Lançamentos

Quando comecei a trabalhar na edição, em finais dos anos oitenta, não organizávamos muitos lançamentos, até porque publicávamos sobretudo autores estrangeiros e não era ainda costume convidá-los para virem apresentar os seus livros em Portugal. Mas, sempre que acontecia, os jornalistas e críticos apareciam em massa, além dos amigos e de muitos leitores curiosos. Lembro-me de um lançamento de João de Melo no andar de baixo da Livraria Barata (talvez o de Gente Feliz com Lágrimas) e do de um livro de poesia de Nuno Júdice no jardim do Museu de Arte Antiga (já não sei que livro era, só sei que era da Quetzal de Maria da Piedade Ferreira) que estavam a rebentar pelas costuras, e foram muitos assim nessa década e na seguinte. Quando comecei a trabalhar com autores portugueses, as sessões de apresentação multiplicaram-se; além do lançamento na cidade natal dos autores, havia pedidos de todo o lado para que fossem falar dos seus livros. Mas, de repente, faz-se hoje um lançamento de um romance escrito por um autor que até tem bastantes leitores e está tudo meio às moscas no dia da apresentação, faça chuva ou faça sol: vai a família, vão os amigos mais próximos, e, se estiver lá um jornalista, é porque esteve a entrevistar o escritor antes do evento e ficou para assistir. Que estranho... Foi a pandemia que nos viciou no recolhimento, ou é o excessivo recurso às plataformas digitais para tudo e mais alguma coisa que nos viciou na solidão?

Comentários

  1. Talvez seja um pouco de todas essas coisas, Rosário...

    Mas há algo crescente que também afasta as pessoas do convívio com os outros, que é a falta de respeito pelo próximo.

    Nunca se partiu tão facilmente para o insulto como hoje (muitas vezes sem qualquer razão, apenas por um mal entendido), é por isso que as pessoas se manifestam cada vez menos e fingem não ver o que se passa à sua volta, para que não sobre para eles...

    A sociedade (que somos todos nós...) está mais amorfa, mais medrosa, mais ausente...

    Penso que a culpa é mais dos políticos que da pandemia.

    ResponderEliminar
  2. Haverá excesso de lançamentos? Ou falta de interesse nos livros lançados?
    Também é de ponderar.
    Porque nos demais eventos, parece não haver déficit de assistência, estarei enganado?

    Saudações cá do Bairro Ribatejano.

    ResponderEliminar
  3. Haverá, certamente, vários motivos, mas é importante referir o número crescente de escritoras e escritores, ou de candidatos a escritor, como se existisse uma febre, uma loucura e as pessoas acordassem e sentissem um chamamento qualquer, uma vontade incontrolável e visceral de escrever. À conta desta "febre", ou será um vírus? proliferam novos modelos de negócio na área editorial, chamam-lhe "vanitys". Não sei se é um problema de vício em solidão ou se as pessoas, recebendo 3 ou 4 convites para lançamentos dos livros dos primos, afilhados, irmãos, cunhados, se veem obrigados a escolher, porque indo a todos é uma despesa medonha.

    ResponderEliminar
  4. Julgo que impere também a preguiça da deslocação E o banal que se tornou tanta apresentação. E mais não se ligar meia aos escritores (para a maioria). Ou mesmo que se admire a escrita e se comprem os livros, a conversa com autores não interessar, seja de qualidade ou não. Os outros, sobretudo os que estão fora do mundo próximo e necessário do eu, vivem mergulhados na uniformidade. São paisagem branca. Não se cultivam.

    ResponderEliminar
  5. Bom dia Extraordinári@s:

    Pela parte que me toca, e contando já com duas décadas de profissão, posso dizer que tive somente dois êxitos retumbantes no que toca a Encontros com Escritores. Tipo: "ter que ir buscar cadeiras às outras salas tanto era a afluência". Foram então os encontros com a Escritora Lídia Jorge e com o Jornalista e também escritor, (evidentemente) Joaquim Furtado. E muitos, muitos, muitos foram os escritores que eu já aqui tive. E Muito, muito, muito bons! Não sei explicar qual a causa do insucesso. Será falta de publicidade? Pois acho que não. Se vieram nos outros dois casos... Penso haver é um desinteresse total pelo gosto de "ouvir falar". Ali, mesmo à nossa frente. Não sei explicar o fenómeno, mas se eu gosto muito de um livro, na certa vou também gostar muito de conhecer o seu autor. Nós, profissionais das Bibliotecas (no meu caso Bibliotecas Públicas), que semanas antes, colocamos os livros desse mesmo autor em destaque, mandamos convites em "barda", publicitamos por todo o lado, nas chamadas redes sociais.... E os livros são requisitados. E depois? Pois, quando há meia sala, ficamos "absolutamente plenos de felicidade".
    Boas Leituras para Todos!
    E já agora um Bom Natal. E um Excelente 2023. Que nos traga a PAZ!
    Celeste Silveira

    ResponderEliminar
  6. Essa diminuição de público nos lançamentos tornou-se evidente uns anos valentes antes da pandemia e prende-se, na minha opinião, precisamente com o facto de haver um excesso de lançamentos num país em que há um excesso de eventos culturais (sem grande critério) e que usam dos mesmos meios de promoção e divulgação.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório