Corrigir e aperfeiçoar

Muitas vezes, quando estou a ler, descubro frases e expressões que poderiam ter sido corrigidas se o autor tivesse tido a possibilidade de meter o seu manuscrito na gaveta durante uns meses e, ao fim desse tempo, o relesse e revisse. Há frases tão desastradas que tenho a certeza de que os próprios autores dariam pelo descalabro se não estivessem tão apressados para entregar o texto para publicação. Um dia destes, por exemplo, no romance de alguém conhecido (não falo de nenhum jovem autor), encontrei uma passagem em que a personagem caminhava «na direcção» de alguém e se «dirigia directamente» a essa pessoa para lhe perguntar já não sei o quê. Mas ninguém deu por isto? Recuso-me a acreditar que foi de propósito, tão coxo ficou... Mas, bem sei, os escritores querem desembaraçar-se dos seus livros e dividi-los com o público assim que os dão por terminados. Li algures que o pintor francês Pierre Bonnard, que estava sempre a precisar de dinheiro, também vendia os quadros sem os «rever»; mas depois, ao que se conta, chegava a arrombar as casas dos compradores das telas e ia acabá-las ou aperfeiçoá-las às escondidas. Uma bela história que é também um exemplo de exigência. Só que aos escritores pede-se que façam isso antes de o livro impresso.

Comentários

  1. Engraçado encontrar uma gralha num texto que tem o título "Corrigir e Aperfeiçoar":
    "... encntrei uma passagem em que...", terá sido de propósito?
    A lição fica, somos todos humanos, erramos todos e se calhar é isso que nos torna interessantes.

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  2. Obrigada. Corrigi. Mas não era de gralhas que falava...

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  3. Julgava eu que o escritor teria, além da sua leitura, alguém da editora que lesse com olhos outros o livro a publicar, com o objectivo de notar essas mesmas incoerências e erros. Isto porque, por vezes, e depois de o escrever, é provável que o autor esteja farto dele e já nem dê por tais malogros linguísticos. Lembro o que sucedia com Agustina, que brigava com o marido - passava-lhe à máquina o manuscrito - se acaso ele pretendia que algo não batia certo, ou não entendia algum excerto; nessa altura ela queria era distância do livro e, conta a filha, já esquecera personagens e história. Embora não me pareça que a senhora cometesse erros do teor apontado, existe sempre a necessidade de um outro olhar.

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  4. Conheci um escritor-poeta que adiou sistematicamente a publicação dos seus textos invocando a carência de aperfeiçoamento.
    Curiosamente, o mesmo escritor-poeta, protelou durante muito tempo a aquisição de uma televisão a cores alegando aguardar o último grito tecnológico para obtenção da modernidade do equipamento.

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  5. Quem não se arrependeu já de ter enviado um e'mail...
    Quem não se arrependeu já de ter aqui comentado (em determinados termos)...
    E depois há os maníacos do som que quando queriam comprar uma aparelhagem (gira-discos) eles já não procuravam o melhor som procuravam sim o ruído que poderia notar-se...

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  6. eu escrevo sem acordo ortográfico.

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