Viagens literárias

Na sexta-feira falei aqui de intimidades escusadas entre público e autor. Hoje falo de viajar com um autor sem de modo algum tocar a sua (e a nossa) intimidade. Falei aqui várias vezes do facto de o romance Perguntem a Sarah Gross, de João Pinto Coelho, ter sido o ponto de partida para uma viagem organizada pelo escritor aos cenários do livro: a cidade de Oswiécin, onde vivem os Gross do livro, e a que os alemães mais tarde chamarão Auschwitz; o bairro e o gueto judeus em Cracóvia; o museu Schindler (desse alemão que fabricava panelas e salvou mais de mil judeus da morte certa); e, por último, os campos de extermínio de Auschwitz-Birkenau, cujas imagens temos visto repetidamente em filmes e documentários, mas que ao vivo têm outro peso. Foi muito impressionante, claro, pois só quem não tenha um pingo de sensibilidade pode ficar indiferente a imagens como a das próteses, dos cabelos ou dos brinquedos arrancados aos judeus mandados directamente para a câmara de gás. Mas todos ganhámos com a visita, estou certa, e foi uma excelente ideia que, afinal, poderá ser repetida com base em outros livros. Eu, por exemplo, gostaria de ir à Indochina de O Amante, de Marguerite Duras (hoje Vietname); mas, se cada um de nós pensar um pouco, descobre de certeza um destino diferente a partir de um romance que leu. Querem dar ideias?

Comentários

  1. Ora aqui está uma coisa diferente e complementar, as viagens fora e dentro dos livros, aos seus espaços físicos.

    Penso que estas "viagens" nem precisam de serem feitas pelo autor, como aconteceu com o João. Um bom guia até pode proporcionar uma viagem mais interessante, porque está mais desligado do livro, o que lhe permite ter mais liberdade de acção.

    Acho óptimo a existência das Casas-Museu de escritores (e de pintores, escultores, etc). Felizmente temos muitas por esse paísvfora.

    ResponderEliminar
  2. Tenho sido um viajante tanto quanto sou leitor. Aprecio e valorizo a viagem no livro como física, talvez até mais a primeira por ser mais acessível.
    Sou leitor habitual de literatura de viagens, a que tenho uma parte da minha biblioteca reservada.
    Gosto muitíssimo de viajar pelos locais ou pelas rotas dos livros, que não sendo de viagens, também nos transportam aos lugares onde se passa a acção.
    Creio que é um complemento Extraordinário da leitura!
    A este propósito vou referir um dos melhores livros que já li, em que se viaja pelos lugares míticos de diversos autores:
    De Javier Reverte, "El sueño de Africa - en busca de los mitos blancos del continente negro."
    Um tema interessantíssimo este que aqui nos é trazido e que teria certamente sucesso se as agências de viagens fossem competentes para o perceber e organizar!
    Quem sabe, se faça essa luz?

    Saudações de boas vindas a este Extraordinário espaço, cá desde o Bairro Ribatejano.

    ResponderEliminar
  3. Casas de escritores já conheço três: Casa de Camilo em São Miguel de Seide, Fundação Aquilino Ribeiro em Soutosa-Sernancelhe, Casa-Museu Júlio Dinis em Ovar; faltam-me a de Torga em São Martinho de Anta e de Eça em Tormes-Santa Cruz do Douro. Do livro Viagens de Stefan Zweig escolheria Chartres, Florença e um anseio pela Índia..

    ResponderEliminar
  4. A China de O Véu Pintado. A Argélia, de Um Chá no Deserto e a fortaleza Bastiani, do Deserto dos Tártaros.

    ResponderEliminar
  5. E o Nepal, do Leopardo-das-Neves!

    ResponderEliminar
  6. Aliás, O Céu que nos Protege, de Paul Bowles. Um Chá no Deserto é o nome do filme.

    ResponderEliminar
  7. O Perú de Vargas Llosa. O que eu já viajei pelo Perú naquelas páginas!

    Rui Miguel Almeida

    ResponderEliminar
  8. Boas escolhas: O Véu Pintado só conheço em filme que vi sózinho numa sessão da tarde da UCI do Corte Inglês; Li o Deserto dos Tártaros recentemente do Dino Buzatti e vi o filme com o mesmo título recentemente na Cinemateca.

    ResponderEliminar
  9. Gostei particularmente de Pantaleão e as Visitadoras, ainda não vi o filme nas está na NET.

    ResponderEliminar
  10. Que sorte! Ainda não vi o filme O Deserto dos Tártaros.

    ResponderEliminar
  11. Recomenda alguns livros em particular? Ainda não me iniciei no autor.

    ResponderEliminar
  12. Eu vi-o na Cinemateca logo a seguir ao ler o livro; é de 1976 de Valerio Zurlini, com Vittorio Gassman, Jean Louis Trintignan, Max von Sydow, etc. Penso que é possível "sacá-lo" da NET.

    ResponderEliminar
  13. Isso, não! Obrigado

    ResponderEliminar
  14. Recomendo "Conversa na Catedral", " A Casa Verde", "A guerra do fim do mundo", "A festa do Chibo" e "Travessuras da menina má". Há muitos outros, igualmente bons e até diferentes, uns mais cómicos, outros até eróticos. O que não recomendo é que comece pelos últimos. Desculpe a demora na resposta, espero que ainda a veja.

    Rui Miguel Almeida

    ResponderEliminar
  15. Soube da existência do filme neste blog, encontrei-o julgo que no youtube, vi e gostei.

    Rui Miguel Almeida

    ResponderEliminar
  16. Luís, tivemos a companhia permanente de uma guia polaca - excelente, por sinal. Ela leu o livro, sabia ao que íamos, e foi quem que nos conduziu pelos seus lugares. Limitei-me a um punhado de intervenções, quase sempre sobre coisas mais específicas. Todos conheciam bem o romance, a minha parte já estava feita.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório