aves Raras. Este conclave de habitantes veneráveis da floresta contava com a presença do astuto Cervo Prakash e do perspicaz Corvo Vishal.
    Numa das primeiras congregações, o impetuoso Leopardo Chatura e a sinuosa Serpente Mandavisarpini envolveram-se numa discórdia efervescente, desviando as atenções do propósito primordial e antecipando tempos conturbados.
    Perante tal desordem, o magnânimo Rei Samrat nomeia o sagaz Chacal Damanaka para liderar a "Grande Asa". Damanaka, porém, em breve se vê submerso num turbilhão de controvérsias.
    No território sob o domínio de Damanaka, desenrola-se um episódio chocante. Um Crocodilo belicoso desafia a pacífica Pomba Shanti e a meiga Lebre Mandira, originando uma onda de indignação por todo o reino. A tensão culmina quando o Crocodilo, num ímpeto de fúria, arremessa um artefacto desprovido de asas contra o santuário de Damanaka, exacerbando o tumulto.
    Afligido pela desconfiança e inquietação, Damanaka propõe ao Rei Samrat propor-lhe a sua renúncia. O monarca aceitou a proposta de Damanaka e dizendo-se convicto da sua inocência, declinou aceitar a sua renúncia. O poderoso Elefante Dheeraj, uma influência notável no reino, ficou muito desapontado, pois aguardava uma mudança nos domínios da Grande Asa.
    E assim, o reino das aves enfrenta as adversidades, com a "Grande Asa" esforçando-se para se elevar acima das correntes turbulentas de poder e política. Cada novo dia traz um desafio aos habitantes, levando-os a questionar se a sabedoria, a coragem e a justiça serão verdadeiramente a estrela polar no coração da tempestade.»

    Narada, Francisco. "Tumultos e Plumas: Contos de Pássaros e Passarões". Goa: Tipografia Alvorada Portuguesa (TAP), 1821.

    Nota: no prefácio do seu livro, Francisco Narada, um enigmático contador de histórias prenhes de sabedoria ancestral, cujas palavras ecoam como sussurros dos tempos perdidos, escreveu o seguinte:
    «Aviso: Qualquer semelhança entre os personagens, eventos e situações aqui narrados e a realidade é uma verdade absoluta e indiscutível. Embora possa parecer inacreditável, a vida frequentemente ultrapassa a própria ficção, e as peripécias aqui retratadas têm as suas raízes profundamente entrelaçadas nas complexidades do mundo real. Portanto, caros e ousados leitores, preparem-se para se maravilhar com as coincidências surreais e aprofundar a vossa incompreensão sobre a loucura e a imprevisibilidade da existência. Desfrutai desta jornada literária e lembrai-vos: a verdade reside além das fronteiras, mas pode também ser encontrada entre estas páginas!»

    ResponderEliminar
  8. Teresa Palmira Hoffbauer12 de maio de 2023 às 13:11

    „O vento havia aumentado e os densos arbustos verdes que escondiam seu corpo imóvel farfalhavam e balançavam. Relâmpagos rasgaram o céu a oeste: ziguezagues brancos e roxos brilharam atrás do brilhante horizonte de Manhattan. Começaria a chover agora também, e logo. Ele se agachou na vegetação rasteira e cerrou os dentes enquanto seu pescoço enrijecia com o estrondo do trovão. Só faltou isso. Um aguaceiro enquanto ele estava sentado aqui à espera da cadela voltar para casa.“

    CUPIDO || Jilliane Hoffman

    É um thriller jurídico e não psicológico

    ResponderEliminar

Enviar um comentário