No fundo do precipício

Não é a primeira vez que publico esta autora; na verdade, até já falei dela aqui no blogue a propósito do pequeno romance A Cadela. Mas fiquei muito contente que a obra seguinte de Pilar Quintana fosse a vencedora do Prémio Alfaguara em Espanha e que essa circunstância a torne em Outubro convidada do FOLIO, em Óbidos. Os Abismos, assim se chama o novo romance, é um livro realmente fascinante sobre Claudia, de nove anos e filha única, cuja vida gira à volta da mãe homónima, já que o pai – com idade para ser seu avô – passa os dias no supermercado que gere com a irmã, que é casada com um tipo muito mais novo. Quando, porém, uma centelha de aventura parece disparar entre este rapaz e a Claudia-mãe, a crise familiar instala-se abruptamente e mergulha a jovem mulher numa depressão profunda, durante a qual se mete na cama a ler revistas, comentando com a filha como as mortes de Grace Kelly e Natalie Wood não podem ter sido senão suicídios. E, quanto mais a pequena Claudia precisa de esperança, mais a mãe lhe cria temores que a empurram para o abismo, donde nem as bonecas regressam. Tomando como cenário um mundo em que as mulheres não conseguem escapar a casamentos impostos e prisões domésticas, esta é a história inquietante de como uma criança assume as revelações da mãe e os silêncios do pai para construir o seu próprio mundo, sem saber que, apesar de continuarem todos juntos, a família já ruiu há uma eternidade.


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Comentários

  1. A trama não me parece muito apelativa; agradecendo a sua sugestão de alguns dias vou começar a ler Narciso e Goldmundo de Herman Hesse

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  2. Cláudia Da Silva Tomazi19 de setembro de 2022 às 06:41

    Bom saber que há espanholas com tutano e (melhor ainda) com título premiado.

    Ler um romance de profundeza líquida remete a proeza de, por semelhança ou ingenuidade e prefiro a segunda; onde “varrer o pó dos sapatos” faz parte o cotidiano. Adoro temas corajosos e a questão familiar senão heróica, o digo lhe torna uma abertura para a experiência de conceitos. Desde sempre é naturalmente delicada e desafiante á harmonia em família. Certamente, elementos a combustão de sentimentos e os creio bem estruturados, do contrário não seriam (como descreve o post) “fascinante”.

    Excelente! Parabéns Pilar Quintana

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  3. Essa construção bicuda da família e a imagem e efeitos que deixa nas crianças parece-se com o que acabei de ler "O meu nome é Eileen" de Otessa Moshfegh

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