Poema contínuo

Não há dúvida de que há muito menos gente a ler poesia do que ficção, e este blogue é já uma prova disso, pois são muito mais os comentários, o interesse e as achegas quando falo de um romance do que quando menciono um livro de poesia (mesmo meu). O Manel um dia destes foi a uma sessão no Instituto Cervantes sobre Francisco Umbral (que é um verdadeiro poeta a escrever prosa) a propósito da saída entre nós de Mortal e Rosa, com tradução de Carlos Vaz Marques, pela editora Tinta-da-China; e veio de lá com uma história curiosa que o jornalista contou. Nos anos 1930, um poeta francês mandou alguns dos seus poemas para uma revista literária e, pouco depois, recebeu uma carta da direcção dessa revista elogiando os textos e dizendo que os publicaria. Como nesse tempo era hábito as revistas literárias em França pagarem os textos seleccionados, o poeta perguntou quanto iria ganhar com a publicação, ao que lhe responderam que... nada, pois pagavam apenas aos autores de prosa (como se um poema desse menos trabalho, enfim). Pois bem, como ele precisava mesmo de dinheiro, respondeu que então anulassem os versos e escrevessem tudo de seguida. Suponho que lhe pagaram, mas não sei o fim da história. De qualquer modo, é assim, tal qual, a prosa de Umbral, um «poema contínuo» deslumbrante.

Comentários

  1. Infelizmente essa continua a ser a realidade, como se os "poemas caíssem do céu".

    Há uma dualidade de tratamento entre prosa e poesia, em Portugal e no Mundo.

    Embora também se desvalorize entre nós o escritor de prosa. A escrita, toda, ainda continua a ser entendida como um "passatempo", pelo menos no que toca a "pagamentos"...

    Quem convida normalmente faz-se desentendido ou diz que não tem orçamento para pagar, mesmo um simples almoço...

    Na cultura continuamos a ser um país muito misero, que não valoriza os seus artistas. E a culpa não é dos escritores, dos músicos ou dos actores. A única responsabilidade que têm, é de não terem coragem para dizer não, mais vezes.

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  2. António Luiz Pacheco31 de maio de 2022 às 02:14

    Bom, como segundo reza a tradição, o poeta tem de sofrer, para ser poeta, deve ser por isso que há estas histórias...
    Na verdade, eu como muitos outros, não sou leitor de poesia porém aprecio e valorizo a poesia, há uma grande diferença nisso.
    Saudações cá da Cidade Morena, onde canta o matrindinde!

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  3. Há caminhos líricos com letras . A Prosa de Umbral é um dos que tais.

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  4. Ler, para a grande, grande maioria das pessoas, é impensável (o trabalho que isso dá...) porque elas estão sempre ao telemóvel, no facebook, instagram etc etc, nessa outra grande epidemia que são as redes sociais, Então ler poesia é algo (para elas) de surreal.
    Os livros, para mais de 90% das pessoas com menos de 40 anos, é coisa da idade da pedra -é que eles não sabem nem sonham...-

    Nunca deverá ter havido tanta informação para tanto ignorante!

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  5. Comprei o livro logo que saiu, tão rasgados os elogios que fui lendo ("um dos livros da minha vida" - Carlos Vaz Marques dixit) mas... continua em fila de espera. As expectativas são grandes.

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  6. Cláudia da Silva Tomazi31 de maio de 2022 às 04:27

    Bom dia. Desculpem se atrevimento, de tal sem ilusão qual lira não é solidão?!

    Onde sem tempo cai a neve Arte vaga espaço.

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  7. Ah, lembrei-me dos meios a que recorria Luis Pacheco para conseguir algum dinheiro pelos textos que produzia. E bem precisava dele para pagar a renda, por exemplo.

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    1. António Luiz Pacheco31 de maio de 2022 às 08:38

      Ora... conte lá! Escreva - eu não lhe pago mas agradeço, ahahahah!
      Grande abraço cá da Cidade Morena.

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  8. Eu confirmo essa realidade de ler muito mais prosa que poesia. Mas... Tenho estado a mudar.
    Desde criança que fui de me agarrar aos livros, mas em casa dos meus pais e avós só havia prosa nas prateleiras. Depois, na escola, achei engraçadas as canções de escárnio, especialmente, de Camões. Divertiram-me, e foi tudo. Nem Fernando Pessoa, ainda na escola, me fez desviar a agulha para a poesia. Continuei a ler apenas prosa.
    O cómico foi ter sido a pandemia que veio fazer esse serviço comigo, eu já me achando dura de ouvido para a poesia. No dia em que pudemos desconfinar pela primeira vez, saí de casa e só parei no rio. Desde esse dia comecei a fazer caminhadas. Porém, caminhar só por si é aborrecidíssimo e portanto resolvi o assunto ouvindo podcasts durante o caminho. Por razões que não desfio agora, pus-me a ouvir, em muito boa hora, "O poema ensina a cair" da Raquel Marinho. E desde aí, em menos de 2 anos, já comprei umas dezenas de livros de poesia, alguns dos quais são capazes de me deslumbrar profundamente. Graças à Raquel Marinho, que a meu ver presta um belíssimo serviço à comunidade, tanto de leitores como de autores de poesia. Estou-lhe muito grata.
    E desculpem o testamento.

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  9. Li ontem este poema de Emily Dickinson:

    A Beleza - não tem causa - É -
    Persegue-a, e ela fina -
    Desiste, e ela executa -

    Tenta transpor os Sulcos

    Que há no Prado - quando o Vento
    Por ele corre os dedos -
    Farão decerto os Deuses
    Com que Tu não consigas -

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