Conversa entre escritoras

Uma das vozes mais interessantes da literatura francófona, a autora Leïla Slimani, conta com  todos ou quase todos os seus livros publicados em Portugal; um deles, chamado O País dos Outros, já foi aqui referido no blogue e prende-se com a história de uma rapariga francesa que se casa com um marroquino e deixa a pátria para viver no país do marido, passando a ter uma vida completamente diferente da que tinham na Alsácia. Ao que sei, baseia-se na história verdadeira da avó da autora, que teve de lutar muito pela liberdade num país muçulmano. Também autobiográfico é o livro Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo (conhecida sobretudo pelo romance A Gorda), que a Caminho publicou há pouco tempo numa nova edição, revista e aumentada. Nele, a autora fala essencialmente do comportamento ternurento do pai para com ela, mas racista em relação aos negros, em Moçambique, antes da Revolução, recordando sem paninhos quentes episódios tremendos da sua infância. Estas duas escritoras vão hoje encontrar-se às 19h00 na Mediateca do Instituto Franco-Português, na Embaixada de França, com o jornalista Carlos Vaz Marques, que certamente as interpelará sobre as questões da submissão da mulher, a influência da religião, o racismo e o colonialismo. A não perder.

Comentários

  1. Já perdi... até porque me preocupam bem mais outros temas, que deviam preocupar a todos, em vez das memórias selectivas das duas escritoras.
    Uma mulher lutar pela liberdade num país muçulmano? Guerra perdida desde o início, para mais uma europeia...
    Pela minha parte ando a ler o livro do agricultor associativista, Carlos Neves: Desconfinar a agricultura, crónicas de agricultura, do prado à mesa! Este um tema bem oportuno e importante, actual, bem mais pertinente que discutir o racismo do pai da escritora há 40 anos atrás. Porque é da agricultura que comemos, não se pode esquecer, não comemos memórias coloniais, sexistas e quejandas, que já enjoam.
    Perdoem o azedume que me vai aqui pelo Bairro Ribatejano, renovado pelas chuvas de meados de Setembro, que caíram como compete em ano normal.

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  2. Bom dia oh Paxeco, a propósito de agricultura-já leste A MORTE DE UM APICULTOR de Lars Gustaffsen? e A VIDA DAS ABELHAS do Maurice Maeterling ? eras capaz de gostar.

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  3. rectificação:
    ó Paxeco (chamamento) e não oh Paxeco (espanto; interjeição)

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  4. Extraordinário Pacheco,
    Perrmita-me discordar da sua afirmação de que a libertação da mulher na civilização islâmica é impossível. Há de ocorrer, mas levará muito tempo.
    Quando decorria o século XIV na nossa civilização cristã a mulher também não dispunha de liberdade e uns tempos antes o homem até lhe instalava um cinto de castidade enquanto ia fazer umas operações militares lá à terra dos muçulmanos (cruzadas). Mais tarde as coisas mudaram. E na estrutura civilizacional islâmica também hão de mudar, mas ela ainda vai no seu século XIV. Ajudarão a acelerar a mudança as atitudes e ações de luta que as mulheres (como a avó da escritora) e os homens forem tomando, visto que as alterações não caem da montanha onde subiu Maomé.

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  5. Ora... eu percebi na mesma!
    Já sim, ambos... e há também a vida secreta das formigas, já que falamos em entomologia!
    Abraço!

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  6. Não só permito que discorde, como lhe agradeço que o faça, sinal de que me deu importância bastante, eheheh!
    De resto é sempre um prazer trocar aqui opiniões.
    Entendo perfeitamente o que diz! Todavia a sociedade, digamos judaico-cristã em que nos inserimos, caminhou no sentido da evolução, da civilização, apesar das ortodoxias e dos "cardeais" e inquisições e isso tudo. Tanto quanto sei ou penso saber, a sociedade islâmica muito pelo contrário, tem regredido e cada vez mais se fecha. Duvido que mesmo daqui a cem anos haja essa abertura, pois daqui a cem anos a nossa sociedade é que já não existirá, por força de ser tão aberta e permissiva que não percebe que caminha para a sua extinção deixando instalar os extremismos e os que se nos impõem, incapazes de nos opormos. Não é com panos quentes que se evolui e progride, como não o é com boas intenções e pelo diálogo - dialogar com extremistas?
    Já cá não estaremos para ver, mas não acredito que haja essa evolução... só a haveria se eles imigrassem para este lado para se integrar e viverem uma nova vida, aceitar os nossos valores, mas não, vêm decididos a manter o seu paradigma, a sua vida e forma de pensar, tratando mesmo de a impôr. Apenas procuram o "leite e o mel", querendo manter o resto, sem perceber que o que temos levou séculos a construir, levámos séculos a evoluir, mas eles acham que é chegar e sentarem-se á mesa, continuando as mulheres a servi-los.
    Enfim são os nossos pontos de vista, com todo o respeito.
    Abraço cá do Bairro Ribatejano.

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  7. Cláudia da Silva Tomazi15 de setembro de 2022 às 06:54

    Aplaudo o tema. Por mais vergonhoso e o é, faz necessário soprar-lhe nos quatro cantos do mundo. Há milhões de mulheres escravizadas e sofredoras por aí, em verdadeiros campos de concentração onde "impera maldade".

    Comprei e li, há tempos um livro de uma espanhola a corajosa Reyes Monforte e ela expõe, relata, acontecimentos verídicos de uma moça que casou-se com afegão e (louca) saiu de seu país, foi morar no Afeganistão. O título "Por amor a Burca". Foi triste e arriscada fuga.

    Óbvio que mexe com a gente, mesmo não sendo feminista. O atraso civilizacional o não justifica transtorno ou ordem comportamental mas, revela-se a impotência com relação a estupidez humana. A literatura, digo a grande literatura, além de lavar toda roupa suja por trás das distantes montanhas, nos entrega livros para a lavra da alma.

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  8. Tens muita razão, Cláudia!
    Não justifica mas explica. Lembro apenas o recentemente sucedido a Salman Rushdie, sobre quem foi lançada a pena de morte pelos que tudo decidem e mandam na Terra! Depois de levantada, ainda assim foi executada por um (jovem! notem bem) que achou que o devia fazer pelo seu amor ao Islão!
    Mas tudo caladinho em relação a isto... tudo muito caladinho, porque é políticamente incorrecto e parece mal aludir a tal. Os bem-pensantes só apontam dedo aos israelitas, os outros fazem como entendem e assobia-se para o lado, porque somos tolerantes!
    Nunca será possível haver outro entendimento... nem em mil anos. Só tem piorado, não se vêem nenhumas melhoras, olhem o Irão (Pérsia) no que se tornou, porque o Xá era um fascista, hoje depuseram o regime fascista e aquiloo é uma liberdade total, completa e absoluta.
    Deus nos livre... oxalá!

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  9. Tem razão Extraordinário ALP, discutir, confrontar, desenvolver é sempre útil.
    Penso que o que foi definitivo nesta relação civilizacional foi o Renascimento e as Luzes, isto é, a Ciência e a Técnica que se lhes seguiram. Antes disso o Islamismo estivera na vanguarda (até no dominio da tolerância), depois foi ultrapassado para sempre. Não só ficaram sob a dependência tecnológica, como sob o domínio em todos os sentidos e com imenso ressentimento até hoje. Até povos europeus viveram o drama de não terem tido Renascimento nem Luzes - gregos e eslavos do sul - por se encontrarem sob dominio de um poder islâmico (Turquia).
    As posturas femininas que deploramos e denunciamos - como não poderem movimentar-se sem a presença ou autorização dos homens, serem forçadas a cobrir o corpo com exceção do rosto (ainda há regiões de uso de burqa), das mãos, dos pés e de uma pequena parte dos braços - não nos leva a ver como aviltantes as situações de mulheres quase sem roupa a promoverem a venda de carros ou em outdoors a promoverem a venda de produtos bancários. As mulheres islámicas vêem e teem horror, sentindo-se felizes por não passarem por tamanha humilhação. É uma falta de liberdade face às condições de existência. Dir-me-ão que o fazem porque querem, mas fazem-no por dinheiro, o deus da nossa sociedade.

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  10. Tem razão na sua comparação entre o excesso de cobertura corporal e o inverso!
    Ou melhor dizendo, creio que o que está em choque são duas culturas opostas e que se agridem sem o perceberem. No fundo será isso? Mas a felicidade em não ser explorada pela imagem substituirá a infelicidade de ser entregue a um homem escolhido pela família e a ter de andar na rua atrás dele? Não sei, mas imagino que não...

    Também concordo inteiramente com a idéia do Renascimento, julgo que foi o que fez a diferença e nos permitiu a nós ocidentais dar um passo de gigante, a despeito dos muitos entraves que a Igreja Católica ainda levantava e do seu peso excessivo na moral e costumes? Porém, talvez fosse necessária para que se desse gradual e não abruptamente, como aliás acredito que é o que se vem passando desde o século XX, as mudanças bruscas! Verdadeiras revoluções.

    Vem expresso no Corão, que, o Islão não pode ser imposto, tem de ser abraçado livremente. Assim foi, como refere, e houve deveras uma grande tolerância religiosa durante os primeiros séculos. Incrívelmente, com o passar do tempo, agravaram-se as imposições, a intolerância, o extremismo, o fanatismo. Uma civilização que em tempos foi luz e deu cartas, em que se tornou? Porquê? Nunca mais criaram nada. Veja-se a literatura, que modernamente não existe nos regimes islâmicos, o que é a maior prova da falta de liberdade, intelectual ou outras.
    Abraço.

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