O que ando a ler

Sendo hoje dia de dizer o que ando a ler, direi que leio, algo desconcertada ainda, O Colibri, de Sandro Veronesi (senhor nascido no mesmo ano que eu), publicado entre nós pela Quetzal e traduzido por Cristina Rodríguez e Artur Guerra. O colibri do título é Marco Carrera, que ganhou essa alcunha por ter nascido incrivelmente pequeno e ter sido, aliás, sujeito a um tratamento hormonal para crescer. Isso não o impediu, porém, de ter sucesso nos amores que, apesar de tudo, são relações irregulares, quer a que leva ao casamento com Marina, com quem Marco tem uma filha problemática (Adele), quer a que mantém desde praticamente a adolescência com Luisa e que, tanto quanto me é dado ver, nunca chega a vias de facto, embora origine uma correspondência profusa e bastante enigmática. Também o é a mantida por Marco com o irmão a propósito da casa dos pais, a cair aos bocados desde a morte destes, ou as situações que respeitam à irmã de ambos (Irene) e a um amigo da adolescência (o Inominável) que resolveu sair de um avião antes de este levantar voo e sabe mais tarde que esse avião teve um acidente em que morreram todos os passegiros. Mas o livro está cheiinho de surpresas e, ainda que exija muita atenção, sobretudo às datas, vale bem a pena ser lido.

Comentários

  1. Com base no Diário de Leituras de Alberto Manguel, agora saído em português, iniciei a leitura de O Vento nos Salgueiros de Keneth Grahame e Ressurgir de Margaret Atwood; estou curioso quanto a O Deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati, mas fica para uma próxima. Iniciei a leitura de Guerre, romance inédito de Louis Ferdinand Céline, um autor favorito, agora publicado pela Gallimard..

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Gostei muito de ler O Deserto dos Tártaros.
      Boas leituras 📚

      Eliminar
    2. Obrigado pela dica; prometo que vou ler.

      Eliminar
    3. O Deserto dos Tártaros é um dos meus livros preferidos, a par por exemplo de O Céu Que nos Protege, de Paul Bowles. São dois livros que me assomam ao pensamento com muita frequência.

      Eliminar
    4. Também li e gostei muito desse livro do Bowles. Li-o muito depois de ver o filme que o Bertolucci adaptou do The Sheltering Sky, entre nós com o título Um Chá no Deserto.
      Ambos imperdíveis, diria eu.
      Boas leituras 📚
      Bons filmes 🎬

      Eliminar
    5. Concordo. Neste caso, o livro e o filme complementam-se muito bem! Vi recentemente a adaptação do romance O Véu Pintado, de Somerset Maugham, mas achei o livro muito superior. Já agora, outra sugestão de livro adaptado a filme é Morte em Veneza, por Luchino Visconti. Boas leituras e filmes!

      Eliminar
  2. Também acabei de ler este livro. É interessante, está bem escrito, acho que não me convenceu...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Fiquei curioso; a que livro se refere? Compreensivamente, O Deserto dos Tártaros não extasiará todos os que o lêem. Porém, foi o meu caso - creio que por o ter lido durante o primeiro confinamento, em circunstâncias insólitas, análogas àquela narrativa.

      Eliminar
  3. "Aniquilação" de Houellebecq - recriação genial do mundo interior e do mundo factual da burguesia europeia -- pequena, média ou grande -- a que todos nós acabamos por pertencer. Uma reflexão irónica e cheia do humor sobre a família e as suas relações intrínsecas e com a velhice, a morte, a política, a conjugalidade, a cultura e bem mais... Um Houellebecq da maturidade que já não sente necessidade de abanar o leitor com os excessos das suas fantasias sexuais ou dos seus ódios étnico-culturais, mas sempre crítico da condição humana. Diverte-se a apontar o dedo às hipocrisias das atuais relações humanas. Grande qualidade estilística, histórias memoráveis, personagens inesquecíveis, desde Macron em 2027 até ao desempregado crónico dos nossos dias.
    "O Último Olhar" de Miguel Sousa Tavares - primeiro grande romance do tempo do covid. Surpreendentemente, uma história quase só com personagens espanhóis que nos fazem percorrer o século XX desde antes da guerra civil até aos nossos dias de pandemia, com acento nestes últimos anos, acompanhando a vida de um homem, em paralelo com uma bela história de amor "clandestino" entre uma médica madrilena e um intensivista de Bérgamo. Grande histórias e um final redentor para um idoso que nunca se rendeu à vida banal.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Li um grande livro do Houellebecq "PARTÍCULAS ELEMENTARES".

      Eliminar
    2. É sempre bom ler comentários como este para irmos à estante buscar livros que estão à espera de serem lidos. Do autor, do que gostei mais foi de Submissão. Extensão do Domínio da Luta penso que seja um exemplar fiel dos seus temas e do seu estilo, mas não guardei memórias. A Possibilidade de uma Ilha foi um livro que li a custo. Plataforma foi o livro que me introduziu ao escritor. Encontro muita humanidade nos seus escritos, apesar do seu tom provocante.

      Eliminar
  4. Estou quase a terminar O PARAÍSO E OUTROS INFERNOS de José Eduardo Agualusa. São 334 páginas de crónicas muito bem escritas entre 2013 e 2018.

    “Sou um leitor compulsivo de poesia. Como leio muito, e me interesso por novos autores, acontece-me tropeçar em poesia muito má. Foi assim, lendo má poesia, que acabei confirmando a tese de Borges, segundo a qual mesmo os piores poetas conseguem escrever ao longo da vida um ou dois versos extraordinários. Isto não nos devia surpreender se tivermos em atenção que a poesia é, em larga medida, acidental. “
    J. E. Agualusa

    ResponderEliminar
  5. Bom dia!
    Enquanto andava a "arrumar" alguns livros encontrei um que já não via há muito tempo.
    Assim, estou a reler o "QUEM ME DERA SER ONDA" do Manuel RUI. Uma aventura em Luanda à volta de um porco que se chama "Carnaval da vitória.
    É uma edição de 1984 com capa e ilustrações de Alceu Saldanha Coutinho. É um livro de uma grande ternura que recomendo.
    Colado a este estava um outro, mais pequenino, do mesmo autor cuja leitura também recomendo.
    "DA PALMA DA MÃO" uma edição da Cotovia. Tal com diz o autor. Estórias Infantis Para Adultos.
    Daqui, da margem esquerda do estuário do Tejo, com os desejos de boas leituras.
    A. Delfim.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Isabel Castelo Branco1 de junho de 2022 às 03:40

      "Quem me dera ser onda" é tão bom! :)

      Eliminar
  6. Estou numa fase em que não ando a ler romances.

    Curiosamente, o último livro (livrinho) que li e achei extraordinário, foi "A Essência do Comércio" de Fernando Pessoa. Trata-se de um conjunto de artigos publicados na "Revista de Comércio e Contabilidade" (1926), cuja actualidade - apesar de passarem quase cem anos - é notável.

    A parte psicológica então é fascinante e esbarra contra todos os comerciantes que têm "o rei na barriga" (e continuam a ser tantos...), quando diz que um comerciante, qualquer que seja, não é mais que um servidor do público...

    Aliás, muitos comerciantes de hoje, continuam sem perceber a "essência do comércio" e fazia-lhes bem ler este pequeno livrinho, pois percebiam porque razão é que algumas pessoas entram no seus estabelecimentos uma vez e não voltam...

    A nossa grande figura da literatura é genial, até mesmo nas pequenas coisas que escreveu.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Bastante pertinente esta observação. Agradeço a sugestão de leitura.

      Eliminar
  7. "MULHERES ENCLAUSURADAS" de Arlindo Manuel Caldeira.
    Um retrato da vida nos conventos em Portugal, nos séculos XVI a XVIII. Milhares de mulheres, algumas muito jovens (4 anos, por exemplo) foram enterradas para toda a vida nos conventos de clausura. Ainda vou na pág. 100 mas são mais de 400 páginas com as negras histórias destas mulheres. Estou a gostar embora as situações, por tão similares, se tornem por vezes fastidiosas. Mas não deixa de ser um documento precioso que nos mostra a mais negra escuridão do que poderá ser a religião.

    ResponderEliminar
  8. Bom dia!
    Li "O colibri", de que gostei muito.
    Confesso que gostaria de tê-lo lido de seguida, mas, de facto, aqueles saltos no tempo baralharam-me um pouco e, perdida, não o fiz. No entanto, quando tomei o fio à meada, li com muito gosto.
    Achei um livro escrito de um forma algo original e gostei do Marco, que acabou por renunciar a tanto na sua vida por amor a alguém ou algo, esquecendo-se dele, mas não se amargurando por isso. Eu gosto da abnegação (talvez porque ache que devia ser mais, não sei :) ).
    Confesso que foi um livro que me encantou.
    Ao terminá-lo fui ouvir a "música mais triste do mundo", que o autor refere no final do livro e de que eu nunca tinha ouvido falar. Ao que parece, incitou tantos suicídios que ficou conhecida como "a cação húngara dos suicídios" (a sua origem é húngara) e foi proibida em vários países. Claro que fui ouvi-la. E, mesmo na versão amenizada da Billie Holiday, "Gloomy Sunday", na tradução inglesa, é mesmo profunda e arrepiantemente triste.
    Por favor, se estiverem muito tristes, não oiçam! :))
    (Eu não estava e achei melhor parar de ouvir :)) )
    Dia feliz!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Isabel Castelo Branco1 de junho de 2022 às 03:36

      Ah! Esqueci-me de referir que comecei a ler "Estranho estrangeiro", a biografia de Fernando Pessoa, de Robert Bréchon. Já devem ter lido...
      A avaliar pelas primeiras páginas, estou encantada...mas é uma extensa obra. Não sei se conseguirei ler sem interregnos.
      Entretanto, ouvi falar que foi publicada recentemente uma biografia, ao que dizem, excelente, do nosso Pessoa, também escrita por um autor estrangeiro, cujo nome não recordo.

      Eliminar
    2. A última e mais completa biografia de Pessoa saiu agora da autoria de Richard Zénith é um tijolo de mais de 1000 páginas, não sei se me aventurarei nessa empresa; para já basta-me a Fotobiografia e alguns heterónimos.

      Eliminar
    3. António Luiz Pacheco1 de junho de 2022 às 10:48

      Já o tenho! Já o tenho! Eheheheh!
      A minha mulher comprou-mo... está ela a ler porque eu só terei acesso em Setembro!

      Eliminar
    4. Que bom! Tão bom essa sensação de ter "um livro para ler e saber que mais tarde ou mais cedo o vamos poder fazer"

      Eliminar
    5. Era esse mesmo de que falava. Não me recordava do nome do autor. Ontem estive folheá-lo na livraria. Deve ser tão tão bom, que não sei se deva parar com o Bréchon...

      Eliminar
  9. Já li e adorei. Desconcertante mas em momentos, muito belo.
    SC.

    ResponderEliminar
  10. Descobri ha pouco tempo Teresa Veiga e gostei muito.Li "A paz domestica","O ultimo amante","As enganadas","Gente melancolicamente louca".Sao livros pequenos,que se leem bem e se revelaram uma agradavel surpresa.
    De Sandro Veronesi li "Caos calmo" que nao me encantou.Talvez "O colibri"seja melhor.

    ResponderEliminar
  11. Um romance que marca, com um protagonista que não se esquece, Marco Carrera.
    Estrutura narrativa peculiar que encaixa um registo epistolar para contar as agressões e as injúrias de uma sorte ultrajante numa combinação de candura e desespero que torna este romance único.

    ResponderEliminar
  12. Continuo às voltas no deserto pela mão de T. E. Lawrence (Os Sete Pilares da Sabedoria). Surpreende-me falar pouco de guerra, de atentados contra a ferrovia dos Turcos na Arábia, de espionagem (de que ele era um profissional) e muito da paisagem, suas formas e cores, suas durezas e modos de vida em conformidade, dos beduínos que admira, descreve e imita mas suas formas de vida.
    Quem Me Dera Ser Onda - uma maravilha, concordo.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco1 de junho de 2022 às 10:53

      Ora aí tem... surpreendido Amalivros! Ele não era apenas um agente do imperialismo britânico, um espião... era muito mais do que isso, tornou-se muito mais do que isso!
      É o que fascina nele, a sua abertura (um britânico a apreciar uma outra cultura, tida por inferior??? Ondé qu'já s'viu?) e o ter crescido como homem, enfim, como ser humano, prontos!
      O fascínio de Lawrence da Arábia, é o mesmo que sentimos por outros que como ele passaram por essa experiência e tiveram esse privilégio!
      Abraço africano!

      Eliminar
  13. Antonio Manuel Almeida1 de junho de 2022 às 09:20

    Depois de ler "Dias lama centos" e "Horas perdidas" desse grande escritor, infelizmente um pouco esquecido, Urbano Tavares Rodrigues, seguir-se-á os "Contos de Solidão".
    É sempre um prazer imenso voltar ao Urbano Tavares Rodrigues, à sua escrita solidária, fraterna e humanista. Leiam.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Caro António
      Uma parte da minha "biblioteca" está preenchida com os livros do Urbano.
      Foi com ele e com o "Exílio Perturbado" que me iniciei na leitura de autores portugueses.
      Tenho um profunda admiração pelo escritor e homem que foi/é o Urbano Tavares Rodrigues.
      Um abraço da margem esquerda do estuário do Tejo
      A. Delfim

      Eliminar
    2. Boa tarde, A. Delfim.
      Obrigado pelo seu comentário. Tenho cerca de 29 livros do Urbano Tavares Rodrigues e com frequência retorno à sua escrita com um enorme prazer. Gosto de livros que nos "inquietam" que nos fazem pensar e reflectir e questionar a vida. Para além do Urbano Tavares Rodrigues os escritores portugueses que gosto são o Camilo C.Branco, José Gomes Ferreira, Ferreira de Castro entre outros.
      Um abraço e boas leituras.
      A.Almeida

      Eliminar
  14. Teresa Palmira Hoffbauer1 de junho de 2022 às 09:26

    Leio novamente a „Viagem à Itália“, de Goethe.
    Fiquei muitíssimo curiosa com „O Colibri“, de Sandro Veronesi

    ResponderEliminar
  15. Acabei de ler o "Deserto dos Tártaros", gostei muito. É um belíssimo livro. Aconselho vivamente.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório