O que ando a ler

Estas duas últimas semanas foram pesadinhas, pois, a seguir ao calor, ao barulho e ao movimento da Feira do Livro de Lisboa (que este ano incluiu um enfarte em directo, mas o autor que o sofreu já está fora de perigo, graças a Deus), veio o planeamento dos livros de 2023 e os orçamentos, com contas para cada livro previsto, o que cansa qualquer cabeça nascida para as letras. Talvez por isso não fui capaz de entusiasmar-me por aí além com o livro que trago em mãos, do vencedor do Prémio Nobel da Literatura nascido em Zanzibar (mas a residir há muito em Inglaterra), Abdulrazak Gurnah. Trata-se de Paraíso e é, de certa forma, também um romance de formação, na medida em que relata a vida de um adolescente na companhia de um comerciante a quem foi entregue pelo pai em pagamento de uma dívida. Maltratado pelos capatazes, protegido pelo comerciante, muito belo e cobiçado por homens e mulheres, está sempre no fio da navalha e prestes a ser vítima de abuso. Primeiro a trabalhar numa loja e a mimar um jardim, depois numa grande viagem comercial pelo interior de África, o jovem Yusuf conhecerá tribos hostis, dissensões religiosas, atitudes violentas e primárias, costumes estranhos e mosquitos capazes de matar; e lembrar-se-á cada vez menos do rosto da mãe, que chorou ao vê-lo partir de casa aos doze anos. Escrito com delicadeza, mas talvez um nadinha arrastado, este romance foi finalista do Booker Prize em 1994 e tornou conhecido o seu autor no Reino Unido e não só.

Comentários

  1. Tentei ler aqui ha pouco tempo "Junto ao mar"do mesmo autor e nao consegui andar muito.A escrita e muito "chata".

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  2. "CIDADES DO SOL" - PAULO MOURA. Uma viagem "arrepiante" por algumas cidades da Ásia (Saigão, Manila, Seul, Xangai, Pequim...); quando saliento viagem arrepiante refiro -me à tremenda exploração de que são vítimas os trabalhadores nestas cidades, exploração medieval. Pessoas que trabalham doze horas por dia, dormem, em cubículos, nos locais de trabalho com salários de cerca de 400 euros. Uma exploração que até faz doer o coração. Situações que, pensava eu, já não aconteciam.
    Paulo Moura faz uma viagem de reflexão que é preciso conhecer já que afinal vivemos num mundo cão. A exploração do homem pelo homem está aqui muito bem retratada.

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  3. Demorei a concluir "A Consciência de Zeno", de Italo Svevo, romance longo mas excelente. Intercalei "O Doente Molière", de Rubem Fonseca na sequência do diálogo que se estabeleceu no blogue a propósito daquele dramaturgo e comediante. Aqui, tive uma desilusão: o autor só utiliza figuras reais, apenas cria um Marquês para, com o texto que inventou, ligar a trama que sabemos desde o início terminar na morte (por envenenamento?) de Molière. Ora este texto deslustra o que seria a escrita de um marquês culto, frequentador de teatro e dos salões de Paris, libidinoso, que me tinha criado muita expetativa.

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  4. António Luiz Pacheco3 de outubro de 2022 às 09:49

    Hum... olha, olha, porque será que me palpita????
    Eheheh, costumamos estar nos antípodas quanto às preferências de leitura, em calhando deviam contratar-me para dar oportunidade a outros escritores e géneros... ahahah!
    Estou a brincar, é claro. Mas a sua descrição atrai-me, enfim o arrastado, veremos.
    Cumprimentos cá da Cidade Morena.

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  5. António Luiz Pacheco3 de outubro de 2022 às 09:51

    Olha, olha... e julgavas tu que já não havia exploração?
    Acorda, é cada vez pior... e sempre a crescer.
    Abraço libertário, cá da Cidade Morena, onde a exploração é forte!

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  6. António Luiz Pacheco3 de outubro de 2022 às 09:53

    Estou a falar de "Paraíso", perdoem se fui pouco explícito!

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  7. António Luiz Pacheco3 de outubro de 2022 às 10:05

    Este mês foi um fartote!!!!!

    Sózinho à volta do Mundo – Joshua Slocum
    História da primeira viagem em solitário, à vela, em volta do Mundo. Um clássico que há muito ambicionava ler. Consegui comprar!

    No regaço de Diana – José António Neves
    Memórias do meu grande amigo, confrade caçador que escreve, e, atirador.
    Numa prosa Aquiliniana, pelos socalcos do Douro, Alto Minho e Planalto Transmontano, depois pelo Alentejo, décadas de lembranças e gentes que o marcaram.

    Saudade -caçadas, armas finas, cães de caça e gente digna – Óscar Cardoso
    Memórias de um soldado de Portugal, que foi caçador entre outras lembranças políticamente pouco correctas, polémicas mas que são um testemunho.

    O fenómeno Marcelino da Mata, o herói, o vilão e a história – Nuno Gonçalo Póças
    Muito bom! Devia ser de leitura obrigatória na análise ao portuguesismo dos que insistiram em sê-lo, que incomoda os que não entendem o período e a história colonial. Nuno Poças não analisa, apenas apresenta factos e entrevistas.

    A mais breve história da Rússia, dos eslavos a Putin – José Milhazes
    Muito bom! Pouco ou nada sabemos da história da Rússia, Milhazes está bem capacitado e situado para no-la contar, sem comentários nem análise política, apenas os factos.
    Aconselho vivamente.

    Desconfinar a agriculturas - Crónicas agrícolas, do prado ao prato - Carlos Neves
    Outra leitura muito interessante, numa altura em que os agricultores são apontados como os maus da fita e culpados de tudo... inclusive de alimentarem aqueles que os criticam!

    Foi o que li este mês, aproveitando a ida a Portugal por 15 dias!

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  8. António Luiz Pacheco3 de outubro de 2022 às 10:21

    Agora: O QUE ANDO A LER!

    De Carlos Vale Ferraz, "O gémeo de Ompanda".
    Perguntava-me quando comprei o livro, o seu autor de nome Carlos de Matos Gomes, se eu conhecia a região... nem por isso, conheço Xangongo e Ondjiva, de passagem para Santa Clara e a Namíbia. Mas estudei bastante sobre os ambó (cuanhamas, cuamatos e outros), povos que me interessam e usei no meu "Largueza". As conclusões não foram diferentes das do digníssimo Coronel que os conheceu bem.
    Estou a gostar muitíssimo!
    Faz-se uma ligação estreita e profunda, muito bem conseguida entre as tradições e costumes dos africanos, e a modernidade actual, como das tentativas de "civilizar", ou melhor dizendo de europeizar as civilizações existentes mas desprezadas por selvagismo.
    Neste romance, percebe-se o entendimento profundo e o respeito que nos devem merecer outras culturas, o que não significa que as pratiquemos mas sobretudo que as respeitemos, pois tiveram ou têm, a sua razão de ser.
    Para lá disso, da parte humana, temos um romance forte de sentimentos, de relacionamento entre pessoas aparentemente tão diferentes mas afinal que se aproximam pelo facto de serem extremos. Uma história muito bem urdida e contada, com detalhes de muito cuidado na criação, bastante rica em personagens que nos atraem o interesse.
    Depois direi no final, mas estou a gostar muitíssimo.
    Fazem falta romances que nos desvendem segredos do nosso famoso passado colonial, de um modo humano, vivido, sem culpas nem desculpas: foi o que foi! Não temos de nos envergonhar, apenas de aprender e seguir em frente, caminhando ao lado uns dos outros, para chegar a algum lado, juntos.

    Aconselho vivamente, sei que alguns dos Extraordinários gostarão dele, já a Nossa Extraordinária Anfitriã, duvido que goste ou que o publicasse, eheheh! Não é "Paraíso" , mas anda nessa franja...

    Saudações cá da Cidade Morena!

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  9. Li esse livro, mas não gostei tanto como pensava. Contudo, teve o mérito de fazer presente um mundo para mim desconhecido, onde ainda se vendem filhos para pagamento de dívidas. E o mais.
    Vou lendo As cartas a Milena, de Kafka. São bonitas. Um amor estranho e fundo numa pessoa ainda mais estranha, que escreve duas e três cartas no mesmo dia e se sente no céu e no inferno só por receber resposta ou não a ter no tempo previsto. Fico pensando como seria Milena, que diria ela e como. Mas ainda vou quase no princípio. Entretanto, a terminar o Dinossauro excelentíssimo, porque quero ler Os enamoramentos que comprei para oferecer.

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  10. Em Setembro li o romance de Inês Pedrosa, "Dentro de Ti Ver o Mar".

    Embora ache a sua escrita (e até a história) vulgar, quase telenovelesca, fez-me pensar bastante nas relações entre homens e mulheres, nas diferenças biológicas que existem, que não têm de ser assim tão diferentes como a autora tenta vincar. Espanta-me que se continue a diferenciar tanto a relação existente entre o amor e o sexo, que se pense - e escreva - que os "homens querem é foder" e as "mulheres querem é amar".

    Nem tenho qualquer problema em ser objectivo, em relação à actividade sexual: qualquer pessoa sabe que os homens estão em "desvantagem", pois sem erecção não conseguem ter sexo, já as mulheres não têm esse "obstáculo", e até podem inventar orgasmos, com a maior das facilidades...

    Também continuo a ler poesia (e não vou parar...).

    Gostei bastante de ler "O Nome das Coisas" de Sophia de Mello Breyner Andresen, por ter sido escrito num período especial (entre 1972 e 1975). Também li os "Versos" de Amália Rodrigues. É um livro muito desigual, tem coisas muito bonitas que deram belos fados, cantados pela própria Amália (e não só...). E tem muita coisa que não devia ter sido publicada...

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  11. António Luiz Pacheco3 de outubro de 2022 às 11:53

    Sabe que nunca li nada da Inês Pedrosa? Na verdade, sempre a vi (preconceito meu, assumo) como uma escritora xaroposa, nem por isso côr de rosa, porém insossa, por algumas opiniões e crónicas que li, em contraponto por exemplo às muito bem temperadas crónicas da Nossa Extraordinária Anfitriã, que nos cheiram a vida! (Não pode ser só mandar-lhe bocas foleiras!).
    Quem sabe ainda leio esse que refere!
    Abraço cá da Cidade Morena, onde as coisas não se confundem e tanto homens quanto mulheres querem assumidamente o mesmo, não misturando amor com sexo!
    Abençoados, deve ser do jindungo!

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  12. Mas eu gostei de ler os seus primeiros romances, António.

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  13. António Luiz Pacheco3 de outubro de 2022 às 13:01

    Lá está a vantagem destas nossas conversas, aqui!
    Preconceito = estupidez...
    Vou ter de ler a autora, nem que seja para poder dizer que não gosto.
    Grande abraço!

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  14. KAFKA-um escritor ciclópico!

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  15. António Luiz Pacheco3 de outubro de 2022 às 15:06

    Só tinha um olho????

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  16. Considera os homens em "desvantagem", mas não depender de uma erecção também pode ser uma desvantagem, na medida em que os homens podem ser levados a pensar que uma mulher está sempre pronta para ter sexo. Pois, se nem precisa de erecção. Caso não saiba, a mulher precisa de ter excitação sexual (o equivalente à erecção dos homens), a fim de que a relação sexual não doa (e estou a falar apenas na dor física). Além disso, ter continuamente sexo, "inventando orgasmos com a maior das facilidades" (a fim de não melindrar o homem, é essa única razão) normalmente é um gigantesco frete. Na verdade, poucas coisas há que são mais deprimentes. Também gostava de ter sexo a fingir? Só lhe digo: a mulher suspira de alívio, quando a coisa finalmente acaba. E engole a frustração em seco.

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  17. Podia responder-lhe de muitas maneiras.

    Pelo que depreendo das suas palavras, por várias razões, as mulheres têm menos apetência sexual que os homens. Além de terem de "fingir" mais, também têm mais dores de cabeça.

    Era bom que em vez de se dizer que as mulheres querem é "amar" e que os homens querem é "foder", dizer-se simplesmente que os homens gostam mais de sexo (com ou sem amor) que as mulheres.

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  18. Não, as mulheres não têm menos apetência sexual do que os homens. E não estão em vantagem, foi isso que quis dizer. O fingimento é resultado da mentalidade patriarcal que estabelece que a mulher deve estar sempre disponível, mesmo que não lhe apeteça.

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