Palavras mortas

Não sei se alguém reparou, mas no meu post de ontem, sobre o livro de Clara Dupont-Monod, usei dois vocábulos que estão em desuso: «flausina» e «mastragança». São palavras cheias de sumo, forradinhas de sentido, mas infelizmente a cair no esquecimento. Porém, apelo aos leitores deste blogue que se esforcem por incluí-las nos vossos escritos e discursos; e, tal como estas que referi, muitas outras que todos ouvimos decerto aos nossos pais e avós e correm o risco de desaparecer dos nossos dicionários. Eu sei, não é normal retirar do vocabulário uma palavra só porque não anda nas bocas dos contemporâneos. Porém, segundo li, no mês passado o Instituto Camões anunciou que vai considerar palavras mortas todas aquelas que não tenham sido utilizadas nos últimos três anos. Quem deu a notícia com escândalo no Facebook fez, de resto, questão de juntar imediatamente à informação uma dúzia de saborosos vocábulos, como «zureta», «pelém» e «sanapismo». E eu junto «bazulaque», que aprendi com o escritor Mário Cláudio, «lambisgóia», «amásia» ou a expressão «a nove» para dizer «a correr» que, infelizmente, já quase não ouço por aí. Faça o mesmo e não deixe as palavras morrer. Se isto já está pobrezinho, ainda mais pobre ficará.

Comentários

  1. Não fazia ideia que se podiam "matar" palavras, e muito menos que os "assassinos" fossem aqueles que se dizem seus defensores...

    Depois de nos quererem proibir o uso de algumas palavras (às vezes as melhores para retratar coisas muito feias...), em nome da hipocrisia e das "virtudes públicas", só faltava isto.

    O mundo está mesmo de pernas para o ar.

    Maldita gente que não sabe o que significa liberdade de expressão.

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  2. António Luiz Pacheco2 de março de 2023 às 01:43

    Vou fazer uma crítica, quiçá injusta dado que mais não sou do que mera traça dos livros, mas que exprime aquilo que sinto.
    Julgo que uma língua viva é-o porque além de ser falada alarga-se, incluindo novas palavras ou expressões. Uma língua morre se não o faz e acaba por deixar de ser usada. Certo?
    Ora os livros são, acredito eu e julgo não estar errado, justamente um dos melhores meios de usar e divulgar, de alargar, a língua... olhem o Mia Couto, o Águalusa ou Pepetela que (re)criam tantas expressões, como o Paulo Moreiras e o José Cipriano Catarino vão buscar termos e expressões caídas em desuso!
    Portanto, parece-me a mim traça ignorante e barroa, que a responsabilidade de caírem em desuso essas ditas "palavras mortas" pertence em boa parte aos nossos actuais escritores que usam muito pouco da riqueza do nosso idioma, seja porque são modernos e acham que não lhes fica bem, seja por ignorância pura e simples (sim!), quem sabe desatenção da sua missão de também educar e divulgar? Muitos deles, parece que escrevem mais para si próprios do que para os outros.
    Acresce ainda a actividade dos tradutores, que traduzem muitas vezes "á letra" e não pelo sentido, sem atentarem á envolvente, até física, das palavras escritas pelo autor que traduzem. Recordo por exemplo, o péssimo trabalho que senti, feito na tradução do premiadíssimo mas pífio romance "Montanhas douradas", que me ocorre assim de repentemente (neologismo recuperado do linguajar do meu Bairro Ribatejano, também tenho direito!).
    A Nossa Extraordinária Anfitriã não gosta, e peço desculpa pelo abuso, no entanto vou usar a minha própria experiência com a revisora do meu romance recentemente editado (e nem por isso distribuído...) quem aliás fez um bom trabalho tendo muita paciência para me aturar e sobretudo para destrinçar justamente aquilo que escrevi e traduzia formas de falar inusuais e pouco conhecidas. No entanto, porque eu usei muitas vezes expressões idiomáticas nossas, porém caídas em desuso, ela pedia-me esclarecimentos que de início de admiraram pois são para mim correntes e cheguei a questionar se ela seria brasileira, só depois me ocorrendo que sendo jovem, não as usa nem verá usar, daí as dúvidas.
    Não conhecer o significado de "matabichar", por exemplo, parece-me uma falha, e, espero aliás ter contribuído para o enriquecimento do léxico da simpática e profissional revisora que me apoiou e a quem agradeço.
    Portanto creio que cabe sobretudo ao Mundo Editorial e aos autores, recuperar e manter a nossa diversidade linguística, uma riqueza imensa de que poucos terão hoje a noção e da qual pouco uso fazem. Carago!
    Pela minha parte, correspondendo ao apelo da Nossa Extraordinária Anfitriã, vos garanto que até me dedico a procurar essas "palavras mortas" e muito as incluo no meu dia a dia, falado ou escrito.
    Há quem já me tenha dito que adora ler os meus mails, comunicados ou relatórios!
    Penso que é este o caminho!

    Saudações palavrosamente vivas cá da Cidade Morena!

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  3. Quando a mastronça da morte da palavra se metamorfosear em centelha
    talvez a língua materna renasça com laivos de erudição velha.
    AM

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  4. Maria Celeste Pereira2 de março de 2023 às 02:11

    Cpncordo que devemos usar palavras que quase ninguém ouve ou escreve. São como as modas, caem em desuso como o corte à escovinha ou o albernoz. A comunicacaçäo social é disso exemplo. A frase que está na berra é "ainda assim" em vez de contudo, todavia ou outros sinónimos. Escrever hoje em dia é um trabalho árduo. Os aeroglifos voltaram em força.Que pena! - eu nao vou deixar de dar "de vaia" às palavras que fazem parte do léxico português e estão a ficar moribundas.

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  5. Precisamente sobre o envelhecimento das palavras foi publicado há poucos meses um livro que me parece muito interessante: "ROTEIRO AFETIVO DAS PALAVRAS PERDIDAS" do, recentemente desaparecido, António Mega Ferreira.
    Ainda não o li mas já está em fila de espera.

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  6. não consigo encontrar o significado de "mastragança".... es estou cheia de curiosidade!

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  7. Usemos nos escritos e discursos, e também nas conversas, quem sabe em aprazíveis efemérides, com acepipes apetitosos.

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  8. O par da flausina era o baubau, muito usados quando eu era miúdo. Penso que era uma moda passageira e por isso logo caída em desuso.
    Com o mesmo sentido de "a nove" também se dizia "na gasosa" e, para competir com ela, outras palavras começadas por g: "na gazua" e "na gáspea".
    A língua é um instrumento vivo, há palavras que caem em desuso e há outras que a integram pela primeira vez, especialmente quando surgem novos meios (na agricultura, na mecânica, na informática, esta mesmo uma junção de "informação" com "automática").
    A geração dos meus filhos também criou palavras novas, algumas ainda se usam (como bué e cota) mas outras rapidamente se perderam (como coche, que significava "pouco", "um pouco"). A formação desta foi interessantíssima. Retiraram "pou" à palavra "poucochinho", usando "cochinho" com o mesmo significado. Devem ter considerado que o diminutivo era uma espécie de pleonasmo e passaram para "coche", que significava "um pouco", "pouco", "poucochinho".

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  9. Ainda me recordo de ouvir as palavras "flausina", "lambisgóia" e "amásia", bem como a expressão "andar a nove", mas a palavra "mastragança" é-me totalmente desconhecida e o dr. Google também não a conhece. Será que não queria escrever "mastronça", um velho adjectivante frequentemente aplicado a mulheres desajeitadas e pouco apetecíveis ao olhar?

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  10. "Mastragança" também não conheço. "Mastronça" sim. A minha mãe usava "mondongo" com esse significado, mas nunca ouvi ninguém mais fazê-lo.

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  11. António Luiz Pacheco2 de março de 2023 às 06:57

    Houve muitas expressões trazidas de África pelos soldados que participaram na guerra colonial e depois pelos retornados, estes a partir de 1975. No contacto com eles, sobretudo nas escolas, apareceram então muitas dessas novas palavras ou expressões, algumas delas tornando-se correntes e ainda hoje usadas na gíria dos mais novos que raramente lhes sabem a origem ou a causa.
    Kota significa velho; bué é sinónimo de muito, são palavras angolanas, tal como cuia (bom) tubariopa (filho da mãe) e katembe (vinho com gasosa).
    Trazido pelos moçambicanos temos o famoso "maningue" (corrupção do inglês); "chunguila" = bom, bonito; tchóvar = empurrar; chimar = comer.
    Algumas expressões com palavras portuguesas eram/são também ali/cá usadas com outro sentido e foram igualmente introduzidas, nesta gíria:
    - Chupar = beber / estar chupado = estar bêbado. Estar queimado = bater mal da cabeça. Não me fatigues = não me aborreças. Dar consumição = provocar cansaço.
    Há de facto uma riqueza enorme na nossa língua, que se deve também e muito aos povos que nos invadiram milenarmente, como à nossa expansão pelo Mundo em que fomos tão colonizados quanto colonos, coisa de que nem todos se apercebem.
    Abraço africano!

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  12. António Luiz Pacheco2 de março de 2023 às 07:03

    Mondongo, que significa pessoa mal-amanhada, suponho que seja devido a ser a designação de um prato de tripas originário da América do Sul.
    Mastronça, uma coisa grande e normalmente mal-apresentada (parece que não pode dizer-se feio!), era o nome popular de umas bonecas de pano riscado cheias de algodão com cabeleiras de lã, não sei se alguém se lembra disso? Como lá em casa se punha nomes a tudo, tivémos uma camioneta chamada juastamente "mastronça", tal como a Peugeot 505 de 9 lugares do pessoal era a "traineira". Ahahah!

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  13. Só agora li os comentários e já, acima, que "mastragança" é uma misturada... Pela sonoridade da palavra diria que é uma misturada mal conseguida :)

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  14. "E já vi"... engoli o verbo sem dar por isso...

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  15. Aqui no Brasil usamos correntemente a palavra lambisgoia, no sentido de ser uma mulher feiosa, e zureta, de ser alguém meio doido. Acho que sou os dois haha. Não vou deixá-las morrer!

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  16. O Priberam regista «mastragada» com esse sentido de mixórdia:
    https://dicionario.priberam.org/mastragada
    Talvez «mastragança» seja a forma como diziam em minha casa, erradamente, suponho.

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  17. Boa tarde.
    Vou ser breve, muito breve. Só me apetece dizer (desculpem-me): E se esses censores das palavras fossem Prá puta que os pariu?
    Bom dia, boa tarde ou boa noite segundo a hora em que me leiam.

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  18. Se é um regionalismo, também pode ser um familiarismo :)

    Uso muito alguns termos que sei perfeitamente estarem em desuso como "maleitas", "mazelas", "traquitanas" e "fanicos" só porque fiquei afectivamente ligada a eles. Achei o mastragança uma palavra realmente sumarenta. É bem possível que venha a adoptá-la.

    Muito obrigada, Maria do Rosário.

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  19. António Luiz Pacheco2 de março de 2023 às 08:35

    Olhe pode dizer aos censores: Tubariopa!
    É umbundo, uma língua que também enriqueceu a nossa!
    Sialapo ciwa, eteke tu li sanga
    (Fique bem, até à próxima)

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  20. Não abdico de “ajoujada” de trabalho e “exaurida”… espero que nos últimos três anos alguém as tenha usado para além de mim 🥶

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  21. Inconsútil e macambúzio também deixaram de ser usadas, além dos regionalismos do mestre Aquilino, como esbagachada, calondros, estrambóticas, mavróticas, tabético, matalotagem, etc..

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  22. António Mega Ferreira que desgraçadamente se rendeu (ou não: quem sabe aderiu com genuíno entusiasmo) à imundície do AO90. Só podia ser "afetivo" esse roteiro.

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  23. Googlei (uma palavra ainda juvenil) à procura da notícia sobre tão estapafúrdia (palavra moribunda?) decisão do ICA. Mas nada encontrei. Será verdade ou uma falsanova (termo recém-nascido)?

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  24. Do meu dic. regional (Língua de Pobre):
    mondongo (s) (s.m.)
    1. Pessoa suja, desmazelada, desprezível.
    2. Farrapo, andrajo, trapo velho.
    3. Desordem, desarrumação, desalinho.
    4. Vísceras de certos animais (carneiro, porco), tripas.
    5. Cast. ‘mondongo’ (vísceras).
    6. >Emondongar (desordenar, esfarrapar, pôr em mondongos).
    7. (‘buliu o soalho tábua por tábua, virou a ruma das batatas, pôs-lhe a enxerga em mondongos’ – Aquilino, Terras do Demo).
    8. (‘uma pilheira, onde jazia enterrada... em ignóbeis mondongos’ – Araújo Correia, Cinza do Lar).
    - Cabral; Houaiss; Moreira (Estudos, II, 248); Ribacoa; RL 12/111 (AGP); RL 17/156 (US);
    http://www.priberam.pt/dlpo/mondongo

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