Desilusões
Antes de partir para férias, estive a pensar no que devia levar para ler. Não gosto de ir muito carregada e, portanto, apesar de contar sempre com alternativas, costumo levar um romance mais extenso, e foi o caso. Tinha visto várias pessoas a escrever frases elogiosas a respeito de um determinado livro, ou a referir que o estavam a ler, e achei que, enfim, podia ser uma boa escolha. Chamava-se, ainda por cima, A Breve Vida das Flores, um título bonito, e fora traduzido pela Maria de Fátima Carmo, que conheço como tradutora e por quem poria as mãos no fogo. Também levava dois prémios de vantagem escritos na capa. Mas... a seguir a umas cento e tal páginas muito razoáveis e bem construídas, mesmo que sem grande rasgo literário, infelizmente a coisa deu para o torto e tornou-se uma xaropada inexplicável. Pode ser defeito meu, e pode ser também deformação profissional, mas a verdade é que me custou muitíssimo acabá-lo e só conseguia pensar no que devia ter sido cortado e não fazia ali falta nenhuma, pelo contrário, tornando o livro uma espécie de investigação criminal sem detective (ou com detectives a mais), género para o qual não estava mesmo preparada... Cheirem-no, que a vida das flores é breve. O meu gosto não é igual ao vosso. Mas eu da próxima vez vou desconfiar e não ceder tão facilmente às opiniões alheias.
Desilusões literário-livrescas, tenho tido bastantes... quem as não teve? Afinal só quem leia, quem goste de ler é que as tem, creio eu.
ResponderEliminarJá tive a oportunidade de dizer aqui - é de resto onde mais falo de leituras e de livros - que não ligo aos "prémios" que compõem e se anunciam actualmente nas capas dos livros em abundância tal que me fazem desconfiar da sua legitimidade enquanto chancela qualificativa, antes se vulgarizaram e para mim são apenas merchandising como o é a imagem de capa, quando tanto bom livro li ou comprei com uma capa singela, de papel, apenas com o título impresso e sem mais nada. Isso é que é comprar livros e lê-los por gosto!
Também desconfio dos títulos muito elaborados, em que parece se trabalhou mais do que no texto e no conteúdo. Muitas vezes nada tendo a ver com o romance, ou se tem é tão rebuscado que só o autor é que sabe e até pode ter sido sob ressaca que o produziu!
Já que estamos nessa onda, em dia triste como está hoje, de temporal, das minhas maiores desilusões dos últimos tempos, foi o premiadíssimo e elogiadíssimo até pelo Obama (grande referência literária certamente, ele ou o Trump, talvez mesmo o Biden e quem sabe se o Bush...):
- "Montanhas douradas", de C Pam Zhang. Dos romances mais pífios que já li, incompreensível e alucinado, creio que escrito apenas para ser entendido pela autora que o escreveu para si mesma e não para os outros, muito menos as tradutoras que aliás fizeram um péssimo trabalho e terão traduzido "à letra", não pelo sentido.
- "Um dia chegarei a Sagres", de Nelida Piñon, igualmente premiado e publicitado, foi outro que me desiludiu, enfim não tanto quanto o anterior, até porque ao contrário muito bem escrito e entendível, mas constituiu aquilo que classifico a forma como nos vêem os intelectuais brasileiros, sem nos conhecerem, apenas na sua perspectiva pobre, pouco esclarecida de quem nos despreza por preconceito e desinformação, talvez por invejarem a nossa condição natural europeia-forçada quando não conseguem ser Norte-americanos a sério e lhes falta algo. Do nome e dos encómios, esperava coisa melhor.
Finalmente, porque não referir, também me desiludiu profundamente o "Último olhar", de Miguel Sousa Tavares, igualmente elogiadíssimo.
Divida-se este em dois: uma parte muito bem trabalhada, investigada e descrita, que é aquela sobre a guerra civil e os seus personagens - a despeito de algumas incongruências como dizer a princípio que o personagem nunca havia dado um tiro e umas páginas depois o referir como caçador, ou se referir a campos ceifados em Maio... não terá havido um revisor atento? Outra parte, a do "romance" que é do mais fatela que já li. Uma pirosada sem sentido e muito mal produzida. Resultado: desilusão, que a seguir à outra "Madrugada suja" me fez repensar o genial autor de "Rio das Flores" e remetê-lo para o género de quem não deixará morrer o David Crocket, a Sul pela cebola crúa com sal e broa!
Enfim, haja livros para nos desiludirem, que também são precisos, ou, como apreciar obras genialmente escritas e posteriormente traduzidas? Como o que recentemente li (só agora, infelizmente, mas graças a Deus e aos escritores que ainda há tanto por descobrir), de V. S. Naipaul "Um caminho no Mundo", obrigado à Maria João Lourenço.
Votos de muitas desilusões e boas leituras, ao mesmo tempo, cá desde o Bairro Ribatejano.
E aqui vão... mas para ser justo, também fui levado a ler livros sobre os quais tinha fracas expectativas e depois se revelaram ser Extraordinários: "notas sobre um naufrágio" de Davide Enia foi o mais notável, sendo afinal um dos livros de que mais gostei no ano passado pelo que aqui o relembro.
Isto de recomendar livros nem sempre resulta. Por exemplo, dos melhores livros que li até hoje (O PROCESSO do Kafka) já aqui li no blogue a opinião de um leitor que nem a meio do livro conseguiu chegar, é muito subjectivo já que o gosto de cada um pode ser diferente de quem o recomenda.
ResponderEliminarPor exemplo, "Oh, William!" da magnífica Elizabeth Strout, aqui recomendado no blogue, foi um dos bons livros que já li este ano. Mas o que é bom para mim pode não ser para o outro. E depois há os preconceituosos que não gostam do Marco Paulo mas adoram o Christopher Cross...(eu gosto de ouvir ambos)
Anónimo=Seve
ResponderEliminarA quê “quase tudo” que se lhe indica há o risco de: sim ou não, satisfazer. Acredito ser pesada a palavra “desilusão” com a leitura de um livro. O livro por mais dignidade em se lhe oferecer gosto, o valoroso é pessoal. Ah, porém há o posso mencionar com relação a me “desiludir” com o escritor(a). Neste caso, à tempos tive por essas bandas a recomendação de livro de Kristin Hannah, li e foi decepcionante “The Great Alone”. Contudo fui ter a segunda opinião e li “As cores da Vida” igualmente, um romance ou melhor, diz-se terem status de novela. Bom, respeito as vendas e os números de “A Grande Solidão” nos USA, são impressionantes. Portanto, nada vou declarar e tentar apurar o sentimento dos leitores, afinal nada supera a mais democrática literatura.
ResponderEliminarAh, nem sempre torci o nariz para a história, mas o livro “Assim se Pariu o Brasil” de Pedro Almeida Vieira foi um (xodó) quando comprei e da leitura, algo soava uma pontinha a desconfiança em retratos (aí sim) desiludidos pela história. Talvez, algo que tivera por índole fazer graça ou de irreverente, transpôs o superlativo e descreveu uma arrazoada memória.
Para mim, qualquer leitura pode ser magnífica ou virar uma tolice, mesmo que o autor faça sombra ou não. A grande maioria das vezes, estou satisfeita por ler livros e não o sejam falácia ou infindas narrativas. É importante perceber o agradável; naturalmente o intento a cultura. De outro modo forjar conhecimento implica se lhe denunciar mais o sintoma do autor que finalidade a narrativa.
Foi elegante não citar o autor(a) “A Breve Vida das Flores”.
Estou a imaginar a nossa Extraordinária anfitriã a consumir algum do seu tempo de férias para terminar um livro de que já não gostava e que receava vir a detestar. Acontece a pessoas que amam livros. Já passei por alguns casos desses e quando estou em plena penitência pergunto-me: isto é masoquismo, mania de quem quer cumprir o que havia planeado ou simplesmente respeito pelo objeto depositado nas mãos? Vou por esta hipótese e humildemente assino "amalivros".
ResponderEliminarUma amiga minha enviou-me alguns poemas seus. Gostei tanto que fui à net e descobri o poesia reunida que estou a ler agora
ResponderEliminarTem coisas tão bonitas e ao mesmo tempo tão angustiantes que me arrepiam. Como é sentir assim viver assim extravasar tanto sentimento tanta ternura tanto amor? Um dia contarei o resto.
“As pessoas amam livros”?
ResponderEliminarSeria para alguns exagero e não a outros, eu afirmar que há muito a percepção deixou de ser uma capacidade voluntária, inclusive de aprendizado. Talvez, induzir seja mau. E por exemplo, você já deve ter ouvido falar sobre listas. Por aqui temos a revista Veja os 10 mais indicados no Brasil. Apenas sabemos os milhares vendidos são equivalentes a prática da leitura e não onde nasce o amor. Acredito em amor de leitor, mas tem de ser iniciado, é esforço e doção; principalmente frequentar biblioteca(s).
Obrigada.
ResponderEliminarEstou a ler esta xaropada! Tem toda a razão!
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