Tecer e escrever
Quando publiquei o meu primeiro livro de poesia, em 1996, o saudoso Eduardo Prado Coelho dedicou-me uma crítica cujo subtítulo dizia: «A poesia de Maria do Rosário Pedreira vem de saber tecer, à maneira de Penélope, uma imensa teia de gestos e referências, objectos e frases, sinais e afectos.» Esta analogia do tecer quando falamos de escrever não é nova; e não é por acaso que se fala tanta vez, por exemplo, no fio da narrativa ou de urdir uma trama ou numa história mal cosida. Mas eu não tinha pensado nunca realmente a sério que talvez a literatura oral tenha sido transmitida sobretudo por mulheres que, não sabendo ler, sabiam contar histórias e as transmitiam umas às outras e às crianças enquanto cosiam ou teciam. A historiadora do livro Irene Vallejo, autora de O Infinito no Junco, gravou para o jornal El País um pequeno vídeo imperdível sobre esta sua convicção (a do papel importantíssimo das mulheres na transmissão da literatura desde tempos muito antigos). E, embora não sabendo se todos compreendem o castelhano, achei irresistível aqui partilhá-lo, pois em cinco minutos é realmente fascinante a ideia que veicula.
https://www.facebook.com/watch/?v=271951907342171
Não consigo concordar com este ponto de vista, pelo meu exemplo pessoal, Rosário.
ResponderEliminarQuem era o contador de histórias da família era o avô, era ele que juntava os netos à sua volta, por vezes com o "escárnio" da avó, ciumenta...
E pela história do mundo fora, eram os homens que viajavam, que viviam e conheciam mais mundo, eram eles que tinham mais histórias para contar.
Claro que durante esses tempos havia dois mundos quase distintos, o masculino e o feminino. As histórias que se contavam eram diferentes, de parte a parte. E por isso mesmo, deverá ter existido algum equilíbrio na bonita arte de contar histórias.
Parece óbvio e indiscutível que, não havendo escrita (porque não fora inventada) a oralidade imperasse no transmitir de idéias, ensinamentos ou histórias para entreter.
ResponderEliminarTambém a mímica serve para transmitir, quando falhe a oralidade, como é igualmente sabido e há até linguagens pelo gesto.
No entanto, a escrita através do desenho também substitui muito bem a oralidade, gostaria de destacar!
Uma pequena história:
Em tempos, trabalhando num projecto agrícola numa fazenda remota, tinha entre outros trabalhadores, 26 chineses que estavam a construir vários edífícios.
Sendo necessário falar com eles, na falta de intérprete, resolvi o problema reunindo com os responsáveis e até um par de vezes com todos eles, numa sala de formação onde havia um grande quadro, e, nele desenhava aquilo que queria transmitir... foi entendido e aplaudido, eles depois usavam o quadro para o mesmo fim!
Não fizémos mais do que reproduzir o feito pelos nossos longínquos antepassados que pintaram as paredes das cavernas...
Portanto, a escrita, sempre a escrita, ao serviço da humanidade!
Saudações escritas cá da Cidade Morena.
Compreendo o ponto de vista - isto dava para uma noitada de tertúlia em cheio, com conversa e quem sabe se uns copos, eheheh! - mas permito-me chamar a atenção para o facto de que não se pode, ou está, a localizar cronológicamente esta transmissão oral ou a distinguir sexos, mas apenas a destacar uma actividade, de mulheres, que servia esta finalidade da transmissão oral.
ResponderEliminarLembro-me muito bem dos serões ou tardes, de costura, renda ou malha, lá em casa, com as histórias (e fofocas...), por quem sabia histórias, notícias ou novidades, mesmo sem ter viajado, tal como estas tecelãs aqui citadas. Eram mulheres óbviamente.
Os homens, carregavam cartuchos ao serão, por exemplo, engarrafavam vinho e rolhavam garrafas, colavam-se rótulos... outras conversas, outras actividades.
Quando se juntam pessoas para uma actividade destes tipos, digamos comunitárias, julgo que há essa tendência mais do que de conversa, para a narrativa!
Abraço!
O entusiasmo que esta garota põe no discurso, parece capaz de alumiar as almas mais negras. Quanto a Eduardo Lourenço, é notório que sabia o que dizer, a sua capacidade de análise era certeira.
ResponderEliminarA literatura ocidental é a herança da história masculina, sempre tão cheia de aventuras, de homens que desbravam o oceano e enfrentaram gigantes. Não temos ainda a história das mulheres que ficaram em casa tecendo tramas, palavras e poesia.
ResponderEliminarO seu texto entrelaça bem a relação entre a arte da tecelagem e a narração de histórias, ambos fios essenciais no tecido das sociedades pré-letradas. As mulheres, como fiandeiras destas tradições, desempenharam decerto um papel crucial na preservação dos fios do conhecimento cultural e na sua transmissão às gerações futuras.
ResponderEliminarJá o antropólogo Jack Goody tecia a sua admiração pelo reconhecimento do papel das mulheres na trama da literatura oral. Segundo este Professor de Cambridge, as culturas orais frequentemente possuem técnicas mnemónicas intrincadas, como fios cuidadosamente urdidos, para preservar o seu conhecimento com precisão ao longo das gerações. Estes métodos não só desafiam as nossas suposições sobre as limitações da transmissão oral, como também realçam o padrão complexo e a riqueza das culturas orais, muitas vezes ignoradas nas comparações com as sociedades letradas.
"El Infinito en un Junco", de Irene Vallejo, é uma obra-prima que também exalta a riqueza da transmissão oral de histórias e a sua relação com a evolução da escrita e dos livros, revelando um legado cultural tecido ao longo do tempo. Vallejo compôs habilmente uma tapeçaria de narrativas e reflexões sobre a transmissão de conhecimentos, destacando a importância das mulheres e de outras vozes frequentemente esquecidas. Esta obra notável não só proporciona uma análise profunda e erudita das origens e evolução da escrita, mas também serve como uma mónita sobre o valor duradouro das histórias e das tradições orais. Esta tapeçaria literária erudita entrelaçada por Vallejo é uma homenagem à diversidade e riqueza das culturas humanas e um apelo à preservação desse património cultural inestimável.
O comentário já vai longo, mas não posso deixar de expressar a minha gratidão por chamar a nossa atenção para este encantador vídeo de Irene Vallejo.
Quanto ao elogio de EPC… será difícil de superar!