O que ando a ler

Um dos livros mais incríveis que li sobre uma relação amorosa entre pessoas de idades diferentes foi, sem sombra de dúvida, A Única História, do querido Julian Barnes. No caso, o jovem pequeno-burguês que a mãe inscreve no clube de ténis com o intuito de que ele arranje uma namorada com posses e estatuto é um feitiço que se vira contra o feiticeiro, porque o rapaz se apaixona por uma balzaquiana e ainda por cima casada. E, não bastando o desgosto da mãe, ele próprio fica destroçado com aquela relação, ao ponto de a mulher mais velha se tornar «a única história» de amor da sua vida. É também neste sentido (uma mulher mais velha com um rapazinho trinta anos mais novo) que vai o mais recente livro de Annie Ernaux, publicado em França pouco antes de a autora francesa saber que ganhara o Prémio Nobel da Literatura: uma mulher de 54 anos (a própria escritora) acaba por se envolver com um jovem tímido (O Jovem é mesmo o título do livro) que é seu admirador e, por acaso, vive em Rouen, o lugar onde ela estudou e aonde regressa para reviver muitos episódios de juventude (entre eles o do aborto tratado em O Acontecimento). Mais do que uma relação amorosa, é, contudo, um regresso a uma vida passada, às memórias da juventude; e, tal como no livro de Barnes, não há o cliché de a mulher mais velha ser abandonada pelo rapaz novo, mas a novidade de deixar o «jovem» ciumento e inconsolável. Na verdade, lê-se numa hora ou duas, é um conto longo, nem mesmo uma novela, e as páginas restantes são fotografias da autora de quando teve o caso e mais elementos biográficos.

Comentários

  1. Ando a ler O Firmamento é Negro e Não Azul, uma nova biografia de Luiz Pacheco de António Cândido Franco; Os Perigos do Imperador de Ruy Castro; Duzentos Poemas de Emily Dickinson na tradução de Ana Luísa Amaral e por fim a reler Casa do Escorpião do meu querido mestre Aquilino Ribeiro e já chega para este mês!

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  2. Do Julian Barnes só li e já reli O Homem do Casaco Vermelho que recomendo vivamente, não é um romance!

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  3. Vai estragar um bocadinho o seu texto, mas o belíssimo livro do Barnes a que se refere chama-se "A Única História".

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  4. Corrigi, muito obrigada! É a velhice, já nem decoro os títulos...

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  5. Li "O Jovem" há dias e gostei bastante, tal como de todos os outros que li dela. Sinto uma enorme empatia com a escrita da Annie Ernaux, embora ela relate vivências muito diferentes das minhas.
    Vou começar a ler "Os Anos" - guardei o maior (e penso que o melhor) para o fim.
    Maria

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  6. Estou a ler O ALFARRABISTA DE PONTA DELGADA de Francisco Duarte Mangas. Foi difícil perceber a teia do romance até meio do livro. Normalmente as contracapas ajudam quando trazem uma síntese o que não acontece neste caso, por isso tive que pesquisar e se o tivesse feito no início teria sido ajuizado da minha parte, a menos que o que se espera do leitor seja isso mesmo: fazer o seu trabalho de casa. Mas escritas como a seguinte prenderam a minha atenção : “ As árvores de folha perene bebem seiva egoísta , considera Brown no seu irregular e por vezes delirante diário, descoberto, por outro jardineiro, ao remover as raízes de uma araucária morta. As araucárias formam-se enormes, numa geometria hereditária. A grandeza, descobri nas palavras de Brown, a consistência do tronco, e seu apertado coração resinoso, adiam o definhamento. É uma árvore morta no bosque, , mas de pé, se não houver pressa de a derrubar, uns bons anos a conter a podridão.”

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  7. O Firmamento é Negro e Não Azul - está a gostar?

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  8. JULIAN BARNES - tem sempre o selo de garantia!

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  9. Gosto bastante da escrita de Julian Barnes. E A Única História é um livro com qualidade.

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  10. Pois eu ando a ler, do nosso Extraordinário João Pinto Coelho, "Mãe, doce mar".
    E a gostar muitissíssimo! Aconselho vivamente.
    Que bela leitura nos proporciona, fazendo-me lembrar Steinbeck! Uma escrita assim à americana, que se lê com prazer e leveza. E os personagens nos parecem familiares, gente que conhecemos ou podíamos ter conhecido, sem rebuscamentos inoportunos e fora de propósito, o que vai sendo raro entre os nossos autores que se pretendem profundos e depois criam personagens pouco convincentes de tão sofisticadamente fora do real.
    É um caso raro dentre o panorama da nossa escrita actual, para mim, que gosto de ler os americanos por causa disso e em compensação cada vez menos gosto de ler autores portugueses de referência, de tão intelectuais e complicados!

    Abraço ao JPC!

    Nota: já ando a salivar de antecipação pelo novo (atéquenfim) do Paulo Moreiras!!!!

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  11. "INDEPENDENTE
    DEMENTE" - MIGUEL ESTEVES CARDOSO- um dos grandes BARRETES que levei até hoje!
    Fui enganado, porque aquilo não são crónicas são "notícias refrigeradas" de há 30 e tal anos. Crónicas são, por exemplo, as do António Lobo Antunes, aquelas sim são crónicas mas, ao mesmo tempo, literatura. Este senhor MEC só pensou em ganhar mais uns cobres, porque aquilo, nesta data, é impublicável -fui "ludibriado"-!
    Uma coisa que não tem ponta por onde se lhe pegue, absolutamente fora de prazo. Por exemplo, que me interessa (hoje) que o PCP e o CDS tenham tido 20 e tal por cento de votos nas Legislativas de 1989...

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  12. Acontece e é sempre muito chato quando perdemos tempo numa leitura que poderia ser aproveitada para outo livro.

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  13. Basta comparar estes dois romances para se concluir que Barnes é escritor de nível bem superior a Ernaux e, no entanto, o Nobel foi para ela.

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  14. Sim, embora ainda esteja no princípio; já li a outra biografia Puta que o Pariu. Também tenho alguns livros do Pacheco.

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  15. Acabei de ler "Mãe, Doce Mar", do João.

    É um livro mais "calmo" que os outros três do João, talvez por estar centrado nos dramas de uma família e ter menos personagens.

    Como de costume, está muito bem escrito e construído. E claro que (tal como o extraordinário Pacheco), recomendo a sua leitura.

    Hoje como ia viajar de comboio, resolvi tirar da estante um livro de poesia. Não podia ser mais acertivo na escolha, com a "Estação Central" de José Tolentino Mendonça. Muito boa a abordagem poética do Padre Mendonça, com Nova Iorque ali mesmo ao lado...

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  16. Acabei Os Anos, de Annie Ernaux. A ambição de fazer a figura central, ela própria, "participar" na realidade social em que esteve mergulhada, parece-me não ter sido conseguida.

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  17. Um forte abraço, Extraordinário António Luiz.

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