As censuras

Quem viveu, leu e escreveu antes do 25 de Abril tem obviamente uma noção muito mais real do que foi a censura em tempos de ditadura e, até por isso, é mais reactivo às novas censuras que se têm recentemente estendido ao discurso e às práticas intelectuais sob a capa do politicamente correcto (mas indo muito além dele). Estamos, porém, a chegar a extremos insuportáveis, e é imperioso de uma vez por todas batermos o pé e dizermos que não se podem emendar, alterar, cortar ou apagar textos literários sem autorização dos seus autores ou herdeiros com a fraquíssima desculpa de que este ou aquele podem ofender com uma expressão mais dura ou uma palavra menos fofinha («gordo», por exemplo). Dois livros de um autor meu considerado «muito talentoso» foram recusados pela pessoa que assim o referiu por falarem «demasiado francamente» sobre certos assuntos (ai, a sensibilidade) e por ele não ser trans e ter escolhido incluir uma mulher trans na sua história (e, já agora, num livro galardoado com o Prémio Saramago). Mas já antes me acontecera uma tradutora norte-americana ficar altamente chocada por um texto que lhe dei para traduzir incluir uma passagem em que alguém entrava num pátio onde uma dúzia de miúdos «batiam na boca e gritavam como índios», porque falar assim dos índios era ofensivo para os leitores dos EU. Qualquer dia, as metáforas não se vão poder usar nem vamos poder ver os filmes de John Ford. Qualquer dia, não poderemos ler absolutamente nada e haverá mais gente a ler à procura de termos ofensivos do que a ler por prazer. Há que bater o pé e desfazer os equívocos. Há que olhar para o contexto e a época em que as coisas foram escritas. Um dia destes tiram-nos a Odisseia porque fala de mulheres que desviam homens casados ou têm pretendentes na ausência dos maridos... Ainda bem que aqui onde trabalho os livros dos Cinco e a Agatha Christie vão ficar como sempre foram. Ao menos isso.

Comentários

  1. O mais grave das questão é que toda esta gente com sanha de proibir, não gosta de livros, de cinema, de música, de artes, apenas gosta de ser "polícia" dos outros...

    Já tínhamos os chatos dos "caça-gralhas", mais preocupados com a falta de uma vírgula que com a beleza das histórias dos livros.

    Infelizmente toda esta gente evoluiu para muito pior...

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  2. Um dia destes temos um ministério da "Verdade"(quais poligrafos qual carapuça) tal como na narrativa do '1984' de George Orwell.

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  3. «Ainda bem que aqui onde trabalho os livros dos Cinco e a Agatha Christie vão ficar como sempre foram.»

    Como, e porquê, é que a Maria do Rosário tem a certeza disso? Se uma decisão nesse assunto (também) depende de si, então sim, sem dúvida. Mas e quando forem outras pessoas a exercerem as mesmas funções, o que inevitavelmente acontecerá um dia? E se a administração do grupo, a actual ou uma seguinte, decidir alinhar nessas parvoíces?

    E convém não esquecer que, apesar de os livros de Agatha Christie e de Enid Blyton que a Leya publica não terem (ainda) esse tipo de a(du)lterações, eles são «acordizados», o que representa como que «meio caminho andado» para serem cometidos outros abusos.

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  4. Li uma declaração da nossa administração num jornal nesse sentido. Claro que pode haver imposição futura dos proprietários dos direitos e as administrações raramente são vitalícias, mas estou a falar deste momento.

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  5. Maria Do Rosário Pedreira10 de abril de 2023 às 07:19

    Fui eu que escrevi, não sei por que motivo o nome não apareceu.

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  6. Atenção que eu já senti aqui neste blogue o lápis azul. Efectivamente, aqui há uns tempos atrás um comentário meu foi vítima de censura e "rasgado" com o pretexto de que era um comentário racista (falava em brancos, em pretos e indianos, aquando de um assalto a uma loja de nepaleses, em Sintra).
    Pois é, no melhor pano cai a nódoa!

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  7. António Luiz Pacheco10 de abril de 2023 às 11:58

    Estamos a viver uma época em que o excesso de informação conduz à presunção de que se sabe porque "se está informado". Também em que a convicção de ter opinião é um direito que suplanta tanto o bom senso, quanto o saber ou o respeito pelos demais. Superam tudo!
    Reparem:
    - Uma jovem com problemas mentais cria uma situação internacional complicada e desestabiliza milhões de jovens no Mundo inteiro, arrastando alguns adultos tontos e ansiando por exibirem a sua modernidade. Básicamente porque se convenceu de determinadas idéias a partir do que viu na TV e depois leu, meias-verdades e teorias incompletas ou por provar. Porém nunca estudou, não tem preparação científica mas acredita que sabe e com profundidade, apesar do que fez escola e o Mundo ouve-a como ouviu Hitler por exemplo: em êxtase! Os que sabem têm dificuldade em se fazer ouvir.
    Uma participante de um concurso televisivo afirma que não toma medicamentos, porque estes são negócio. Um médico chamou a atenção para o facto de milhões de pessoas estudarem aquilo que uma imbecil qualquer (concordo!) diz ser contra e lembra que biliões de pessoas morrem por falta de medicamentos.
    Qualquer jovem cantor tatuado e com piercings, faz declarações sobre questões sociais profundas que levariam ao Prof. Agostinho da Silva anos de reflexão; ou uma artista de telenovelas emponderada (como se diz agora) no corpo que não no cérebro faz afirmações de cariz cultural como se fora um Nobel da literatura!
    É por isso que depois, nós, os anormais que somos normalidade, sofremos com uma multidão de acéfalos, incultos, porém informados e que se acham esclarecidos porque têm sensibilidade apenas para aquilo que sentem e raramente num todo bem enquadrado e horizontal, como se imperasse o pensamento único e apenas uma idéia, que é a última para eles, incapazes de ver a largueza do Mundo e das pessoas.
    A intolerância hoje oprime como sempre o fez em todas as épocas, só que hoje em nome de uma sensibilidade extremada que provoca sofrimentos atrozes a quem leia a palavra "gordo", "feio", "preto", "maricas".
    Portanto acabem-se com essas palavras nos livros e nos filmes!
    E, já agora vendam-se mais e novas edições, afinal é preciso lucrar.
    Em nome da liberdade de alguns que a reclamam para si, coarta-se a liberdade dos outros, o que é um absurdo: limitar a liberdade em nome da mesma!
    O que há deveras a fazer, creio eu, é ignorar esses "influenciadores" e os criadores de idéias insensatas ou que carecem de substância. Renegar filosofias desviantes ou que não nos assentem, de que desconfiemos, pura e simplesmente, sem tibiezas nem medo de parecermos o que sabemos que não somos - atrasados!
    Temos de pugnar pelo que sabemos e sobretudo pelas nossas próprias culturas e modos de ser, as nossas idiossincrasias, vendo como curiosidade e manifestação (aliás legítimas) da procura de maturidade por parte daqueles que afinal não cresceram e a quem falta o bom senso, sobrando-lhes sensibilidade e autoconvencimento de a modernidade é ser o que pensam que é, mas nós, os outros, sabemos que não é! Modernidade é conforto, é segurança e bem-estar, o que não implica forçosamente obrigar outros a fazer o que nós achamos.

    Saudações convictas cá da Cidade Morena.

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  8. 《Qualquer dia, não poderemos ler absolutamente nada e haverá mais gente a ler à procura de termos ofensivos do que a ler por prazer. 》
    "Qualquer dia" é hoje.

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  9. ¨Tremo pelo dia em que uma alma mais sensível se lembre de reescrever, n`Os Lusíadas, o episódio da Ilha dos Amores, por considerá-lo pornográfico... e não, não estou a ser irónica.

    Abç!

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  10. António Luiz Pacheco11 de abril de 2023 às 03:57

    Citando Paulo Sande
    "... este é um tempo em que, sob a pressão dos media e das redes sociais, a opinião dominante tem um peso esmagador e é seguida pela maioria das pessoas, receosas de serem mal-vistas, excluídas socialmente, apelidadas de heréticas, imorais ou coisas piores. "
    (sic)

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  11. Um amigo meu quis (há muitos anos) comprar um gira-discos (não sei se todos saberão o que é) mas até hoje nada...é que ele quando, na loja, pedia para verificar o aparelho ele não ouvia (a música) o som, só ouvia os pequenos ruídos que o disco naturalmente "sussurrava"...

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  12. Tenho-me lembrado do Censor da Inquisição que autorizou a publicação dos Lusíadas.Apesar
    de lá constarem deuses pagãos, das "lácteas tetas" e outras terríveis infracções à doutrina
    então vigente,argumentou já ser por todos sabido serem tais deuses falsos e tudo o resto recursos estilísticos empregues pelo poeta,sabedor do ofício,para melhor exaltar os feitos lusos.
    Chamava-se esse bondoso homem fr. Bertolameu Ferreira e seria hoje sacrificado pelas inquisições replicantes e ignorantes.

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  13. Obrigada, José. Sim, tem toda a razão, mas não só o bondoso Frei Bartolomeu Ferreira seria sacrificado nos tempos absurdos que correm, já que até o meu pobre e inocente pai seria vítima da inquisição digital por me ter fotografado na praia e sem roupa, na década de cinquenta do século passado, tinha eu muito poucos anos de idade...

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  14. "bondoso" tem também uma pitadinha de ironia; hoje tem de se ter cautelas com tudo,começa a estar pior nalgumas coisas do que o que vivi sob Censura oficial e Polícia Política.Salvo seja de outra vez.A ironia é que não me passa pelo miolo defender a bondade geral da Santa Inquisição ou das actuais reproduzindo-se espontâneamente. A excepção terá sido talvez o tal censor Bertolameu,quem sabe se não olhado de soslaio pelos pelos outro esbirros. Seria agora oportuno replicar o tal despacho em tudo o que se publica para as/os/es/is /us actuais censores reflectirem um pouco,se o souberem fazer.
    De resto a crassidão de tais seres é tal que duvido alguma vez haverem lido para lá do sec.XX e meados do XIX. Dá muito trabalho e deveriam ter começado na escola mas quanto a esta reservo-me...Odisseus? Eneias? Pátroclo? Agamemnon? Eurípedes? Ora adeus.

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  15. Ahahahah... desculpe, José, mas se pensa que me escapou a ironia, saiba que não me escaparam os os/as/es/is/us...

    Boa noite.

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  16. Agradeço também mas o mais grave está para lá disso,já são alcagoitas perante a avalanche de censores e reescrevinhadores. Vai ver dentro em pouco devoram-se uns aos outros como nos Eunucos do Sena.Vem na História do sec. XX. Não pode haver mais que um ditador no mesmo espaço.Ditador,purificador,zelador dos bons costumes,com servidores.
    Talvez a História se repita.Para que se não saiba o melhor é refazer os manuais,refazer tudo,até os peúgos e as calcinhas conforme os bons costumes.

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  17. Corrijo. Os Eunucos do José Afonso. Mas o poema do Sena começando por: Roubam-me Deus outros o Diabo Quem Cantarei ? também cabe na maré saneadora, cantado pelo José Afonso no mesmo disco.
    Boa noite.

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