Um casamento

Nos últimos anos tenho descoberto alguns autores que aprecio muito. Entre eles, está sem dúvida a irlandesa Maggie O'Farrell, que comecei a ler por causa de Hamnet, um romance belíssimo sobre a família Shakespeare de que já aqui falei, e de quem li recentemente Retrato de Casamento (um nadinha menos bom, segundo a minha modesta opinião, mas em todo o caso muito interessante). Passa-se em Itália, que é logo um bom cenário, e trata da vida de uma das filhas de Cosimo d' Medici, Lucrezia, oferecida ao duque de Ferrara em casamento aos quinze anos por morte da sua irmã mais velha, Maria, que era na verdade a noiva, mas sucumbiu desgraçamente a umas febres. A vida de Lucrezia, uma menina extremamente talentosa no que ao desenho e à pintura diz respeito, mas que se tem em pouca conta no seio da família, é-nos contada praticamente desde o berço. Cuidada pela ama Sofia, que já fora ama de sua mãe, vivendo entre vários irmãos e irmãs, ela é um ser agitado e imaginativo, que gosta de animais (especialmente selvagens) e não aprecia as roupas incómodas nem o tempo imóvel em que posa para o seu retrato de casamento. Já na corte de Ferrara, e incapaz de engravidar (veremos mais tarde porquê) e de dar um herdeiro ao ducado (coisa mesmo premente), Lucrezia desiludir-se-á com os actos do marido pouco depois da união e, segundo os livros, morrerá um ano mais tarde de uma apoplexia, de forma algo suspeita. Mas Maggie O'Farrell acha que não foi bem assim, e por isso ainda vale mais a pena ler este romance.

Comentários

  1. Li, há alguns anos, O Estranho Desaparecimento de Esme Lennox. Gostei mas ainda não tive oportunidade de voltar à autora.

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  2. Uma autora de que ambos gostamos, Rosa Montero, no seu"El peligro de estar cuerda", oferece perspetivas valiosas sobre como experiências difíceis e problemas de saúde mental podem ser catalisadores do desenvolvimento de talentosos escritores. Montero sugere que tais circunstâncias impulsionam os escritores a procurar consolo e redenção na escrita, o que poderá enriquecer as suas obras e fazer com que contruam ligações mais profunda com os seus leitores.
    Fintan O'Toole, num artigo publicado no Irish Times de Setembro de 2020, a propósito do Covid-19, explora também a ideia de que as doenças têm o potencial de desviar as pessoas das suas trajetórias habituais e fazê-las contemplar o mundo sob uma perspectiva distinta.
    Curiosamente O’Toole cita o caso de Maggie O'Farrell como um exemplo desta complexa relação entre enfermidade e criatividade. A própria O'Farrell passou dois anos acamada durante a infância devido a uma encefalite viral, uma experiência que terá influenciado o seu desenvolvimento como escritora e possibilitado a criação de personagens e enredos envolventes, como os que encontramos em "Retrato de Casamento".
    Creio que ao desvendar a intrincada relação entre adversidades, doenças e a criatividade literária, alcançamos uma compreensão mais profunda da capacidade humana de superação e do inesgotável potencial artístico que reside em cada um de nós.
    É importante salientar que, embora a relação entre adversidades, doenças e a criatividade literária seja inegável, não devemos inferir que a doença seja uma condição sine qua non para se tornar um bom escritor. Sugerir tal ideia poderia levar à falsa conclusão de que qualquer pessoa com uma infância enfezada ou com pedras nos rins seria um potencial Camões. No extremo, essa noção poderia até mesmo encorajar jovens aspirantes a escritores a aventurarem-se em locais inóspitos em busca de enfermidades debilitantes para, supostamente, potenciar o seu talento literário.
    É fundamental reconhecer que a arte da escrita é uma expressão multifacetada da experiência humana e que o talento literário pode ser nutrido e desenvolvido de diversas formas, não estando necessariamente vinculado à vivência de sofrimento ou enfermidade. A riqueza e a beleza da literatura advêm, em grande medida, da diversidade de perspetivas e experiências dos escritores, que, juntas, compõem o vasto e complexo mosaico da criação artística.
    Mas não deixa de ser verdade que a adversidade aguça muitas vezes o engenho e estimula a criatividade, como exemplifica o caso de Maggie O'Farrell. A encefalite que a afligiu na infância, obrigando-a a um longo período de recuperação no hospital, levou-a a mergulhar nos clássicos e encontrar consolo na escrita. Essa vivência de superação e a força encontrada na literatura foram cruciais na formação do seu destino literário, como se pode observar também no seu romance "Hamnet", uma obra que explora a vida da família Shakespeare e, indiretamente, oferece uma visão singular da condição humana.

    (No contexto da obra de Shakespeare, é curioso notar que muitos estudiosos têm argumentado que a demora de Hamlet em vingar-se é um resultado de uma doença depressiva aguda, com características obsessivas... E se Hamlet não tivesse adiado a sua vingança, não haveria "Hamlet"!)

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  3. Parabéns, o seu comentário desenvolve-se em fonte - sabe a água fresca que corre, tem cadência..

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  4. Muitíssimo obrigada. Li o livro de Rosa Montero, mas não conhecia em profundidade a história de O'Farrell. Já aprendi hoje alguma coisa.

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