A professora
Estreei-me recentemente na obra de uma autora alemã já firmada, Judith Schalansky, com o extraordinário O Pescoço da Girafa (traduzido por Isabel Castro Silva, agraciada com o prémio de Tradução). E digo «extraordinário» porque é mesmo um romance fora do normal. Acho que o único outro livro que ressoou em mim a partir deste foi A Solidão dos Números Primos, de Paolo Giordano, pela introdução da perspectiva de física e da matemática nas relações entre as personagens. Desta feita é a Biologia que tudo rege (basta ler as cabeças das páginas ímpares, todas elas revelando um conceito científico relacionado com a evolução das espécies). A protagonista (de resto, bem vistas as coisas, ela é quase a única personagem no livro digna desse nome) é professora de Biologia num liceu da Alemanha de Leste pouco tempo depois da queda do Muro de Berlim; e vive de tal forma obcecada em transmitir os seus conhecimentos que, chegados ao fim do livro, veremos como a profissão sempre contou para ela mais do que tudo, incluindo o casamento e a maternidade (a filha, Claudia, vive nos Estados Unidos). Mas é também um livro sobre a iminência do fim de um tempo, a consciência do erro, a implacabilidade do carácter, os vícios das ditaduras e a inadaptação ao novo, além da descoberta de uma certa pulsão desconhecida. Muitíssimo original e tremendamente informado (esta senhora sabe mesmo de ciência!), deixou-me agora curiosa para ler um outro romance da autora que saiu em Portugal antes deste e foi incrivelmente elogiado (Inventário de Algumas Perdas). Se gostam de coisas fora da caixa, este romance é mesmo a escolha certa.
Fiquei muito, mas muito, curioso, no mínimo.
ResponderEliminarDe Paolo Giordano encontro A SOLIDÃO DOS NÚMEROS PRIMOS. Agradeço estas três sugestões que me parecem irresistíveis.
ResponderEliminarE é «A Solidão...», foi engano meu e vou já corrigir.
ResponderEliminarFiquei muito interessado. E se é extraordinário está no local certo.
ResponderEliminarFiquei interessado nesse "Pescoço da girafa", título que após a Extraordinária explicação introdutiva afinal faz todo o sentido, dado que o pescoço da girafa é fruto da selecção e adaptação!
ResponderEliminarQuando li por aí o título lembrei-me assim de repente da aranha no lava-loiças, sei lá... títulos genialíssimos e para perturbar os leitores! Dão a sensação de que o autor trabalha mais o título do que o conteúdo. Fujo destes livros como da peste!
Saudações cá da Cidade Morena!
Ainda haverá tempo para pensar,
ResponderEliminartempo para olhar,
tempo para ver,
tempo para ouvir, tempo para cheirar
tempo para ler?
-são os podecasts,
-são os i'pads,
-são as netflixes
-são os spotyfives
-são os facebooks
-são os Instagrams
e eu, muito ingenuamente, cá da minha ignorância, pergunto:
...e tempo para viver?
Li o post de ontem e comentei-o no post de hoje - é que é tanta a solicitação...
ResponderEliminarAHAHAHAHAH!
ResponderEliminarDepende muito da definição do que é viver. Se calhar existem diferentes formas de viver. Ser apenas espetador é também uma forma de vida.
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