Falar do que dói

Lídia Jorge escolheu como tema do seu último romance, Misericórdia, a vida num lar de terceira-idade. É um assunto tremendo, mas que deve ser abordado de todas as formas e feitios, até porque o ser humano está a durar cada vez mais tempo e os lares são um dos mais previsíveis destinos para quem envelhece e se torna um fardo, ou simplesmente para quem não tem quem possa acompanhá-lo nos últimos anos de vida. Como dizia Steiner, os novos não têm de levar connosco, e dou-lhe razão, mas enquanto puder prefiro ter a minha mãe quase centenária na sua casa a interná-la numa instituição. Sei que em tempos falei aqui no blogue de um livro de banda desenhada de um autor espanhol, Paco Roca, que depois teve uma versão em filme de animação, chamado Rugas, sobre este tema difícil dos lares; era uma história que tomava como protagonista um homem com Alzheimer que o filho e a nora «despacham» (no livro é assim, apesar do que diz Steiner) para um lar e ali acaba por encontrar o mais inesperado cuidador. E agora encontrei um outro livro de BD cuja protagonista é uma senhora nos seus setentas que, depois de enviuvar, tem de sair da  sua casa na província por causa de uma expropriação e, como todos os filhos vivem em cidades distantes, dá entrada numa casa de repouso, mas repousa pouco, pensa muito, desvia os outros utentes para aventuras proibidas e até arranja um namorado – embora, claro, continue a odiar estar num sítio daqueles (a colcha, o papel de parede, os horários..., bah!). Chama-se Mergulho, assina-o Séverine Vidal e Vitor Pinel e vale bem a pena. Para, enfim, nos irmos habituando ao futuro.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco25 de janeiro de 2023 às 02:58

    O tema é deprimente!
    Mas real, actual e creio que oportuno.
    Quase sempre o tema é tratado em termos de paródia... mas será?
    Infelizmente nada tem de comédia, é mesmo o nosso futuro, podem crer, a menos que...
    Na actualidade não há lugar para velhos e as cooperativas de idosos isto é, os amigos da mesma idade que se juntem e vivam num lar ou coisa parecida, contratando a assistência que precisem pode ser uma boa e feliz solução, mas e os que não o possam fazer?
    É dramático...

    Ser velho aqui é mais dramático ainda, mas não nos serve de consolo.
    Saudações provectas cá da Cidade Morena.

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  2. Talvez eu seja mesmo antiquada, mas, se e enquanto a velhice mo permita, pretendo ficar por minha casa. Nada me importa morrer sozinha, todos morremos sozinhos. Custa-me pensar em levantar-me à hora estipulada; não ficar no quarto senão à noite; não sair senão em passeios organizados pela instituição; adoecer e não ter o médico que pretendo mas o da instituição; alimentar-me por um cardápio que é mais ou menos fixo; não festejar quando me apetece mas quando a instituição organiza o festejo. É deprimente, sim.
    Mas os filhos não querem e nem podem levar connosco. E vão descartar-nos para um lar. Os filhos, mal comparado, procedem com o lar como o marido da grávida, deixando-a no hospital para ter a criança, descansa. Falta o pior, mas sentem-se desobrigados, chega-lhes um alívio. Pagam mesmo e sobretudo para isso. O que, embora não desejemos "dar trabalho", é um bocadinho preocupante. Antigamente, a última morada era o cemitério; hoje, é o lar. Talvez faça mais sentido, no cemitério já não somos nós quem está.
    E pode o livro ensinar-nos algumas particularidades.

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  3. Vamos ser velhos ao sol... :)

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  4. A questão é que não se vive mais tempo, desde há centenas de milhares de anos. O que há é MUITO mais pessoas a viver mais anos, ou seja, a serem por exemplo centenárias. Todavia, os séculos não têm acrescentado um ano, sequer, à longevidade humana, mas apenas muitos à média da esperança média de vida (e com melhor qualidade de vida, acrescente-se). São coisas diferentes, mas a sociedade parece ignorar o que está realmente em causa. Quanto aos "lares", relembro o excelente trabalho realizado pela Comissão CID, nomeada por Bagão Félix em 2003, e que produziu três relatórios sobre Boas Práticas. Era coordenada pelo Juiz Armando Leandro. Onde estão os relatórios? Provavelmente em outras tantas gavetas...

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  5. Subscrevo na totalidade o seu texto e acrescento: Por favor nao infantilizem os velhinhos respeitem a sua dignidade.

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  6. Penso muitas vezes nessa “supressão da individualidade” que, para mim, é mais “identidade”!
    Mantenho os meus pais na sua casa, não é fácil, mas todos os dias agradeço poder fazê-lo, por eles e por mim.

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