Manuais

Fui professora de Português durante uns anos e estive em escolas várias, com manuais escolares muito diferentes, uns melhores do que outros. Os livros por onde estudei eram, basicamente, livros de leitura e gramáticas, enquanto estes por que dei aulas já tinham tudo junto e também exercícios e, como então se dizia, «fichas de leitura» com perguntas de interpretação (para o caso de o professor não as saber fazer). Para mim, do que recordo, os melhores manuais eram aqueles cujos textos tinham potencial para se dar a matéria que estava a ser tratada; textos que, no fundo, se prestassem para darmos os advérbios, ou as palavras derivadas, ou certas figuras de estilo, ou a estrutura narrativa, e, ao mesmo tempo, veiculassem conhecimentos e informação interessantes, além de certos valores, infelizmente em declínio. Tinha de ser o professor, claro, a encontrar a melhor forma de coordenar estas diversas aprendizagens, mas hoje o professor recebe um maual em que lhe dizem exactamente o que fazer, dispensando-o de pensar pela sua cabeça, o que é tremendo. E, no entanto, não vejo ninguém preocupado com isto, sabendo, ainda por cima, que muitos professores agradecem que lhes façam a papa toda. Por outro lado, li recentemente um artigo no jornal Expresso sobre livros escolares que criticava por exemplo um manual em que, num texto sobre um passeio familiar, o rapaz andava de bicicleta com o pai e a irmã colhia flores com a mãe, acusando o dito de veicular estereótipos familiares e de género. Compreendo, mas para variar podiam preocupar-se também com o ensino da língua materna?

Comentários

  1. Os manuais escolares não podem ser a bula totalitária da transmissão do conhecimento sob pena de se transformarem em talas limitativas quer para os professores quer para os alunos.
    Muito mais úteis seriam se conseguissem funcionar como a engrenagem dos pilares básicos do saber a transmitir deixando a liberdade ao mestre para leccionar com a sua arte e ao pupilo a trilogia obreira de aprender, estudar e pensar sobre o totem transmitido.

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  2. Péssima ideia esta, de problematizar os manuais escolares. A lista de reivindicações dos professores, que já é extensa, poderá incluir "exigimos manuais melhores". ( Desculpem a ironia).

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  3. O grande objectivo do Grande Irmão que impera sobre o pensamento actual, é, a construcção do "novo ser", forçosamente assexuado e desumanizado!
    Portanto os manuais escolares terão de reflectir isso, para se criarem os novos seres.
    Que sejam incapazes sequer de sobreviver, isso não interessa para nada, o que conta é que sejam sobretudo desprovidos de qualquer tipo de iniciativa ou capacidade de pensar e de agir!
    Por bem dos donos do pensamento.

    Saudações humanas cá da Cidade Morena.

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  4. Manuais escolares, jornais, tv, faces, Twitter, etc, são um activo contributo para a estupidificação colectiva.
    Um gritante exemplo é a impressionante incapacidade argumentativa da generalidade dos políticos (cá e lá fora), a completa ausência de um pensamento complexo.
    Para além da manha apreendida nas fileiras de boys, ignorantes de tudo o resto.
    E já que o apadrinhamento e corrupção parecem ser prática corrente, ao menos que sejam competentes.
    E é melhor nem falar do que chamam comunicação social que é a negação de comunicação e talvez nem ultrapasse o nível do papaguear.

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