Excerto da Quinzena
Com as pupilas esforçadas nuns olhos surpreendidos pela luz, o que se devia dirimir seguidamente era a procura de um novo romance, o que todos os domingos o primoirmão lhe escondia nalgum ponto da casa. Porque depois de sair para a pândega todos os sábados, Rico, lindamente intacto e magnífico por estar selado o seu mistério, comprava-lhe um livro em segunda mão na feira da ladra dominical do bairro, o maior mercado de livros em segunda mão da Europa. Depois parava para beber um café a fim de temperar a bebedeira e acendia com os seus sublinhados frases que eram cãibras e passagens que eram pistas para o primo. Simón tinha de procurar o livro mesmo antes de se pôr diante do seu Cola Cao com grumos e das suas madalenas de La Bella Easo. Muitas vezes levava a cabo as suas pesquisas a partir de um enigma que Rico lhe colocava debaixo da almofada ou de um caminho de setas marcadas com fita isoladora. A pista também podia estar escondida nalguma notícia do jornal que o pai tinha deixado na cozinha do andar. Às vezes, inclusivamente, Rico soprava a pista a algum taxista madrugador e bêbedo, de maneira que Simón tinha de descer ao bar familiar e perguntar aos clientes, de caderninho na mão, com o roupão de lã como gabardina, se sabiam onde poderia estar escondido o seu novo livro. Este jogo, que Rico batizou como os Livros Livres, era a promessa de um jogo que nunca mais iria acabar: o jogo de viver segundo as fantasias de profissionais das vidas possíveis, grumetes, músicos e sobretudo espadachins.
Simón, de Miki Otero, tradução de José Teixeira de Aguilar
Bom dia com alegria
ResponderEliminarDe um dos livros que me acompanhou este Verão:
"Si todos los que quiren ser leídos leyran, habría un auge nunca visto, porque nunca jamás tantos millones de personas habían soñado en publicar un libro. Pero el narcisismo compartido del ´si me lees, te leo´ degeneró en un narcisismo que ni siquiera es recíproco: no me pidas atencíon, dámela. No tengo tiempo, ni dinero, ni ganas de leer lo que publicas; quiero tu tiempo, tu dinero, tus ganas de leer. No me aburras con tus cosas, dedícate a las mías"
Los demasiados libros - Gabriel Zaid
Saúde, Sorte e Boas leituras
cp
Bom dia
ResponderEliminarQue excerto! O tema é tão pertinente e urgente, que daria um assunto perfeito para uma tese de doutoramento. Nem sei se quero ler o livro, este assunto entristece-me - prefiro fingir que não estamos todos muito sós. Bom, ou quase todos.
Um abraço, cp, e muito obrigada por este belíssimo excerto.
«Desta vez não chovia. A chuva é uma aliada quando se quer fazer amor dentro de um carro. Mas Gabriel não queria fazer nada. Fazer amor. Dizia que fazia amor com Rosa porque era um cavalheiro e a palavra foder chocava-o. Para Rosa, a ideia de dar uma foda era apenas triste. Nunca havia sido capaz de fazer isso. Preferia masturbar-se, que sempre era fazer amor com alguém que em certos dias amava. Já nem isso conseguia fazer. Começava a tocar-se, sentia os dedos dele e desatava a chorar. Pensava que devia haver uma expressão intermédia, uma definição para essa coisa tão contemporânea que é muito menos do que fazer amor e um pouco mais que dar uma foda. Há a palavra queca, mas é apenas um sinónimo de cerimónia para foda. Os brasileiros usam um verbo simpático, transar. Tem qualquer coisa de dança, um travo de alegria, um vago perfume a relação. Já com os portugueses não há meios-termos: ou fazer amor ou foder. O que significa que frequentemente não fodem nem fazer.»
ResponderEliminarInês Pedrosa, in "Dentro de Ti Ver o Mar"
Envolvido pela noite, é simplesmente um homem, um homem da floresta que observa a lua, as estrelas, as nuvens que passam, enquanto escuta e identifica cada som que nasce na espessura: o aterrador guincho do mico nas garras do felino, a monótona telegrafia dos grilos, o veemente resfolegar dos javalis, o ciciar da cascavel que amaldiçoa a sua venenosa solidão, os fatigados passos das tartarugas que acorrem à praia para desovar, a quieta respiração dos papagaios emudecidos pela escuridão.
ResponderEliminarAssim adormece, lentamente, agradecido por ser parte da noite selvagem. Parte do mistério que o irmana à minúscula larva e à madeira que crepita enquanto se retesam os músculos centenários de um ombuzeiro.
Contemplo-o a dormir, e sinto-me feliz por compartilhar o sereno mistério que delimita o espaço entre as ternas perguntas da vida e a definitiva resposta da morte.
Luis Sepúlveda - Noite na Selva Aguaruna, in As Rosas de Atacama, tradução de Pedro Tamen
Joseph Conrad foi marinheiro antes de escrever NOSTROMO e George ORWELL conheceu a miséria que nos descreveu em "Na penúria em Paris e em Londres. Júlio Verne conheceu o mundo quase sem sair de casa, assinando revistas e elaborando fichas minuciosas. É o príncipe da violência grotesca, J.G.Ballard, é um simpático cãozinho inglês, que cuida do Jardim e toma chá."
ResponderEliminar"NADA DE MELANCOLIA" - Pedro
Pedro Mexia
ResponderEliminarJ.G.Ballard é um simpático avôzinho
ResponderEliminarSe não nos tocasse nem impressionasse nada do que lemos, deixando ficar uma idéia uma memória, até posterior, não valeria a pena ler! Lemos por isso e para isso!
ResponderEliminarAcho muito interessante esta nossa troca pontual dessas impressões.
Li bastante nestes 15 dias passados em descanso absoluto no Bairro Ribatejano, onde até choveu e a terra outonou imediatamente, o azevém e os trevos só lhes falta fazer barulho a crescer!
Do que li, retive para já duas interessantes intervenções das tais que nos dão que pensar e por isso valem a pena:
- De Nuno Gonçalo Poças, em "O fenómeno Marcelino da Mata - o herói, o vilão e a história".
... o País mediático, a opinião publicada, cada vez mais entrincheirada, tribalizada, acantonada e interessada na defesa da sua perspectiva e na derrota de visões diferentes, entreteve-se a discutir se o morto era, afinal, um herói ou um criminoso, um bravo ou um vilão, mais interessado em discutir a política do presente com base no passado do quem em fazer uma análise fria e desapaixonada da história. A sociedade do espectáculo não saberia abordar o tema de outra forma, já que não tolera cinzentos narrativos e históricos, não suporta ambiguidades, não vive em paz com as contradições do passado, seja ele mais ou menos distante."
De Carlos Neves, "Desconfinar a agricultura - crónicas agrícolas, do prado ao prato".
- "Nós, os poucos que ficámos na terra e continuamos a produzir comida para todos, tivemos de comprar ou alugar máquinas maiores e passar a fazer a silagem, os rolos de erva plastificados e usar outras e novas tecnologias que são criticadas por quem usa novas tecnologias na ponta dos dedos, não sabe o que passamos mas quer comida barata produzida à moda antiga."
Votos de um bom fim de semana, cá do Bairro Ribatejano, que na próxima já nos reencontraremos na Cidade Morena!
O Marcelino da Mata deverá merecer-nos tanto respeito como nos poderia merecer o Amílcar Cabral; só quem não sentiu na pele diz baboseiras sem saber minimamente o que está a dizer...só quem fala de córe.
ResponderEliminarNão tenho uma voz forte. Minha voz tem um daqueles registros entre baixo e intermediário, do tipo que fica rouca com o menor excesso de uso e desaparece no momento que um vírus se materializa. Quando falo com outras pessoas, estou tentando compensar a falta de decibéis, mesmo que estejamos no menor dos aposentos. Eu me sento diretamente em frente da minha plateia e quase sempre começo perguntando se conseguem me ouvir. Prolongo as consoantes, franzo os lábios em torno das vogais e depois me aproximo ainda mais.
ResponderEliminarHá determinadas conversas em que, apesar de todos esses esforços, minha voz falha. Vejo-me gorgolejando sobre as palavras e buscando o ar através de uma garganta cada vez mais apertada. Minha voz sai em explosões de fôlego, e silenciosamente rezo para que meu sofrimento não seja evidente.
Por fim, as palavras emergem tão baixo que vejo todo mundo se inclinar em minha direção enquanto falo. “Imagino”, ouço-me dizer a essas pessoas, “se vocês já pensaram no que querem no final da vida?”
Exame Final de Pauline W.Chen, Ed. Globo
Um alerta do jornal surge ao lado das palavras que escrevo, anunciando que na estrada Dona Castorina, mais conhecida como estrada da Vista Chinesa, que liga o Horto à Vista Chinesa, explica a reportagem, houve um deslizamento de terra. A estrada cedeu, a pista desabou, e a entrada para o Parque Nacional da Tijuca, uma das vistas mais bonitas do Rio de Janeiro, um cartão-postal da cidade, está interditada. Ninguém entra; ninguém sai. Vejo o vídeo: um enorme buraco no asfalto, em frente à Represa dos Macacos, muito perto da cachoeira do Horto. Ao fundo, as árvores arrastadas pela correnteza, a água do rio se misturando à água da chuva, a lama escorrendo floresta abaixo, a própria floresta escorrendo floresta abaixo, arrastando galhos, ipês e jaqueiras, cobras-corais, jibóias, aranhas, calangos, iguanas, saguis, pacas, gambás, arrastando o meu sutiã, o meu celular, o fio de cabelo que nunca foi achado, arrastando a clareira, desfigurando a paisagem. (…) Técnicos pressupõem que as principais causas do desabamento são o trânsito de veículos, o asfalto instalado e o crescimento de raízes e plantas nas frestas da construção, facilitando a entrada da água, que por sua vez encharca o solo, arrastando tudo, as plantas, os animais, os objectos ali deixados, a clareira, arrastando o homem, o rosto do homem, a lembrança do rosto do homem, e de repente penso que de dentro da terra surgirão as violências sofridas naquela terra, as violências sofridas por aquela terra; com a água, a lama e as árvores, deslizarão também as dores, os ossos, os pedaços de carne ali arrancados, arrastando as histórias, a memória, enquanto sirenes de bombeiro invadem meu ouvido, e digo a mim mesma que a salvação virá da terra ou não virá, a floresta invadindo e devorando a cidade, a mata comendo o asfalto, a salvação para o Rio é, sempre foi, sempre será, a sua própria morte.
ResponderEliminarVista Chinesa, de Tatiana Salem Levy
Filipa
Não podia estar mais de acordo contigo!
ResponderEliminarEssa é uma opinião esclarecida, a, de quem consegue ver dois lados de uma questão.
Aconselho-te a leitura deste livro, pois é sério, honesto e sobretudo esclarecedor.
Grande abraço.
Aquela história não aconteceu há muito tempo - menos do que costuma durar uma vida, e uma vida é tão pouco depois de terminada, quando já pode ser contada nalgumas frases e deixa apenas na memória cinzas que se soltam ao menor solavanco e esvoaçam com a mais leve brisa - e, no entanto, hoje seria impossível. Refiro-me sobretudo àquilo que lhes aconteceu, a Eduardo Muriel e à sua mulher, Beatriz Noguera, quando eram jovens, e não tanto aquilo que me aconteceu com eles quando eu era jovem e o seu casamento uma longa e indissolúvel desdita. Esta última, sim, continuaria a ser possível: aquilo que aconteceu comigo, uma vez que agora também acontece, ou talvez seja mesmo aquilo que nunca acaba. E suponho que também poderia dar-se aquilo que sucedeu com Van Vechten e com outros acontecimentos daquela época. Devem ter existido Van Vechtens em todas as épocas, não desaparecerão e continuarão a existir porque, ao que parece, a índole das personagens nunca muda, as da realidade e as da ficção, sua gémea, repetem-se ao longo dos séculos como se as duas esferas carecessem de imaginação ou não tivessem escapatória (afinal, sendo ambas obra dos vivos, talvez haja mais inventividade entre os mortos), por vezes dá a sensação de que desfrutaríamos apenas com um único espectáculo e um só relato, como as crianças de tenra idade. Com as suas infinitas variantes que as disfarçam de antiquadas ou inovadoras mas, na essência, sempre as mesmas.
ResponderEliminarASSIM COMEÇA O MAL - Javier Marías, tradução de Paulo Ramos.
ResponderEliminar(Quando iniciei o livro ainda Javier Marías estava entre nós. No início pareceu-me difícil concluir as 572 páginas, no entanto, a dada altura, avancei na leitura com muito agrado e quero ler a obra desde autor que me parece tão interessaste.)
Dele lemos e discutimos o livro Amanhã na Batalha Pensa em Mim no clube de leitura de que faço parte, título tirado de uma obra de Shakespear. muito interessante. Só tinha lido Vidas Escritas um conjunto de ensaios sobre escritores e escritoras, que ele considerava mulheres fugitivas.
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