Reler
Hoje estou com muito pouco tempo para o blogue, pois é dia de ir com a minha mãe a uma consulta de ortopedia em Santa Maria e a logística é complicada; mas deixo-vos ainda assim uma interessante reflexão que o escritor e professor universitário Nuno Camarneiro fez recentemente no Facebook a propósito de relermos livros em idades diferentes. Reza assim:
Há poucos exercícios tão interessantes e introspectivos como reler um livro que nos marcou há 10 ou 20 anos. O livro é o mesmo, mas nós somos outros e vamo-nos apercebendo da diferença com susto e espanto. Há tanto que não sabíamos e passámos a saber e há outro tanto que já esquecemos. Há coisas que achámos geniais e que agora parecem banais e outras a que não ligámos e a que agora damos relevância. O texto é o mesmo, mas nós mudámos e o mundo mudou também. «Não nos podemos banhar duas vezes nas mesmas águas», dizia Heráclito, e também não podemos ler duas vezes o mesmo livro.
Fiquei a pensar em como me doeu voltar a Resta a Noite, de Soledad Puértolas, por exemplo, mas como o Amante, de Marguerite Duras, permaneceu intocável...
Discordo, se não completamente em parte, talvez em 75% do que é dito!
ResponderEliminarÉ evidente que a forma como interpretamos ou sentimos um livro, ao longo da nossa vida e tendo em conta o passar dos anos, depende das etapas, da idade e da nossa evolução.
Nisso de acordo.
Claro que "A aventura na ilha" , "Os pescadores de tré-pang" tiveram um determinado efeito numa certa idade, como o tiveram "A ilha misteriosa", "As minas de Salomão". Esse efeito perdurou todavia, porque me alimentou a imaginação e depois a vontade de vir a fazer muitas das coisas que fiz, orientando a minha vida nesse sentido. Não perderam nada da magia nem do encanto. Como poderiam?
Releio hoje com o mesmo prazer "Tarzan e a cidade perdida de Opar", ou "Na pista do Oregon".
Apenas para falar nos juvenis.
Quando era ainda novo, com os meus 12 anos, lia já Erich Maria Remarque, Sven Hassel, Blasco Ibanez, fui lendo Erico Veríssimo, Ferreira de Castro, que então me produziam o mesmo efeito que hoje, se bem que o entendimento do que escreviam, evoluísse. Mas não perderam um átomo do seu interesse, mesmo aumentou!
Por aí fora... hoje com 66 anos, muitos milhares de quilómetros de papel lidos ou percorridos, não me recordo de nenhum livro de que tenha deixado de gostar ou perdido o interesse. Pelo contrário até ganhei novo interesse por livros que há anos punha de lado... por exemplo: Naipaul! É verdade, hoje ponho-o ao lado de Steinbeck, por exemplo, e aqui há 20 anos, não lhe havia ainda percebido o significado nem o conteúdo.
Portanto discordo! Os livros mantêm o seu interesse, desde que o tenham despertado nalgum momento. E, se o não despertaram, mas tratando-se de obras consagradas, guardemo-los e voltemos a eles em circunstâncias e idades diferentes e mais maduras.
Claro que cada um sente e pensa a seu modo, o meu é muito diferente do de Camarneiro, talvez por isso não seja seu leitor... pode ser uma explicação.
Diz o autor e académico:
"Não nos podemos banhar duas vezes nas mesmas águas», dizia Heráclito, e também não podemos ler duas vezes o mesmo livro."
Não podia estar em maior discordância! Tenho lido os meus livros de referência ao longo da minha vida, repetidamente, e, sempre lhes acho o mesmo encanto ou até descubro novo, nem que seja pela nostalgia, pela recordação da ingenuidade e sensações de outras idades.
Para quem não tinha tema para hoje... ó minha senhora, este é cá um Tema, que vou-lhe contar: - Uma provocação neste Extraordinário espaço de leituras e leitores, amantes dos livros!
As melhoras da senhora sua mãe.
Começámos bem a semana, nós aqui!
Votos de uma Extraordinária semana, cá desde a Cidade Morena.
Há livros que releio com sumo de curiosidade face à amnésia dos pormenores esquecidos;
ResponderEliminarOutros que bebo com a avidez da pureza do primeiro dia.
Naqueloutros cujas boas memórias me avivam a vontade, incido o meu olhar à procura do que em tempos li, e logo um torpor de emoção explode como uma vera canção.
Bom dia. Ah, sob as "vestes" de Camões... Quem sou eu, sem bendizer Heráclito?! Embora as caldas o mesmo mar, diferem uns se lhes refrescam as partes e outros somente os pés.
ResponderEliminarTalvez à partida, não por mérito em decorrência o tempo; todavia a leitura se lhe faz casual nem a empataria por banal.
Aconteceu comigo. Como o livro não mudou, mudei eu, pois claro.
ResponderEliminarUltrapassaram o deslumbre inicial O Vermelho e o Preto, de Stendhal, A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstoi, por exemplo. Já O Livro de San Michele, de Axel Munthe, foi uma enorme desilusão. Só releio livros que me marcaram e como isso sucedeu com as Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar, estou a pensar pegar nele outra vez.
Nao tenho o costume de reler o que quer que seja,a nao ser em rarissimas exceçoes.Ja tenho falado com outras pessoas que o fazem e considero um verdadeiro luxo estar a pegar num livro ja lido quando tantos se avolumam a minha espera.
ResponderEliminarNo entanto gostaria de acrescentar algo relacionado com esse assunto.
Ha certos autores que li avidamente ate um determinado ponto.Posso citar por exemplo Jose Saramago,Antonio Lobo Antunes,Agustina Bessa-Luis,entre outros.A sua leitura constituia sempre um prazer,que me levava a continuar a le-los sempre.Ate que chegou uma altura em que os temas se tornaram repetitivos.
No caso de Jose Saramago havia sempre as ideias politicas,Lobo Antunes insistia na guerra colonial e Agustina retratava familias ou mais vezes mulheres,geralmente do norte.
Achei que ja chegava e deixei de os ler.Tambem passei a ter mais espaço para outras descobertas e nao me tenho dado mal.
"Cada livro é um livro"...
ResponderEliminarJá experimentei a desilusão mas também o mesmo prazer inicial... e até descobri outras coisas.
É neste contexto que se percebe que há livros "datados"...
É como este Anónimo diz (questiono-me sempre: porquê Anónimo?) tenho tanta coisa para ler que realmente é quase um luxo reler (e como o tempo foge). Mas há um autor de que quero reler alguns livros (PHILIP ROTH- A PASTORAL AMERICANA é dos grandes livros que li até hoje). E talvez alguns livros de que gostei muitíssimo (A SANGUE FRIO do grande TRUMAN CAPOTE). Contudo, há autores que me iniciaram na leitura e que não penso reler, porque sinto que me iriam desiludir, entre eles o grande VITOR HUGO e talvez até o grande JOHN STEINBECK de que fui um fanático leitor. Tenciono ainda reler um dos grandes livros da literatura portuguesa (MEMORIAL DO CONVENTO) e do grande VERGÍLIO FERREIRA (o extraordinário CONTA-CORRENTE-8 volumes-).
ResponderEliminarE ainda da grande FLANNERY O'CONNOR - "SANGUE SÁBIO".
Será que também a releitura dos livros que citei me irão desiludir?
Memórias de Adriano é livro que não passa. Vai gostar na mesma. Pelo menos aconteceu comigo. Se viva mais uns anitos, volto a lê-lo. Mas gosto bastante da autora e do que já li dela.
ResponderEliminarcomigo passa-se exactamente conforme a reflexão. Com os livros, com os filmes.
ResponderEliminarjmr