Excerto da Quinzena

[...] O inspector chegava pelas onze como uma tromba de ar: travava de repente com um estampido horrível, e fazendo perno na roda anterior fazia derrapar a posterior um quarto de círculo. Sem parar, apontava para a cozinha de cabeça baixa, como um touro a atacar; superava os dois degraus com medonhos estremeções; descrevia dois oitos apressados, com o escape todo aberto, em torno dos caldeirões; voava novamente os degraus até lá abaixo, fazia uma continência militar ao público acompanhada de um sorriso radioso, curvava-se sobre o guiador e desaparecia no meio de uma novem de fumo esverdeado.


A brincadeira correu-lhe bem por várias semanas; depois, um dia não se viu motocicleta nem capitão. Este encontrava-se no hospital, com uma perna partida [...]


 


Primo Levi, A Trégua, tradução de José Colaço Barreiros

Comentários

  1. Um belo dia, deu com uma carta debaixo da porta. Era dele. Dizia-lhe que havia meses a adorava e que a esperava no patamar da escada. Oh, era uma carta encantadora! É claro que não respondera: mas que mulher não se sentiria lisonjeada? No dia seguinte, apareceu outra carta! Era maravilhosa, apaixonada, comovedora. Ao cruzar-se novamente com ele, na escada, não sabia para que lado olhar. As cartas repetiam-se todos os dias e agora ele suplicava que o recebesse. Anunciou que viria de noite, vers neuf heures, o que a deixou infinitamente embaraçada. Naturalmente, seria impossível recebê-lo: podia tocar à vontade, que ela não abriria a porta. Mais tarde, enquanto aguardava o toque de campainha, toda cheia de nervos, o rapaz aparecera de súbito na sua frente. Esquecera-se de fechar a porta, ao entrar.
    - C'était une fatalité.
    Somerset Maugham - Servidão Humana
    Trad. António Barata

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  2. "Vladimir Nabokov perdeu tudo com a Revolução Russa: o seu país, o seu dinheiro, o seu mundo, a sua língua, até mesmo o seu pai, que foi assassinado. Simone de Beauvoir nasceu sendo uma menina rica e herdeira de uma linhagem de banqueiros, mas pouco depois a família faliu e tiveram de sobreviver pobremente num tugúrio
    Vargas Llosa perdeu o seu lugar de príncipe da casa quando o pai, a quem julgava morto, regressou, impondo a sua violenta e repressiva autoridade."
    in A LOUCA DA CASA
    Rosa Montero

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  3. António Luiz Pacheco14 de abril de 2023 às 06:50

    Vejamos, sem querer ser polémico e muito menos ofensivo, vou colocar esta questão sobre o excerto aqui proposto.
    Ontem falava-se em boa e má literatura… creio que alguma responsabilidade do que se possa entender sobre a qualidade da literatura, está no trabalho do tradutor!
    O tradutor tem de escrever, tem de ser escritor para os leitores que não querem dar-se ao trabalho ou não conseguem ler noutro idioma. Logo não pode traduzir á letra e nem a olho, isso é batota! Tem de ler e traduzir pelo sentido, de forma a produzir um texto de qualidade.
    Este excerto tem qualidade, pergunto?
    Na minha opinião de leitor, nem por isso de escritor que o não sou, não tem! Está traduzido a olho, e, fica feio, ficou mal escrito. Me perdoem…

    “O inspector chegava pelas onze como uma tromba de ar: travava de repente com um estampido horrível, e fazendo perno na roda anterior fazia derrapar a posterior um quarto de círculo. Sem parar, apontava para a cozinha de cabeça baixa, como um touro a atacar; superava os dois degraus com medonhos estremeções; descrevia dois oitos apressados, com o escape todo aberto, em torno dos caldeirões; voava novamente os degraus até lá abaixo, fazia uma continência militar ao público acompanhada de um sorriso radioso, curvava-se sobre o guiador e desaparecia no meio de uma novem de fumo esverdeado.”
    Leia-se como eu proponho, caso fosse o tradutor ou revisor:
    - O inspector chegava pelas onze como um furacão: travava abruptamente com estardalhaço, horrível, e apoiado na roda de trás fazia uma derrapagem com a dianteira num quarto de círculo. Sem se deter, metia direito à cozinha, de cabeça baixa como touro a atacar; galgava os dois degraus com abanões medonhos; descrevia dois oitos apressados, em escape livre, ao redor dos caldeirões, voava novamente pelos degraus abaixo, com um sorriso radiante batia continência a quem assistisse, curvava-se novamente sobre o guiador e desaparecia numa nuvem de fumo esverdeado”
    Porque me entreti neste exercício?

    Vejamos: alguém já ouviu falar ou sabe o que seja uma tromba de ar? Existe sequer o termo, para ciclone ou furacão?
    Travar de repente, neste caso não fica melhor o abruptamente para dar sequência ao estardalhaço, pois me parece que “estampido” (tiro) é desadequado.
    Fazer perno???? O que é um perne? É uma peça mecânica, um eixo em volta do qual gira alguma coisa, sim, Porém, dá a imagem daquilo que ele fez, uma derrapagem de motocicleta? E esta faz-se apoiado na roda traseira, que posterior também não é corrente dizer-se. Membros posteriores, sim, agora, roda posterior?
    Mas ainda, “fazendo um perno”… “fazia derrapar”. Pode evitar-se a repetição do verbo e dar uma melhor estética, parece-me?
    “Apontava para a cozinha”, não fica melhor no caso, dizer que metia direito à… ?
    Superava os degraus? Nunca ouvi nem li tal expressão em português fluente, já galgar ou saltar, pular… isso sim.
    Os estremeções… seja dos degraus ou do corpo, também não me parece correcto. Daí os abanões que imaginamos o peso de um corpo lançado em velocidade, provoquem.
    Escape aberto, é mais comum dizer-se escape livre.
    “Em torno”, sugiro antes dizer “ao redor” ou “à volta”.
    “Voava novamente os degraus até lá abaixo”… faz algum sentido? Mal construída a frase, digo eu.
    Fazer uma continência militar? Seria para não se confundir com o estado de em continência urinária ou de despesas? Não me parece, pois se usa aliás contenção!
    “Público”, neste caso não fica melhor assistência? Mas para evitar a cacofonia (continência à assistência) pode dizer-se assistentes.
    Eu é que não me contive, peço mil desculpas, mas espero pelo menos entreter, quem sabe até divertir com o meu atrevimento.
    Nota: encontro duas explicações para esta tradução que me parece um pouco esdrúxula.
    a) Uso de tradutor automático sem olhar ao contexto
    b) O tradutor está há muito tempo fora, sendo luso-descente por exemplo, e não está bem rodado no português corrente e popular.
    Renovando o pedido de

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  4. A diferença é abismal, agora para melhor. É de tal ordem que um leitor menos atento poderia concluir no fim "não gosto muito do Primo Leví! Parece que não gosto da maneira como escreve".
    É realmente determinante a qualidade do tradutor, e felizmente este reconhecimento está a crescer, até já há prémios repartidos entre o autor e o tradutor.
    E o ALP já tem mais uma vocação para as horas livres ou para a reforma, muito bom.
    Miguel Henriques

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  5. António Luiz Pacheco14 de abril de 2023 às 10:18

    Extraordinário Miguel Henriques, sem querer atrever-me a ser o que não sou, foi exactamente isso que pensei! Que uma boa traducção faz jus a um bom livro, e, vice-versa.
    Não é a minha horta, foi apenas um exercício em jeito de brincadeira, que todavia pareceu-me melhorar o texto como me propus. Afinal de contas lemos muito e sabemos do que gostamos de ler, isso é um argumento a nosso favor.
    Quantas vezes tenho lido livros que até me fazem arrepiar ao adivinhar neles esse defeito. E, afinal as casas editoras não fazem revisão aos textos traduzidos? Não sei se sim, mas deveriam fazê-lo!
    Grande abraço cá da Cidade Morena.

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  6. Caro ALP, sem querer ser ofensiva e muito menos polémica: a primeira pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo do verbo "entreter" é "entretive", e não "entreti".

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  7. António Luiz Pacheco14 de abril de 2023 às 14:18

    Mesmo nada minha cara anónima! Como disse, não tenho pretensões a ser escritor, e, se tiver, há revisores para me corrigirem desses detalhes.
    No resto cá me vou safando.
    Bom fim de semana!

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  8. Muito bem. Mas, porque motivo insiste em escrever à com acento agudo?

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  9. “Um livro é uma coisa entre coisas, um volume perdido entre os volumes que povoam o indiferente Universo, até que encontra o seu leitor, o homem destinado aos seus símbolos. Acontece então a emoção singular chamada beleza , esse mistério belo que nem a psicologia nem a retórica decifram. “A rosa é sem porquê”, disse Angelus Silesius; séculos depois Whistler declararia “A arte acontece”.
    Oxalá que sejas o leitor que este livro aguardava.

    JORGE LUÍS BORGES - Biblioteca Pessoal
    Tradução de Cristina Rodrigues e Artur Guerra

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  10. Embora tenha um olhar diferente, podem ser opções conscientes do tradutor pois há muitas abordagens teóricas, concordo com a sua opinião e gostei das propostas, aos meus olhos valorizam o texto.
    A tradução literária é um mundo fascinante, não é fácil adoptar a alma do autor e “fazê-la falar” outra língua.
    Há uns dias fiz saber a um jovem poeta que se me apresentou no Instagram que não tinha gostado de ler um poema traduzido do inglês em que usava a expressão “covas de água”, quando temos “poças de água” em português, disse-lhe que não tivesse medo das palavras e respondeu-me que achou redutor para a amplitude do poema, ou seja, ambos temos a “nossa” razão.
    E ainda ontem, aqui mesmo, me manifestei em relação a uma tradução em que tive muita dificuldade em dar o benefício da dúvida às opções do tradutor porque tenho consciência de que encontrei passagens incompreensíveis para alguém que não domine a língua original, o castelhano.

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