Viajar com Patti Smith
A cantora Patti Smith é, para quem não saiba, uma excelente escritora; o que eu não sabia é que tinha escrito também sobre viagens, e essa é uma excelente novidade. Daqui por uns dias, sai, de resto, para o mercado o seu livro M Train, na colecção de literatura de viagens «Terra Incognita», da editora Quetzal, que inclui já verdadeiros clássicos do género, entre os quais figuram, por exemplo, O Grande Bazar Ferroviário, de Paul Theroux. Mas, desta feita, o «comboio» são as Memórias de Patti Smith, e o livro fala-nos de muitos lugares, relacionando-os constantemente com a literatura (e, claro, o rock). Como escreve o editor: «Sentada no seu café nova-iorquino preferido, Patti Smith lembra as sucessivas viagens que alimentam as suas obsessões artísticas e literárias, bem como o seu desejo de uma beleza que transgrida a ordem do tempo.» E acrescenta (copio um pouco do texto de apresentação porque ainda não tenho o livrinho nas mãos, mas está quase) que iremos poder viajar com ela da Guiana ao México e da casa de Frida Kahlo até Berlim, e também visitar os túmulos de Jean Genet, Sylvia Plath, Rimbaud e Mishima, sentarmo-nos na cadeira de Bolaño ou homenagearmos Burroughs e Sebald. Já tenho água na boca, claro: está na lista de compras da próxima quinta.
Gosto muito da Patti Smith, da cantora e também da escritora do quotidiano (do seu que também acaba por ser nosso).
ResponderEliminarGostei muito dos seus "Trocado por Miúdos" e "Mi Train" (penso ser o mesmo livro, que já li à meia-dúzia de anos...).
Ainda passei a gostar mais dela...
Acredito que seja um livro de culto, sobretudo.
ResponderEliminarNa verdade, embora sabendo da veia literária da autora (basta lembrar que escreveu letras de canções), só conheço o trabalho dela como compositora e intérprete - aliás "Because the night" é um clássico e daquelas que ficam para sempre.
Porém acontece que não sou grande fã do punk rock e menos da cultura punk, pelo que é livro que não me atrai, à primeira vista.
Fala-se aqui em desejo de beleza, pois é justamente esse o cerne da questão, beleza punk? Não havendo beleza absoluta e sendo esta um conceito muito pessoal e até discutível, percebo que aquilo que para mim é belo, não o seja igualmente para todos.
É interessante este tema, "o belo", e ainda bem que é tão diverso pois isso nos enriquece.
Custa-me mesmo a entender que se queira impor aquilo que alguém ache belo a quem não o ache.
Portanto as viagens de Patti Smith, correm ainda o risco de transmitir alguma experiência ou forma de ver, derivada do consumo de alucinogéneos, o que a mim não me perturba, mas podem ser fora daquilo que me agrada.
We shall see...
Mas sem dúvida que Patti Smith é uma figura importante na cultura do século XX, e, que vale a pena conhecer. Vai ser um livro de sucesso, suponho. ´
Saudações viajadas cá da Cidade Morena.
Não será uma reedição?
ResponderEliminarA Quetzal já tem esse livro editado há vários anos. É maravilhoso e um dos meus livros favoritos
Numa interessante coincidência, foi também publicado hoje, em outro blog, este texto:
ResponderEliminarhttps://sound--vision.blogspot.com/2023/01/patti-smith-no-pais-da-poesia.html
É capaz de ter razão e ser apenas uma nova edição num formato diferente na colecção de viagens. Mas, como não o conhecia, já levo daqui a sua opinião favorável, o que quer dizer que saí a ganhar. Obrigada.
ResponderEliminarSaíu a ganhar, sim :-)
ResponderEliminarComprei esse livro em 2016 e adorei.
Antes já tinha lido o Just Kids, que ganhou o National Book Award. Se gosta do Camus leia também o Devoção. A Patti Smith é uma mulher culta e sensível, muito ligada à cultura europeia, e não uma punk drogada como muitos julgam.
O último que a Quetzal editou foi O Ano do Macaco, em 2019, igualmente bom.
Boas leituras!
Maria
Deve ser bem interessante, obrigada por divulgar.
ResponderEliminarEu tenho um DVD que saíu com o Público há uns tempos: Patti Smith, Dream of Life, de Steven Sebring.
Maria
Olá! António Luiz Pacheco, M TRAIN (sim, saído em 2016 pela Quetzal, editora que nos deu a ler todos os restantes livros da autora), bem como as outras obras (Apenas Miúdos - O Ano do Macaco - Devoção) de Patti Smith, nada têm a ver com a tipologia de beleza oriunda de qualquer "classe" ou movimento musical. A escrita da autora dá-nos uma imagem de a serenidade dos dias, dos seus dias (e das suas preferências, principalmente literárias)... mesmo as suas viagens, ou as suas rotinas como sejam o despertar a dar comida ao seu gato, sair para escrever (solitária quase sempre) ou ler num canto de café, acompanhada com o pão com azeite e o café, são pura serenidade, emoção, devoção e pensamento. O inverso do ritmo da minha geração, seja new wave, rock ou punk, a não ser, claro, partes passado que vêem sempre à memória e que no fundo constroem o que possamos ser hoje. Para quem gosta de escritos, de divagações, de pequenos grandes nadas muito bem contados, vai ler, reler e aguardar sempre por novas obras literárias da artista. (josé manuel reis)
ResponderEliminarAntónio Luiz Pacheco, uma curiosidade que colmata também, qualquer tipo de imaginário que possamos ter sobre alguns artistas, Patti Smith nunca consumiu as chamadas drogas.
ResponderEliminarGostei de ler o seu comentário!
ResponderEliminarNo entanto creio que me entenderam mal, pois eu não refiro PS como uma "drogada", seria redutor da minha parte e já devem tê-lo percebido. Génio é génio, consuma ou não drogas e álcool, seja sexista, pedófilo ou homossexual, conta aquilo que produz enquanto artista e não as suas preferências pessoais!
Que fique esclarecido.
Que ela não tenha consumido drogas... naquele meio e no que fazia, à época e na sua idade, é-me difícil de acreditar. Mas isso em nada diminui a sua qualidade de artista.
Se o refiro, é apenas numa alusão irónica às "viagens", creio que daí o mal-entendido.
Abraço cá da Cidade Morena.
Lendo a artista, enraizando-nos no seu quotidiano, na sua história, é fácil acreditarmos que nunca consumiu alucinogéneos. Nem me lembro se ela alguma vez comentou ter partilhado um charro, mas creio que não. Há gente que coloca os seus medos, traumas e até valores éticos numa prateleira muito acima... todavia, tal como o Luiz Pacheco refere (e assino sobre a sua assinatura), interessa a obra além de qualquer "pecado" designado à bítola dos outros. Lembro-me de Ary dos Santos que era copy numa agência onde trabalhei, e que não dissertava e soltava a sua criatividade sem uma ajuda complementar liquída. É sabido que assim é, tantas vezes com grande parte de nós, do bagaço ao charro ou à banal bica... porém há gente a trabalhar na Tabaqueira que não fuma, assim como há médicos que o fazem. A viagem da cantora é outra, feita de memórias, de devoção e visita aos próprios autores que gosta (vivos ou mortos), às suas chamadas para dialogar com os outros e a alguns concertos que vai mantendo. E já que estamos aqui num intercâmbio quase directo de palavras, digo-lhe que não passo sem o ler a si, à boleia da minha poetisa preferida. :)
ResponderEliminarEntão, você trabalhou na Espiral...
ResponderEliminarA empresa onde o meu pai era empregado também tinha ligações com aquela agência de publicidade, e foi assim que ficámos com um exemplar autografado de «As Portas que Abril Abriu». Infelizmente, ambos faleceram no mesmo ano, e eu nunca cheguei a conhecer pessoalmente o poeta.
Já agora, porque é que não se identifica?
Identifiquei-me num dos post deste diálogo (josé manuel reis) – o porquê da identificção não permanecer, já me transcende. Ouvi falar muito Espiral sim, uma agência bem importante da sua época, porém eu trabalhei e iniciei-me como arte-finalista na Belarte, nos anos 80, época de início do seu declínio. (josé manuel)
ResponderEliminarTens toda a razão, Pacheco. Claro que a Patti fumou uns charros (é até é provável que ainda fume, apenas por prazer...), mas nunca entrou nas dependências das drogas fortes e fracas, como aconteceu com o seu companheiro de então, o fotógrafo Robert Mapplethorpe, nem com tantos amigos dessa época louca dos anos setenta e oitenta do século passado, que tiveram uma vida demasiado curta.
ResponderEliminarDiz muito bem Extraordinário Luis Eme: "tiveram a vida muito curta".
ResponderEliminarSeria tema para nos sentarmos a conversar sobre isso, longamente e por certo com muito interesse e paixão.
Tantos geniais artistas que tiveram vidas curtas, haverá nisso um propósito? Será de propósito? Porquê e de onde virá esse desígnio?
Artistas geniais porém profundamente perturbados, talvez pela sua percepção pessoal e uma sensibilidade que nos escapa a nós gente comum, eventualmente racional, quiçá cultivada mas absolutamente comum, se bem com alguma sensibilidade que nos permite entrever no nosso racionalismo essa janela da genialidade e perturbação profunda e nos permite admirá-los apesar dos eventuais desvarios.
Não os lamento quando deram corpo à sua genialidade, mas sinto alguma pena que tenham partido cedo, sim. Ou não partiram? Estava decidido que nos dariam alguma coisa e depois partiam? Género Menino Jesus e sapatinho, se é que me entende.
Suponho que PS pertença ao clube exclusivo dos que se mantiveram apesar de... talvez porque mais lúcida, menos perturbada. A genialidade e a arte não serão proporcionais à perturbação, mas podem influenciar a sua duração?
Isto dava panos para mangas.
Grande abraço cá da Cidade Morena, é sempre um prazer lê-lo e "conversar" consigo.