ADN
Uma Questão de ADN, um programa da TSF conduzido pela excelente jornalista Teresa Dias Mendes. é um dos que insisto em não perder. O ponto de partida é escolher alguém que está a dar que falar por alguma razão e juntar-lhe outra pessoa da mesma família (daí o ADN) para que a conversa a três siga naturalmente por caminhos mais privados e desconhecidos. Recentemente, calhou a vez a Paulina Chiziane, a propósito da entrega do Prémio Camões, e à sua filha, psicóloga clínica, Maria Salomé Cabo. E achei piada quando esta contou que nunca valorizara excessivamente o que escrevia porque, desde miúda, via a mãe deitar fora textos que lhe mostrara e que ela achara maravilhosos. O grau de exigência de Paulina, porém, acabou por condicionar a filha (que, ao que parece, escreve poesia que outros elogiam, mas não a publica). A questão tem a sua graça. Na arte de representar, há imensos filhos que seguem as pisadas dos pais (basta olhar para Hollywood); na música, são também muitos os casos de hereditariedade (basta ver os concertos de Caetano Veloso com os seus três filhos); porém, na escrita, embora haja alguns casos (Martin Amis é filho de Kingsley Amis), julgo que há menos exemplos de escritores filhos de escritores. Será que os filhos têm receio do juízo dos pais, ou serão os pais que os tornaram demasiado exigentes?
Assim de repente: Ana Margarida de Carvalho - filha de Mário de Carvalho; Cristina Carvalho - filha de António Gedeão e Natércia Freire.
ResponderEliminarCristina Carvalho é filha de António Gedeão (Prof. Rómulo de Carvalho) e Maria Natália Nunes.
ResponderEliminarRita Taborda Duarte também é filha de Mário de Carvalho.
Bom dia.
Bom dia, AmaLivros
ResponderEliminarEu sou filha de Rómulo de Carvalho que usou o pseudónimo de António Gedeão e da escritora e tradutora Natália Nunes.
Muito obrigada!
Cristina Carvalho
Faço a correcção porque tinha mesmo de ser feita !
Eu, que não acredito na reincarnação, acredito na genética!
ResponderEliminarOu seja, reincarnamos através da nossa descendência.
Minha sobrinha mais velha é igualzinha à sua bisavó Julieta! O meu sobrinho mais velho é igualzinho ao seu trisavô Abreu. Isto físicamente... ora haviam de ser parecidos com quem?
É lógico e é genético.
Tanto quanto sei e oiço dizer, embora físicamente muito diferente terei o feitio, os gostos e as inclinações do meu avô Abreu, se bem que tenha os tiques e as parecenças físicas com o meu pai. Seria exaustivo continuar, mas creio que me fiz entender.
É portanto a genética, sim, e, o ADN tem tudo a ver com as nossas idiossincrasias de povo, quanto regionais e familiares, às quais acrescem outras de cariz social e cultural, por isso a antropologia se divide em duas disciplinas: a cultural e a física!
Ou seja, sem dúvida alguma que, e como diz o ditado: filho de peixe sabe nadar!
Afonso Reis Cabral não é escritor por acaso, é-o principalmente pela genética.
O que pode acontecer é que havendo a predesposição genética, esta não se revele pelas mais variadas razões e aí reside o mistério e a explicação que tornam interessante o tema e a sua discussão.
A Nossa Extraordinária Anfitriã tem uma sobrinha poetisa... há uma predesposição genética como as condições culturais e familiares para isso.
Já agora um comentário que penso se enquadra no tema de hoje:
- Não conheço a obra da escritora moçambicana Paulina Chiziane. Terei de a ler assim que tenha oportunidade. Porém, achei de muito mau gosto e até prova de ingratidão as suas declarações no acto de receber o Prémio Camões, sobre a necessidade de descolonizar a língua portuguesa... Desde logo é a língua que utiliza, lhe permite ser publicada e até lida, ou teria de ser traduzida para changane, macúa, maconde, ajawa, ronga, sena, elomwe, etc. e até para português, o idioma do prémio que recebeu. Caíu-me mal.
Mas agora virou moda. A autora tem óbviamente direito a ter a sua opinião, porém teria feito melhor em apelar ao apoio às condições de ensino no país, só para dar um exemplo, pois não me parece que "descolonizar a língua portuguesa" traga grandes benefícios a Moçambique um país com carência de tanta coisa e um dos mais pobres e corruptos do Mundo.
Tenho pena da atitude. Terá até sido recado encomendado, sabe-se lá.
Conheci bem o país, do qual tenho gratas recordações em particular do seu povo gentil. Lembro-me uma vez, de estarmos eu e o Manuel Carona (únicos brancos) no Wimbe em Pemba, a beber umas Manicas com moçambicanos, e um deles, muito zangado por causa de uns assuntos com Sul-africanos, dizer: "esses brancos aí, fazem assim fazem assado, pensam que são...", e por aí fora. Eu cortei: "Ouve lá, brancos? Nós somos brancos!". e ele muito depressa, interrompendo a sua diatribe: "Vancê não és branco, és português!", levantando gargalhadas e os copos numa saúde fraterna.
Assim é a descolonização das relações, penso eu.
Saudações descolonizadas cá da Cidade Morena.
Reencarnação!
ResponderEliminarAs minhas sinceras desculpas, Cristina Carvalho. Confusão de nomes imperdoável, até porque recentemente foi publicado um livro de Natália Nunes.
ResponderEliminarA Maria do Rosário suscita uma reflexão interessante e, de certa forma, contra-intuitiva sobre a "hereditariedade" literária. Contrariamente à ideia, à partida, de que há poucos filhos de escritores célebres que também se tornam bons escritores, posso citar uma série de exemplos que indicam que a literatura também tem a sua componente de linhagem.
ResponderEliminarPrimeiro, permita-me mencionar a dupla J.R.R. Tolkien e Christopher Tolkien. Christopher não só editou e publicou obras póstumas do seu pai (não sem controvérsia), mas também escreveu a sua própria narrativa dentro do universo da Terra-média.
Vale também lembrar o romancista e contista norte-americano Stephen King e o seu filho Joe Hill (Joseph Hillström King), um prestigiado autor de livros de terror e fantasia, que escolheu inicialmente um pseudónimo para evitar comparações com o seu famoso progenitor.
Ainda no panorama literário norte-americano, temos o exemplo da família Updike. John Updike, um dos grandes nomes da literatura americana, viu o seu filho David Updike seguir-lhe os passos, tornando-se um reputado escritor.
Carlos Fuentes, uma das figuras mais importantes da literatura mexicana, é pai de Carlos Fuentes Lemus, que também seguiu a carreira literária.
Jorge Amado, célebre escritor brasileiro, teve um filho, João Jorge Amado, que também se tornou escritor.
Uma família francesa: Marguerite Duras, uma famosa escritora francesa, tem um filho, Jean Mascolo, que também se tornou escritor.
Tal pai, melhor filha: Filha do jornalista e escritor perdulário Charles Fairfield, Rebecca West (Dame Cicily Isabel Fairfield) tronou-se uma afamada escritora, jornalista e crítica literária.
Tal mãe, melhor filho: Anthony Trollope tornou-se um dos romancistas mais bem-sucedidos da Era Vitoriana, muito mais popular do que a sua mãe, Frances Trollope, que também era escritora.
Estes exemplos demonstram que, embora o medo do julgamento parental possa ser um obstáculo para alguns, muitos filhos de escritores têm superado a sombra dos seus pais para estabelecer as suas próprias identidades literárias, muitas vezes com grande êxito. No entanto, é crucial relembrar que a genialidade literária não é uma questão de hereditariedade, mas sim de talento, dedicação e, às vezes, de uma boa dose de pós de perlimpimpim.
Ahhhh... tává'ver que ninguém reparava!
ResponderEliminar“.. pós de perlimpimpim…”? lamento mas quase todos os exemplos indicados são, antes de mais, casos de cunhas bem sucedidas dos respectivos progenitores
ResponderEliminarA literatura obriga a uma vida solitária, os filhos ficam muitas vezes a perder para os livros e é natural que não queiram isso para os filhos... Que prefiram ser pessoas normais.
ResponderEliminarEu li Paulina Chiziane. Gosto dela pela vontade que sempre mostrou em defender as mulheres da sua terra e mostrar como a vida as maltrata. Pode ser que mereça o prémio (não sei discutir a questão). Mas concordo com tudo o que diz acerca do seu discurso: caiu-me mal. Pode ser moda, se o for, é uma moda parva. E se foi discurso encomendado, ainda mais a escritora me cai na lama, sempre a pensei capaz de pensar por si. É um pouco como quem cospe no prato onde come. Portanto, acerca do seu carácter nasceram-me bastas dúvidas.
ResponderEliminarMinha Cara Bea: tenho a maior admiração pela mulher africana em particular!
ResponderEliminarAssisto diáriamente ao seu sacrifício sem nome e hercúleo de manterem as suas famílias, de uma forma inimaginável e contra tudo. Creio que seria sim de chamar a atenção para a dignificação delas. Ainda bem que ela o faz!
Tentei destacá-las e falar nesse aspecto tão esquecido em "Não tem Domingo na Equimina", porém a vinha voz não chega a lado nenhum, e, se tivesse a oportunidade de a fazer ouvir, talvez fosse por essa causa, certamente que não por algo tão fútil e mesmo inútil, por muito bem que fique.
Saudações cá da Cidade Morena - que assim designo justamente em homenagem às mulheres de cá.
No meu entendimento, a descolonização da língua não deve passar por uma elisão dos termos pejorativos ou desactualizados, mas sim pela explicitação de todas as suas acepções, incluindo aquelas que reflectem mentalidades e concepções ultrapassadas. Através do reconhecimento e do esclarecimento de tais questões, poder-se-á potenciar uma reflexão mais profunda sobre a nossa história e a nossa identidade, contribuindo para uma visão mais humanista e lúcida do mundo. Para tal, é imperativo que os dicionários, como repositórios do nosso património linguístico, se assumam como mediadores desta missão, fornecendo ao leitor não apenas o significado das palavras, mas também o contexto histórico e social em que foram criadas e utilizadas.
ResponderEliminarConsideremos o caso do termo “catinga”. Este termo, na sua etimologia original, desconhecida, mas seguramente alheia à cor da pele, refere-se a um odor intenso e desagradável. Com o passar dos séculos, contudo, esta palavra foi indevidamente preenchida com preconceitos e estereótipos, assumindo uma conotação pejorativa que ainda hoje ecoa na sua definição antiga.
Um odor, seja ele mau ou bom, não tem cor nem raça. Ele é, de facto, uma manifestação física da interacção dos nossos corpos com o meio ambiente e não um traço genético exclusivo de uma raça ou de outra. Ao vincular "catinga" a um grupo racial específico, os lexicógrafos de outrora não apenas distorceram o significado original da palavra, mas também alimentaram uma narrativa discriminatória. Neste sentido, uma revisão contemporânea do termo "catinga" poderia bem reverter ao seu significado original de "odor intenso e desagradável", sem qualquer associação racial.
Importa, contudo, sublinhar que não se trata de eliminar a acepção racista deste termo, mas sim de denunciá-la como tal. É fundamental explicitar em qualquer definição futura de "catinga" que esta acepção que associa o termo à "raça negra" é uma construção racista e, portanto, ilógica e ofensiva. Desta forma, preservamos a memória da palavra, mantendo o registo de um uso histórico que, embora factualmente errado e repudiado hoje, foi relevante na configuração do termo.
Acredito, assim, que os dicionários, como compêndios do nosso idioma, devem esclarecer as origens e evoluções das palavras, incluindo as acepções pejorativas. No entanto, ao fazê-lo, devem também apontar a natureza discriminatória dessas acepções, elucidando o seu carácter preconceituoso. Isto permitir-nos-á libertar a língua gradualmente das amarras do passado, enquanto nos ajuda a compreender e a reflectir sobre a nossa história linguística e cultural.
Os termos que carregam consigo o peso do preconceito e da discriminação, como é o caso de 'catinga', devem ser analisados e dissecados com a devida seriedade e respeito pela sua história complexa. Ao elucidar os contextos em que estas palavras foram forjadas, podemos esclarecer o seu verdadeiro significado, livre de qualquer distorção racista.
Não se trata de apagar a história, mas sim de trazer à luz a verdade, por mais desconfortável que possa ser. Esta é a responsabilidade de todos nós, lexicógrafos e utilizadores da língua, na busca constante pela descolonização da nossa fala e escrita. E é nesse espírito de análise cuidadosa e respeito pela complexidade da nossa língua que devemos continuar a estudar e a discutir as palavras que usamos, com o objectivo final de promover uma compreensão mais profunda e humanista da nossa história e cultura.
Desta forma, estaremos não apenas a preservar a riqueza e a diversidade da nossa língua, mas também a contribuir para um mundo mais equitativo e inclusivo, em que todas as vozes são ouvidas e respeitadas, independentemente da sua origem ou cor da pele.
Arrasou, hein! A língua é tipo um espelho do passado, reflete as coisas boas e as ruins. Eu super concordo com isso, porque vejo que um dicionário não deve ser só pra gente buscar palavras, mas também uma maneira da gente entender a trajetória de uma língua e, claro, de um povo.
ResponderEliminarVê-se bem que esta conversa de 'descolonização' não passa de um atentado à nossa língua e à nossa cultura, o orgulho da nossa Pátria. Lá querem eles esfumar a nossa história, a nossa identidade, tudo em nome de uma tal 'descolonização' da língua que não passa de mais uma invencionice dos tempos modernos. Não há dúvida que a língua portuguesa é o nosso maior tesouro e temos de protegê-la desses modismos e imposições que vêm de fora.
ResponderEliminarEssa tal escritora, com as suas palavras, parece querer refazer a história à sua maneira. Mas nós não nos enganamos, não senhor. Como bem afirmou o nosso querido Fernando Pessoa, a língua é a nossa Pátria! E uma Pátria não se envergonha do seu passado, não se deixa moldar conforme os ventos do momento. Nós, portugueses, temos o direito de decidir o rumo da nossa língua. Não temos de a mudar para agradar a estrangeiros.
Caro António Luiz
ResponderEliminarA reencarnação do meu Amigo poderá estar nesse ancestral e herói, João Fernandes Pacheco, de Ferreira de Aves, um dos grandes portugueses na crise de 1383-1385.
Combativo, dialogante, persistente, eis algumas das suas características que vejo no Extraordinário Pacheco.
Há tanto tempo que não entrava nesta sala, que me custou a dar com a porta.
Fernando Costa
Grande verdade, Luís, expressa uma opinião verificável, que compartilho.
ResponderEliminarCompartilho esta sua opinião, Luís.
ResponderEliminarEsqueci de saudar o AL Pacheco desde este agreste planalto, situado na cauda da Meseta, de onde levantam, com facilidade, as águas e açores.
ResponderEliminarConcordo consigo, em parte.
ResponderEliminarEm parte, porque a língua portuguesa não é só nossa mas também de todos aqueles a quem a ensinámos, que também têm direito ao seu uso e sobretudo a inovarem, o que faz dela uma língua viva.
No resto, de acordo, com alguma contenção.
Um abraço para si cá da Cidade Morena.
Muito boa esta sua explanação, na minha ignorante visão de tão complexo assunto!
ResponderEliminarGostei de ler.
Já agora e para cabal esclarecimento de todos os interessados no tema, gostaria de esclarecer que "catinga" vem de "caatinga" que é um tipo de vegetação, um coberto vegetal curiosamente do semi-árido brasileiro e uma palavra tupi (índios brasileiros).
Ou seja, catinga apenas significa na sua génese "cheiro a mato", portanto.
Na minha terra do Bairro Ribatejano, o pasto seco tem um cheiro forte que se entranha na roupa e na pele, e, o pó provoca na pele reacções alérgicas chamadas "brotoeja". Quando eu era garoto andava todo o dia a brincar ou com a pressão de ar atrás da passarada, por tudo que era sítio, e, vinha para casa a cheirar a "mato", a minha mãe ralhava e mandava-me tomar banho, a ti Maria Limeiro, nossa lavadeira, para me desculpar dizia-lhe: "Deixe lá menina, cheir'á hóme".
Portanto... que lhe hei-de eu dizer, ou a quem quer que seja? Nada de novo.
Reajo ao seu cumprimento com um forte e sentido abraço!
ResponderEliminarOs meus ancestrais Pacheco, foram justamente senhores de Ferreira d'Aves.
Chegaram atrasados a Aljubarrota mas ainda tempo de combater, é um facto histórico.
Um dia falaremos disso e de outras coisas, Caríssimo e Extraordinário Fernando.
As melhores saudações cá da Cidade Morena!