A metro
Há muitos anos, apareceram as vendas de livros porta a porta em Portugal; e o Círculo de Leitores, o maior clube de livro português, chegou a ter meio milhão de sócios, que compravam mensalmente livros e publicações, recebendo por vezes como prémio de fidelização presentes que incluíam electrodomésticos giros e modernos. Mas muitos desses compradores de livros cartonados e bonitos, ou encadernados a couro, ou com muitos volumes e caros, não eram na verdade leitores; eram pessoas com estantes vazias em casa que achavam que ficava bem ter livros, ou pais que não tinham podido estudar e adquiriam património literário para os filhos. Contava-se até a história de um sócio que tinha ido à sede da empresa com uma fita métrica medir os volumes de uma certa colecção bonita para ver se lhe cabiam nas prateleiras da sala. Rimos desta história, mas eis que descubro numa partilha do Facebook uma empresa que se dedica à decoração de... estantes, para a biblioteca da sala ficar mais bonita. Nem sei se se trata apenas de lombadas, como em Casa de Campo, de José Donoso, mas não me admiraria muito se assim fosse. O anúncio vai abaixo. Não creio que interesse muito aos que aqui vêm...

Não deixa de ser curioso que os livros sejam o único "artigo" que suscite um pensamento sobre a cultura de quem os detém. Podemos ter uma parede forrada de pratos valiosos, de gravuras antigas ou de quadros bons. Ninguém intuirá nada, a não ser herança ou gosto. Mas os livros (mesmo os que têm uma encadernação bonita) têm de significar qualquer coisa.
ResponderEliminarHá sempre aquela pergunta que se faz aos detentores de bibliotecas extensas: "leu os livros todos?" A resposta, há quem diga, tem de ser "claro que não!" Quem compre estas bibliotecas a metro poderá dizer o mesmo, esperançado(a) de que ninguém lhe pergunte "então quantos?"
Ainda bem que trouxe esse tema... passo, tanto os livros a metro quanto as lareiras eléctricas!
ResponderEliminarTenho felizmente a sorte de possuir tanto o espaço para estantes e quanto as árvores para me abastecer de lenha. Porém os saudosos clubes de livros, ah! Desses sim vale a pena falar.
Desde logo e o primeiro de que me recordo, eram as Selecções do Readers Digest, de que tenho muitos e belos ou bons livros! Eram anunciados em cupões na revista, encomendavam-se pelo correio e vinham na volta do mesmo, pagos por vale postal!
A famosa Editora Verbo e a Verbo Juvenil, foi outro marco na minha juventude.
Houve também as Edições Salvat que publicavam belas colecções de temas também mais "enciclopédicos"... história, geografia e ciências natureza.
O Círculo de Leitores de boa memória, proporcionou muitos títulos.
Ainda existem hoje Editoras deste género? Confesso que nunca mais dei por elas.
Saudações enciclopédicas cá da Cidade Morena.
Livros como objectos decorativos ? Porque não ?
ResponderEliminarE se associada à decoração a empresa promovesse a contratação de " personal trainers" livreiros, a criação de um Fundo de fomento de Leitura e o mecenato de um Festival Literário ? Melhor ainda.
Vejamos, e permita-me meter a colherada:
ResponderEliminar- Este local, sendo óbviamente um local de cultura, é no entanto um blog de leituras, de livros, que como muito bem diz são parte integrante da cultura. Todavia esta não se esgota neles.
Conheço muitas pessoas com as suas bibliotecas, havendo as que só têm livros e as que têm além dos livros como que pequenos museus particulares dos seus interesses, ou da sua cultura.
Um dia que queira visitar-me, vai ver a minha biblioteca pessoal espalhada por pelo menos três divisões, onde verá também quadros com pinturas ou desenhos, fotografias de família ou de acontecimentos, troféus, armeiros, colecções de minerais, pedras e fósseis, conchas, facas e navalhas, arte africana, loiças, discos, estatuetas, canetas e artefactos, muitos objectos heteróclitos herdados ou recolhidos ao longo do tempo, que atestam os meus interesses, sendo também recordações, memórias, história e herança.
No entanto o que interessa, o tema central e o que reúne tudo o mais, o elemento aglutinador, são os livros!
Livros que alguns tomam como sendo o que denota "cultura" e até os usam como elemento decorativo, como outros têm lareiras falsas com iluminação eléctrica a simular chamas.
Enfim, somos todos uns farsantes, ou no mínimo simuladores.
Abraço cá da Cidade Morena.
Não sei se seria exatamente assim com o Círculo de Leitores, de que fui comprador durante muitos anos. Foram publicadas obras completas de autores marcantes que constam da minha "estante" de que destaco: José Rodrigues Miguéis, José Régio e Padre António Vieira, assim como umas excelentes: História de Portugal, História da Vida Privada, História da Expansão Portuguesa e Grandes Temas da História de Portugal. A sua publicação ritmada, por trimestres, permitiu a sua leitura e necessária aquisição.
ResponderEliminarForam para mim excelentes obras de leitura, consulta e aprendizagem.
Não defendendo esta editora, em meu entendimento este aspeto decorativo alheado da qualidade circunscrevia-se mais às edições do Reader's Digest.
Entenda-se este post como um mero esclarecimento.
- Sinceros Parabéns à mentora Maria do Rosário Pedreira pelo Prémio atribuído nas Correntes. Merecido reconhecimento.
ACCarvalho