Mudar
Nat, uma tradutora free-lancer, resolve mudar-se para uma aldeia chamada La Escapa, pensando assim poder viver melhor com o dinheiro que ganha. Estranha, claro, o isolamento e os habitantes um pouco brutos, o silêncio e a dureza do senhorio que, na verdade, lhe arrenda uma casa a cair aos bocados e não quer fazer reformas nem pagar os arranjos. Mas estranha sobretudo o preconceito, pois ninguém percebe o que faz sozinha uma mulher como Nat num meio rural que é visivelmente atrasado e onde nada se passa. Mesmo o cão, que Nat arranja para não se sentir tão só, é arisco, avesso a festas e demasiado difícil de dobrar. E um dos seus vizinhos, a quem chamam «o alemão» e que foi ele próprio também um forasteiro, além de tratar da horta e vender legumes, faz a Nat uma proposta que só não é absurdamente indecorosa porque é feita aparentemente com o maior decoro. É este o argumento muito resumido de Um Amor, da espanhola Sara Mesa, livro que, se calhar, merecia uma tradução um bocadinho menos colada ao castelhano e que, apesar de ter sido considerado um dos melhores livros de 2020 no país aqui ao lado, é menos interessante do que eu esperava (mas quem me mandou criar expectativas sem conhecer a autora? Pode ser só uma embirração minha com a escolha do presente como tempo da narração). Se quiserem, o romance é também um excelente retrato da interioridade (falo da interioridade de um país, mas podia falar igualmente da das suas personagens) e vale pelas surpresas do enredo em que a protagonista se vai sempre confrontando com as suas próprias acções e a moral e vai tendo cada vez mais dificuldade em exercer o seu ofício, que é traduzir.
Mudar... a protagonista mudou na perspectiva de poder viver melhor.
ResponderEliminarMudou para um local de gente bruta, atrasada... mas ela não mudou, é o que se concluirá? Porque e ao que parece, através da autora, parece que casca nos aldeãos, feios, rudes e mal-vestidos...
Também isso mudou, hoje mais do que nunca, está na moda tratar a gente do interior, rural, dessa forma: atrasados, incivilizados. A literatura mudou, também, isto a propósito de estarmos num local de leituras, livros e escritores. Quando o aldeão deixa de ser retratado de uma forma idílica e românticamente errada, em que era visto não como pessoa mas como uma espécie de jardineiro filósofo, e, passa ao estado de bruto ignaro, rude e inculto, atrasado. Hoje parece até que somos culpados por tudo, desde o alegado aquecimento global aos fogos. O escritor rural, verdadeiro, o médico de aldeia, foi substituído pelo pseudo-rural que vive na grande cidade e (quando faz bom tempo) passa o fim de semana na aldeia, que interpreta à sua maneira, esquecido já das suas raízes, mas que é por toda a gente tomado como um "rural". Daí a minha curiosidade em ler o mais recente livro do nosso escritor safarejo, aqui anunciado há dias.
Será o caso deste livro hoje aqui trazido? Não sei, porém acho que o vou ler ainda que provávelmente me vá agredir, para saber e concluir o que pensam de mim e dos meus (é bom não esquecer que eu sou um barrão inculto, atrasado) os "outros", a gente bonita, bem-vestida e evoluída, que me despreza e quer dizer-me como hei de viver na minha terra.
Entretanto também eu mudei, mudei para um lugar ainda mais rude e inculto, onde a vida é bem mais dura e complicada, e, como a autora e os modernos que se mudam para o interior, arrependo-me e queixo-me disso amargamente, todos os dias aqui neste Extraordinário espaço, como é do vosso conhecimento!
Haja paciência porque o bom senso parece que se esgotou.
Nota: este fim de semana estive com os meus amigos cubanos, que vieram em busca de melhor vida, portanto mudaram! Estão contentes, a felicidade deles consiste em estar aqui, onde a miséria é menor do que na sua ilha, e, pelo menos ao Domingo têm acesso àquilo que na sua terra não têm: liberdade, música, bebida e comida à descrição. São momentos de felicidade, partilhada e que nos faz felizes também, por ver a felicidade deles.
Saudações, incultas mas felizes, cá da Cidade Morena.
Já li este livro , mas tirando um ou dois aspectos interessantes foi uma desilusão . Não sei como pode ser considerado o melhor livro dum ano em Espanha . A literatura atual está também em crise ?
ResponderEliminarAcho melhor ler para perceber que não é nada disso.
ResponderEliminarEsse é realmente o problema...
ResponderEliminarDespertou-me a curiosidade e como eu disse, pretendo ler.
ResponderEliminarDepois se verá, posso ter entendido mal e como é de esperar poderei ainda entender mal o livro, mas uma coisa é certa, parece que não merece os tais encómios de ter sido considerado o melhor livro do ano em Espanha. Como eu venho dizendo, as premiações são cada vez menos fiáveis e meramente questão de merchandising. Será mais um caso.
«O escritor rural, verdadeiro, o médico de aldeia, foi substituído pelo pseudo-rural que vive na grande cidade e (quando faz bom tempo) passa o fim de semana na aldeia, que interpreta à sua maneira, esquecido já das suas raízes, mas que é por toda a gente tomado como um "rural".»
ResponderEliminarGostei muito desta passagem. Confesso que me desagrada, muitas vezes, a maneira como as pessoas do campo são retratadas pela literatura. São pessoas rudes? São. Mas são engraçadas? Ah, isso também são. E muito. Nestes quase sessenta nos de vida no campo, ainda hoje me surpreende o sentido de humor destas gentes simples. Rio-me muito com elas. Porém, acima de tudo, admiro o seu espírito resiliente. A adaptação aos humores do tempo e à inclemência da terra que seca ou alaga. Claro que têm inúmeros defeitos. Mas quem não os tem? Apenas sei que, quando ando pelo mundo civilizado, só desejo voltar para o meu cantinho, onde me esperam abraços e singelas preciosidades. Uma delas é o sorriso daqueles que me conhecem. E, acreditem ou não, sorrisos sem contrapartidas. Por estes lados, não se negoceiam amizades.
Se a literatura aCtual está também em crise tal se deverá não tanto à inexistência de autores talentosos e arrojados, e de obras originais e relevantes, mas sim mais à incompetência e ao medo de bastantes editore(a)s - empresas e pessoas - que condicionam preferencialmente as suas decisões e apostas aos seus gostos e interesses, quando não aos seus preconceitos.
ResponderEliminarCom Valter Hugo Mãe, Afonso Cruz, José Luís Peixoto, para citar só alguns - não consigo defender a ideia que a literatura esteja em crise...
ResponderEliminarÉ um grandíssimo tratado de vidas desalmadas !
ResponderEliminarEstava a falar de gente nova, esses autores já têm 50 anos…
ResponderEliminarBela colheita de 71. Não esquecer Gonçalo M. Tavares. Susana
ResponderEliminarBom dia, Susana, mas com toda a simpatia, o Gonçalo M. Tavares é da melhor colheita de todas. 1970. (é o meu rico ano!)
ResponderEliminarCeleste Silveira