Humanidade

Uma vez, fui convidada pelo Colégio Moderno, em Lisboa, para participar numa conversa na Semana da Poesia, e fiquei muito agradavelmente surpreendida pelo nível das perguntas e intervenções dos alunos, um dos quais, antes ainda de me dirigir a palavra, fez questão de dizer com uma pontinha de orgulho que era de Humanidades. A palavra, embora não pensemos logo nisso, vem de «humano», e isso, meus amigos, parece-me fazer toda a diferença, embora, na prática, nem sempre os que estudam as ditas Humanidades sejam mais humanos do que os seus colegas de Ciências ou até os seus docentes. Em todo o caso, mesmo correndo o risco de parecer lamechas, encontrei uma carta escrita por um sobrevivente de Auschwitz aos professores de todas as disciplinas que apela a esta humanidade que achei muito oportuna, pois sinto que também é isto que está a faltar no ensino em muitos países civilizados, privilegiando-se a técnica e a especialidade. Diz o autor da carta que viu câmaras de gás construídas por engenheiros qualificados; crianças envenenadas por médicos qualificados; bebés mortos por enfermeiras especializadas; mulheres e crianças mortas e queimadas por tipos que tinham sido excelentes alunos. E acrescenta que por isso tem sérias suspeitas sobre a educação. Pede, assim, aos professores que ensinem os seus alunos a serem humanos, e não monstros treinados ou psicopatas experientes. E conclui: a leitura, a escrita e o conhecimento de aritmética só serão importantes se tornarem as crianças mais humanas. No mesmo dia em que encontro esta carta, dizem-me, porém, que na escola da minha rua, os meninos este ano não vão ter manuais senão digitais nem escrever nada senão com as teclas num ecrã. Robot versus humano?

Comentários

  1. A humanidade está dentro de cada um - Já lá está- não se ensina nem se aprende; basta ver pela escola da sua rua que gente é essa que transforma crianças em robôs que vão deixar de saber de escrever...

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  2. No meu tempo dizia-se Letras ou Ciências. Escolhi Letras, embora gostasse muito de Ciências, Geografia e Física.
    Estamos a precisar muito de humanidade, estamos sempre a regredir nesse aspecto e não me parece que isso alguma vez vá mudar...
    O avanço tecnológico é muito importante, sem dúvida, mas não pode ser o único foco da Humanidade.
    A carta é admirável mas não vai mudar nada, a História seguirá o seu rumo, como sempre, com o Sapiens a não aprender nada com os erros do passado e a caminhar "cientificamente" para o abismo: basta olhar à nossa volta!
    Bom dia!

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  3. Penso que os exemplos que colhemos dos que nos estão mais próximos (a família), são mais importantes que a escola, para nos tornarmos mais humanos.

    Onde a escola é mais importante, é a esbater as diferenças sociais, a olhar da mesma maneira para um menino pobre e para um menino rico. Ainda há tanto preconceito na cabeça dos "educadores"...

    Mas o que eu acho mais estranho, é que neste tempo em que se quebraram vários "tabus" estúpidos, como aquela treta de "um homem não chora", não se note no dia-a-dia, que não se sinta mais humanidade (e sensibilidade...) à nossa volta...

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  4. António Luiz Pacheco7 de setembro de 2022 às 04:18

    SE os próprios professores saem das escolas, desumanizados, como poderão humanizar as crianças? Como que exemplo ou palavras, motivações, atitudes?
    A formatação é transversal, funda. Não sei muito bem se faz parte de um plano elaborado e continuado, ou se é apenas fruto do tempo em que se vive. Porém uma coisa é certa, a desumanização concorre activamente para a imbecilidade e esta é uma vantagem para a classe governante, também eles imbecilizados, só que de má-fé.
    Tendo gente com escolaridade, mas desumanizada, consegue-se ter robôs que executem tudo o que se lhes mande. Alguma dúvida?
    Sem dúvida que a electrónica concorre activamente para isso, como o virtual. Vejam-se os massacres em escolas nos EUA, que mais tarde ou mais cedo chegarão à Europa e ao nosso país, como forma de cérebros perturbados, viciados no virtual e nos jogos electrónicos, pretenderem libertar-se das suas frustrações. Ainda ninguém notou que, apesar da propaganda contrária e mentirosa, aumentou a insegurança e os casos de violência no nosso país, perpetrados por jovens, sobretudo? Em circunstâncias que deviam ser de diversão? Fora aqueles que não se podem identificar e os protagonizam cada vez mais, pela impunidade que os protege enquanto minoria que se diz oprimida pelo que se acha justificada a usar a violência. Isto não vos diz nada?
    Uns porque são tidos como a geração mais bem-preparada (no ginásio de artes marciais, onde só aprendem a vertente da agressão?), de quem seria de esperar uma elevação que afinal as aulas de cidadania e o respeito pelo género parece que não conferem! Outros, porque pelo contrário nem à escola vão, salvo para comer e se proverem dos bens que necessitam, como casacos dos colegas, mochilas e telemóveis, sendo em casa que os educam nesse sentido. Tudo sendo permitido e achado como normal, as autoridades e poder político recusando que haja problemas. Até quando? Até se chegar ao extremo oposto quando as pessoas se cansarem da insegurança e não poderem circular livremente, ir divertir-se, apenas deslocar-se ou irem ao café ou centro de saúde, ao supermercado?
    Seria de pensar sériamente se é isto que se pretende para o futuro, nosso dos que envelhecemos e envelheceremos em nos tornando frágeis, ou para as próximas gerações? De que forma se pode humanizar, ou desumanizar pela escola ou falta dela, em nome de uma falsa modernidade e desenvolvimento? Pois porque também entregar completamente às famílias que se encontram em processo alargado e acelerado de desestruturação, que abandonam os filhos à escola, ao grupo, por comodismo e falta de compromisso, num elevado grau de permissividade e desresponsabilização, está visto que não funciona e só produz bestas, desumanas e descaracterizadas!

    Saudações cá desde o Bairro Ribatejano, tristes e preocupadas, mais com o estado e o caminho deste país do que com o aquecimento global, a novela do CR7 ou os biquinis da Cristina Ferreira, aliás muito bem usados pelos media que assim nos desviam do que seria mais bem preocupante como a postura censória do Presidente da AR ou as bestialidades proferidas por ministros e ministras que deveriam ser motivo de demissão imediata por parte do tal mata-borrão que nos mente enquanto finge governar.

    Perdoem o desabafo, mas cada vez menos me apetece cá voltar... e olhem que onde me encontro as coisas não vão melhor!

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  5. Teresa Palmira Hoffbauer7 de setembro de 2022 às 08:32

    Saudações das margens do rio Reno, tristes e preocupadas, mais com o estado e o caminho político da Alemanha do que com o aquecimento global. Sobre a novela do CR7 ou os biquinis da Cristina Ferreira, nada sei.

    Não sabia que eu tenha estudado HUMANIDADES, eu que sou tão desumana.
    No meu tempo o curso tinha o nome prosaico de Germânicas e Filosofia.

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  6. Boa noite com alegria (ou sucedâneo)

    Saúdo a autora e os "comentaristas", depois do interregno estival.

    Não aconselho a leitura do resto do comentário.

    Boas leituras
    cp

    **** A minha primeira (e última) reunião dos A.A. ****

    (A.A. = pais de Adolescentes Anónimos - não confundir com Alcoólicos Anónimos)

    P1 – Boa noite. Hoje juntou-se a nós mais um camarada de infortúnio. Dentro do espírito de missão que nos caracteriza, resta-nos acolhe-lo no nosso seio e tranquiliza-lo relativamente ao futuro (sombrio) que se aproxima. Quer apresentar-se, C?

    C – Boa noite. O meu nome é C e sou pai de um adolescente.

    P2 – E quando é que se apercebeu da alhada onde estava metido?

    C – Bem, até aos onze/doze a coisa leva-se bem. Tudo piorou com o primeiro smartphone e o acesso á internet. E, claro, com o desinteresse generalizado desta juventude de hoje por questões de política, economia ou geoestratégia, ou mesmo ambientais. De tudo o que se passa à volta deles. Esta maltinha é do pior. Estamos a criar um bando narciso de CONSUMIDORES egoístas em vez de um conjunto de CIDADÃOS cultos e politicamente alerta.

    P1 – Mas não acha que as suas expectativas em relação a um jovem dessa idade serão manifestamente exageradas?

    C – Talvez. Ou será que as expectativas da maioria dos pais de hoje serão manifestamente pouco exigentes? Mas repare: somos um animal de hábitos. “De pequenino é que se torce o pepino”. Vamos esperar até aos dezoito anos ou mais para “abrir” os olhos a esta maltinha? Temos de preparar o futuro hoje!

    P3 – Apoiado! (Se não os educarmos agora quem é que vai pagar as nossa reformas?)

    C – Claro que sem saberem ler (ou com hábitos de leitura escassos) é quase impossível.

    P1 – Caro C. Não tenha ilusões. Caminhamos alegremente para deixar de utilizar a língua para comunicar. Os antigos egípcios utilizavam hieróglifos e viviam, não viviam? Os jovens de hoje têm á sua disposição um conjunto alargado de smiles que podem utilizar para se expressar.

    P2 - 😊

    C – Fod#$%#$%&

    P3 – E nós vamos receber as reformas em bitcoins…

    P1 – Temos de ser flexíveis. No nosso tempo tínhamos dois canais de televisão. Eles hoje têm centenas ou milhares de conteúdos disponíveis de forma ubíqua, 24 h, 7 dias por semana

    P2 – Tente ver as coisas pelo lado positivo: enquanto ali estão não chateiam ninguém – até comem menos. É só vantagens…

    C – Mas vocês criam filhos ou amibas?

    P3 – Filhos. As amibas não podem fazer descontos para a Segurança Social (e assim pagar as nossas pensões)

    P1 – E depois, historicamente, é sempre uma minoria que acede aos bens culturais. O resto quer pão e circo, ou como se diz em holandês, “putas e vinho verde”.

    P2 – Sim, Netflix, Sport TV e Internet 5G. Para ver as novelas, séries, reality-shows ou futebol. Como vi no outro dia numa T.Shirt: “I DON’T NEED YOU. I HAVE WI-FI!”

    C – Isso não é uma visão redutora da realidade? Distópica mesmo? Seremos assim tão mentecaptos? Tão pouco ambiciosos?

    P1 – Bem, não seria tão severo nessas conclusões, mas a verdade é que este é o mundo em que vivemos…

    P2 – E, se não podes vence-los… junta-te a eles…

    C – Mas e a sustentabilidade destas opções?

    P3 – A verdade é que não podemos viver para sempre – pelo menos no actual estado da ciência – logo a sustentabilidade é uma questão de menor importância

    P1 – Exacto

    P2 – Apoiado

    C – Porra, mas que raio de grupo de apoio são vocês?

    P1 – Apoio? Bem, a verdade é que nos reunimos para beber uns canecos e dizer umas larachas

    P2 – Aceita um whisky? Uma amarguinha?

    P3 – In vino veritas (hic!)

    C - ….
    *******

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  7. António Luiz Pacheco7 de setembro de 2022 às 15:36

    Aplaudo!!!!!

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  8. Bom, nós por aqui também lemos e comentamos este blogue através exclusivamente de ecrãs e teclas. E nem por isso estaremos a ficar robôs, julgo eu.
    Embora, por enquanto, os robôs sejam menos assustadores que certos humanos, na medida em que aqueles não se interessam por instaurar guerras e destruir os seus semelhantes.

    Talvez o que falte aos humanos é mesmo ter um melhor coração.

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  9. Obrigada, Susana Rodrigues, por escapar às armadilhas da crítica fácil e da análise de superfície. A falta de "humanidades" tem-se visto (e muito) na incapacidade de compreender os contextos para compreender as pessoas e de compreender as pessoas para transformar os contextos. Infelizmente, ao contrário do que sugere MRP, a "humanidade" não é coisa que se ensine como um conteúdo programático. A humanidade cultiva-se. É fundamental que haja terreno fértil, boas sementes, mãos pacientes e generosas, um clima favorável e, acima de tudo, tempo.

    (já agora, servem também as "internetes" para avisar que o correcto é "fui convidada (…) para participar numa conversa" e não "de uma conversa".)

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  10. Maria Do Rosário Pedreira8 de setembro de 2022 às 03:59

    Pois é...

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  11. Os que lêem e comentam o blogue aprenderam a escrever com lápis e canetas.

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