Cinema e literatura

A relação entre livros e filmes é antiga, e muitas das longas metragens que vamos vendo por aí são baseadas em contos, peças e romances, ainda que por vezes os títulos sejam diferentes e as adaptações francamente livres. Há também vários cineastas que escrevem os argumentos dos próprios filmes (Woody Allen, por exemplo) e, ainda que o contrário seja menos comum, este mês a Cinemateca de Lisboa vai ajudar-nos a descobrir (ou redescobrir) alguns escritores que também realizaram filmes. Num ciclo chamado Escritores-Realizadores, alguns são notórios (Marguerite Duras, por exemplo, fez vários filmes) ou foram recentemente falados (Annie Ernaux e o Les années Super 8 que assina com o filho, creio); mas muitos leitores desconhecem que Paul Auster ou Stephen King também fizeram cinema, e bem assim Pier Paolo Pasolini, Alain Robe-Grillet, Jean Genet ou Fernando Arrabal. Consulte, pois, a programação de Maio da Cinemateca e veja os filmes destes escritores-cineastas. A inciativa tem justamente a colaboração da Associação Portuguesa de Escritores.

Comentários

  1. Efectivamente a relação entre livros e filmes é antiga e profícua, e muitos, muitos filmes foram baseados em histórias de livros (quase sempre os livros são melhores que os filmes, salvo raras excepções, como por exemplo "20 anos escravo").
    Mas para além de Woody Allen, que não sei se o deverei considerar escritor se cineasta (talvez para além do Pasolini) não conheço mais nenhum caso em que haja esta simbiose escritor/realizador, para além de algumas (breves) incursões no cinema como creio que terá sido o caso do Paul Auster e do Stephen King e até do nosso Vergílio Ferreira (no Manhã Submersa).

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  2. E mesmo quando não baseia os argumentos em obras literárias, o cinema, por vezes, invoca a presença ou referência dos livros nos filmes. É o caso do cinema de Almodôvar (que também escreve e publica), em especial "Dor e Glória". Vi no âmbito do Indie Lisboa o filme de Joná Trueba (que por acaso é filho do realizador Fernando Trueba) que também invoca a literatura. Chama-se "Tenéis que venir a verla" e já estreou em sala, fora do âmbito do festival. É um filme muito bonito que defende aquele cinema intimista de lentidão e pensamento (apesar de ser um filme de duração relativamente curta) que, tal como a literatura, exige do espectador que abrande o ritmo e se recolha em momentos de tranquilidade, introspecção e reflexão. Susana

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  3. Em Portugal, houve um realizador que também escreveu vários livros no género de fantasia/terror, o António de Macedo.

    LAC

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  4. António Luiz Pacheco4 de maio de 2023 às 05:57

    Bom, o cinema sem a escrita, pura e simplesmente não existe!
    A menos que seja uma filmagem completamente espontânea, em que os actores improvisem ou tenham sido instruídos oralmente!
    Digo isto porque há sempre um guião, que contém as falas, até os movimentos, as expressões que devem ser reproduzidas, e por aí fora. Portanto há ESCRITA, sempre!
    Os guionistas acabam por ser escritores, óbviamente. Há mesmo guionistas ou argumentistas muitíssimo bons e com tanto sucesso quanto os escritores.
    Portanto nem nada de novo, nem nada que admire.
    Se formos a ver, literatura e cinema complementam-se, porque afinal quando estamos a ler não estamos a formar imagens na nossa idéia? Aliás é isso que tem de bom a leitura, para mim, pois faço eu o meu filme de acordo com o guião que o livro é! No cinema é o que estamos a ver na tela, não dá para imaginar... prefiro por isso os livros ao cinema!
    No resto, gosto de poucos filmes europeus... alguns ingleses que ainda por cima têm belíssimos actores, e quase nada de cinema italiano, francês, alemão, português, etc.
    Enfim, saudações livrescas e cinéfilas cá da Cidade Morena.

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  5. Há sempre escrita, mas nem sempre literatura. Escriyta até há num recado. São coisas muito diferentes.

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  6. António Luiz Pacheco4 de maio de 2023 às 07:10

    Certíssimo... mas é escrita na mesma, tem de fazer sentido, apesar de ser como diz, igual a um rótulo de lata de conserva. Aliás fazem-se as tais adaptações, pelo guionista não sendo possível transcrever as falas do livro para o actor. Claro que não é obrigatóriamente Literatura, mas é na mesma leitura, e isso é que conta!!!! Cinema sem escrita não pode haver.

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  7. Vou apenas falar de dois escritores que a Maria do Rosário referiu:
    1- Annie Ernaux
    O filme é um conjunto de vídeos feitos pelo marido aquando das férias em família. Ela escreveu as palavras e escolheu as imagens que aparecem neste documentário realizado por um dos filhos. Gostei de ver e, claro, também aparecem imagens de férias em Portugal.
    2- Paul Auster
    Gosto muitíssimo do Smoke, filme realizado em conjunto com Wayne Wang (1995), com várias histórias, uma delas de Natal, belíssima, com um Harvey Keitel em estado de graça.
    Vale muito a pena ver.
    Uma curiosidade: A Vida Interior de Martin Frost (outro filme dele) foi rodado em Portugal.
    Boas leituras 📚
    Bons filmes 🎬
    map

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  8. coff... aqui está um "pequeno" contra-exemplo

    https://www.youtube.com/watch?v=GMI8-b5Zbzg

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  9. Rosa Cláudia Gonçalves10 de maio de 2023 às 03:38

    Obrigada pela sugestão.

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  10. Ao ler isto imaginei o António Lobo Antunes a realizar um filme… Estava nestas elucubrações quando dei por mim a inventar uma crónica do Lobo Antunes a remorar a sua experiência contrafactual de realizador:

    Título da hipotética crónica: "Do Papel à Película: Uma Jornada pelo Labirinto da Memória"

    "Lancei-me na tarefa hercúlea de transmutar "Memória de Elefante", a minha primeira criação literária publicada, em fotogramas e diálogos, plenamente ciente do precipício que se estendia à minha frente. Sou um homem das letras, habituado a sussurros na página branca, experimentado em duelos com a caneta - a arte de dirigir actores e câmaras é-me tão estranha quanto a cacofonia ensurdecedora de um "Acção!" em plena filmagem. Porém, a ideia de ver Fernando e Sofia, filhos da minha imaginação, a ganharem contornos e cores na tela parecia-me um desafio sedutor.
    O processo revelou-se um labirinto de espelhos, um percurso sinuoso repleto de armadilhas inesperadas. Cada cena que se desenrolava diante dos meus olhos, cada palavra pronunciada pelos actores, agia como um gume afiado que dissecava o passado e trazia à luz memórias e sentimentos que julgava sepultados. Num piscar de olhos, a fronteira entre a minha memória e a de Fernando começou a dissolver-se, como açúcar em água ebuliente.
    Nuno Lopes e Victoria Guerra, actores que escolhi para encarnarem Fernando e Sofia, provaram ser mais do que meros veículos para o texto. Foram faróis, iluminando o caminho desta travessia cinematográfica inusitada. Por vezes, parecia-me que Fernando e Sofia haviam abandonado o conforto do papel para se manifestarem diante de mim, exigindo reconhecimento e deferência.
    Porém, esta prova foi repleta de peripécias. Houve uma que me atingiu como um soco no estômago. Estávamos a filmar uma cena do passado, onde Fernando, ainda menino, se encontrava com o pai na Angola colonial. O jovem actor que dava vida ao Fernando menino parecia patinar no gelo da cena, e eu, na minha inocência de realizador debutante, esforçava-me, em vão, para o orientar. Simultaneamente, a equipa de filmagem olhava para mim como se eu fosse um ser de outro planeta, incapaz de compreender o que tentava transmitir. "Desejam pirotecnia, anseiam por explosões, querem acção", murmurava para mim mesmo. "Isto não é um espectáculo de super-heróis, é a vida como ela é: crua, despida, implacável. Não vou maquilhar a realidade para satisfazer os desejos de audiências sôfregas de adrenalina."
    No auge do desespero, sentei-me com o rapaz e contei-lhe a história de Fernando, não como um realizador a um actor, mas como um avô a um neto. Quando retomámos a filmagem, o rapaz tinha nos olhos um novo brilho de entendimento, e a cena fluiu com uma autenticidade que me fez estremecer.
    A realização de "Memória de Elefante" foi um combate, um confronto, uma expedição ao coração pulsante da memória e da criação. E, no fim, apesar de todas as provações e batalhas, parece-me que o filme e o livro são, de alguma forma, duas faces da mesma moeda - uma narrada em palavras, a outra em imagens, mas ambas repletas de ecos e reflexos das vidas que vivemos.
    Foi um desafio que aceitei, um duelo que lutei, e uma jornada que percorri. Os obstáculos, eram como as ondas do mar, infindáveis e intransigentes. Mas como o marujo persistente, eu segui.
    Naquela cena, onde Fernando, ainda menino, se encontrava com o pai na Angola colonial, eu vi-me a mim mesmo, eu vi o menino que fui, o homem que sou. O rapaz, que antes patinava na cena, começou a dançar numa melodia que só ele podia ouvir. E eu, o observador distante, vi a minha vida a desenrolar-se diante dos meus olhos, através das lentes da câmara.
    "Memória de Elefante" foi uma jornada ao âmago do que significa ser humano, uma viagem ao coração pulsante da existência. E, no final, apesar de todas as dificuldades, acho que valeu a pena. Porque, no fim de contas e contos, somos todos feitos de memórias e momentos, ecos e reflexos da vida que vivemos. E, de alguma forma, acho que consegui captar isso, tanto no livro co

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