Excerto da Quinzena
Um almoço de folhas de alface, ananás e queijo fresco. Sentado à mesa da cozinha com um guardanapo cor-de-rosa sobre os joelhos, comeu com a suspeita de que aquilo era uma piada, de que a viúva estava a mangar com ele. Mas ela comeu também, e com tanto apetite que se diria estar a apreciar a refeição. Se Maria alguma vez lhe pusesse à frente aquele tipo de comida, ele atiraria com o prato pela janela fora. A seguir, a viúva serviu-lhe um chá numa chávena de porcelana fina. No pires havia duas bolachinhas brancas, do tamanho de uma unha de polegar. Chá e bolachinhas. Diavolo! Para Bandini, beber chá era sinal de efeminação e fraqueza, e além disso não apreciava doces. Mas a viúva, trincando a bolacha que segurava com as pontas dos dedos, sorriu-lhe amavelmente, enquanto ele despachava as dele como quem engole comprimidos. [...] De vez em quando, ela sorria-lhe, uma das vezes por cima do bordo da chávena. Aquele silêncio embaraçava-o e entristecia-o: a vida dos ricos, concluiu, não era para ele. Se estivesse em casa, teria comido ovos estrelados e um naco de pão, regados com um copo de vinho.
John Fante, A Primavera Há-de Chegar, Bandini,
tradução de Rui Pires Cabral
Da imortal obra, Moby Dick, uma das minhas passagens favoritas é a ceia de Stubb!
ResponderEliminarA dissertação de Stubb sobre a gastronomia do cetáceo, a conversa com o velho cozinheiro a quem manda fazer uma prelecção aos tubarões, e o discurso deste, são de uma genialidade absoluta, a que a péssima traducção que consegui no google não faz justiça, mas é o que se pode arranjar.
Releio muitas vezes estas e outras passagens.
“Pois bem, cozinheiro, perceba que esses bifes de baleia estão tão ruins que tenho que tirá-los da minha frente o mais rápido possível; você percebe isso, não? Pois bem, no futuro, se você fizer outro bife de baleia para a minha mesa particular aqui, o cabrestante, vou lhe dizer o que fazer para não estragá-lo cozinhando-o por muito tempo. Segure o bife
com uma mão e mostre-lhe uma brasa com a outra; isto feito, sirva-o, escutou? Amanhã, cozinheiro, quando cortarmos o peixe, não deixe de estar por perto, para pegar as pontas das barbatanas; coloque-as em conserva. Quanto às pontas da cauda, coloque-as em salmoura, cozinheiro. Pronto, agora pode ir.”
Mas, mal Fleece tinha dado três passos, foi novamente chamado. “Cozinheiro, quero costeletas para a ceia amanhã à noite na minha vigília. Escutou? E agora vá
– Ei! Pare! Faça uma reverência antes de partir.
– Pare outra vez! Almôndegas de baleia para o café da manhã – não se esqueça.”
“Pelo amô’ di Deus! queria que a baleia comesse ele, em vez que ele comesse a baleia. Juro que ele é mais tubarão que o próprio sinhô Tubarão”, resmungou o velho, enquanto claudicava de volta; e com essa sábia exclamação foi para a sua rede.
Saudações gastronómicas cá da Cidade Morena, nunca comi "baleia", mas já comi "toninha" (uma espécie de golfinho) que por sinal é uma carne doce, enjoativa e muito sanguínea.
"Quem me visita pergunta-me muitas vezes se li todos os livros que tenho; a minha resposta habitual é que pelo menos os abri a todos. Na verdade, uma biblioteca, seja qual for o seu tamanho, não precisa de ser lida na sua totalidade para ser útil; todos os leitores beneficiam do equilíbrio entre conhecimento e ignorância, lembrança e esquecimento.
ResponderEliminarEm 1930, Robert Musil imaginou um bibliotecário de dedicado que trabalhava na Biblioteca Imperial de Viena e conhece todo e cada titulo daquela colecção gigantesca.
"Quer saber como é que me familiarizei com estes livros todos?" Pergunta ele a um visitante atónito. "Nada me o impede de lho revelar: é que nunca li nenhum!" E acrescenta:
"O segredo dos bons bibliotecários é nunca ler senão os títulos e os índices da literatura que lhes é confiada. Quem se interessa pelo conteúdo perde-se como bibliotecário! (...) Nunca será capaz de possuir uma perspectiva do todo."
Ao ouvir estas palavras, diz-nos Musil, o visitante quer fazer uma de duas coisas, ou desatar a chorar ou acender um cigarro, mas sabe que entre as paredes da biblioteca, ambas as opções são proibidas.
Biblioteca à Noite de Alberto Manguel
(Agora aqui muito cá para nós: Fumar eu não deixo mesmo neste meu Muito Sagrado Espaço. Agora se encontrar alguém a chorar? Eu não vou levar a mal. A pessoa, pode ter sido, e infelizmente, acometida de uma tragédia. O que muito lamentarei. Ou então pode estar "somente" muito emocionada com a leitura de mais um magnifico livro)
Boas e mui profícuas leituras. Em um Excelente Fim de Semana!
Celeste Silveira
Gostei muito do que aqui nos trouxe, Cara e Extraordinária Celeste.
EliminarÉ Extraordinária a lição do bibliotecário!
E sim, acho que uma biblioteca só composta de livros que já lemos, é menos útil que uma onde haja obras por ler, que nos convida a visitá-la e a pegar nos não-lidos, havendo sempre algo para ler!
Cumprimentos e votos de um Extraordinário fim de semana, cá desde a Cidade Morena.
"Uma pessoa na vida inteira não consegue ler mais de quatro ou cinco mil livros, isto numa pessoa que leia muito porque os que não lêem muito chegam aos 400 livros."
Eliminar-Pacheco Pereira, LER 127 de Set.2014-pg.40
Sobre a desculpa de falta de tempo para não ler, diz José Pinho da Editora Ler Devagar, na revista LER de Set.2013: - o tempo é uma desculpa. Eu se estivesse a ler tinha tempo. Em vez de estar aqui a conversar estava a ler. Se estas pessoas em vez de andarem aqui a verenear estivessem a ler tinham tempo. Cada um usa o tempo à sua maneira.-
Quando alguém me pergunta: já leu estes livros todos? eu respondo: e para que quereria eu uma biblioteca só com livros lidos.
EliminarUmberto Eco na "Misteriosa chama da Rainha Loana" - tenho cinco mil livros e há sempre um imbecil do costume que entra e diz quantos livros tem, leu-os todos? E o que é que eu respondo? nenhum, de outro modo porque os guardaria aqui? O senhor porventura guarda as latas de conserva depois de as esvaziar? os cinquenta mil que já li ofereci-os a prisões e hospitais. E o imbecil estremece.
Ainda bem que gostou, Extraordinário António. Também eu gosto muito de "me passear" no meio dos livros. Abri-los, os não lidos, e "prometer-lhes futura visitação", seja brevemente ou não. Dos lidos, abri-los também, e recordá-los. E até rele-los, se me der também para isso.
EliminarE de facto por mais que quiséssemos, nunca conseguiríamos ler mais do que os números que o Extraordinário Seve aqui apresentou. Se tenho pena? Alguma, sim. Contudo escolhi com zelo os livros que li, que são pouquíssimos perante a totalidade de uma Biblioteca. Mas li-os, leio-os e espero muito continuar a ler por mais alguns anos. Os livros fazem parte integrante da minha vida. Melhor dizendo, fazem parte integrante de mim.
Boas Leituras daqui de uma paisagem ribatejana, quase quase a deixar de o ser.
Celeste Silveira
De facto, Extraordinário Seve, o tempo, ou a pretensa falta dele, é uma desculpa esfarrapada. Fiz a maior parte do meu curso de Engenharia, estando já a trabalhar. Trabalhava, na altura, numa fábrica de Cimento, em Souselas, a uma dúzia de quilómetros de Coimbra. Fazia o trajecto, que não demorava mais de quinze minutos, de comboio. Neste lapso de tempo, li muitos livros. Ainda hoje, não vou para lado nenhum que não leve, ou ou dois livros e uma revista.
EliminarMas percebo que não somos todos iguais. E, muitas vezes, o gosto pela leitura não tem a ver com o "ninho" onde nascemos. Nasci numa recôndita aldeia, nos confins do concelho de Pampilhosa da Serra, dum pai que apenas aos 40 anos fez a terceira e de seguida a quarta classes, e de uma mãe que nunca andou na escola. Saí, para estudar, aos dez anos, em 1955.
A minha mulher costuma dizer que eu só tenho dinheiro para comprar livros e discos. Às vezes o meu "drama" é que gosto de livros pelo conteúdo e pelo aspecto físico. É o cheiro, é o toque sensual, é a luz e o conhecimento que dele irradiam.
Tenho milhares de livros, das quais já ofereci, à Biblioteca do meu concelho, cerca de mil e quinhentos.
Se já li os livros todos que tenho? De facto é uma pergunta de quem pouco sabe de livros. Tenho a certeza que, quando preciso deles, nunca deixam de me apoiar. Amigos inquestionáveis, os livros.
Bom fim-de-semana.
Manuel Dias da Silva
Que relato tão bonito o seu, Extraordinário Manuel! Muito obrigada por no-lo oferecer!
EliminarEu revi-me um pouco no que conta. Também estudei engenharia, mas em Lisboa, e tinha de atravessar o rio todos os dias, ora de autocarro ora de barco - alternava porque gostava muito de ambas as perspetivas que as duas opções de viagem me ofereciam. Demorava uma hora e meia a chegar à universidade. Nestes percursos não li só livros, também aproveitava para estudar, mas li muito! Porém é verdade que mesmo que fossem percursos de quinze minutos, podia ler-se muitos livros ao fim de uns anos. No fundo, é uma questão de vontade.
Eu também não podia viver sem livros, eles são responsáveis por uma grande fatia da minha felicidade, sinto-me muito grata a quem escreve e a quem traduz, publica, etc.
Um abraço caloroso para si e, como diz a Extraordinária Celeste, bom fim-de-semana com boas leituras!
Afinal não estou só. Obrigado extraordináro MDS por este belo texto que pensava ser só eu que o sentia.
EliminarEu tenho uma história semelhante:a minha avó paterna não sabia ler e a minha mãe foi retirada da escola porque faleceu a mãe e ela teve de cuidar da casa e os irmãos mais novos, numa vila recôndita da Beira Alta. O único letrado era o meu que emigrou para o Brasil; quando regressámos à Beira em casa da minha avó só havia um livrinho que ela tinha trazido para me oferecer Scennas da Minha Aldeia de um obscuro Joaquim Pinto de Sousa Macário muito baseado nos dramas camilianos. Meu pai trouxe do Brasil O Monte dos Vendavais da Emily Bronte, Funo-Guerra em Timor de Carlos Candal Brandão e o Almanaque do Diário de Notícias de 1954. Foram estes os primeiros livros que li.Hoje felizmente tenho livros espalhados por três casas: na Beira Alta, no Ribatejo e em Lisboa e já não posso ter mais porque escasseia o espaçoQuando compro algum tenho de me desfazer de outros que depois doo à biblioteca da minha terra na Beira Alta.
EliminarA nossa relação com os livros, que lemos e escrevemos, tem muitas voltas. Eu tive a sorte de ter, na minha juventude, dois professores de português que me “viciaram” em “Os Lusíadas” e em Luís de Camões. Quando tive disponibilidade financeira, tornei-me coleccionador.
EliminarNeste momento, possuo 95 exemplares em papel e 4 CD. Um dos CD’s contém 27 edições fac-similadas, da edição de 1572. A riqueza da colecção não é de natureza monetária, pois nenhum exemplar me custou mais de 75 euros e muitos não passaram dos 5, 10 euros e, alguns, ainda menos.
Os meus exemplares de “Os Lusíadas” são em português (de Portugal e do Brasil), mirandês, espanhol, catalão, francês, inglês, italiano, alemão, húngaro, russo, indu, concani, chinês, japonês, latim, braille, esperanto, banda desenhada (português e mirandês), e declamado, pelo actor António Fonseca, tendo tido a honra de fazer a apresentação, em Coimbra, do respectivo livro e CD. Esta diversidade é que torna a minha colecção, verdadeiramente, rica. Estou a ver se adquiro a tradução, para árabe e turco, recentemente realizadas.
Escrevi os primeiros poemas, quando tinha, apenas, 15 anos. E a influência de Camões foi marcante. Imagine-se que comecei pelo soneto. Ao longo da vida, publiquei seis livros de poesia.
Por curiosidade, esperando não estar a abusar da vossa paciência, um dos primeiros poema que guardei (“A minha terra”, 21Fev1962), onde se nota já algum domínio do soneto, que rapidamente abandonei, e um dos últimos (“Zêzere”, 2Set2020), que faz parte do livro “No Reino de Mnemósine”, um livro de memórias, para comemorar os meus cinquenta anos de casado. Os dois poemas falam do mesmo rio, o Zêzere, nas margens do qual vivi, até aos dez anos.
A minha terra
Quando Apolo aparece no Oriente,
depois da triste noite ter vencido
e de outro hemisfério ter percorrido,
apareces altiva e refulgente.
A teus pés corre um rio sossegado
no verão, mas no inverno impulsivo;
em cima ergue-se um monte altivo:
Penedo da Torre, assim é chamado.
No meio das montanhas encravada,
lá onde a águia tem seu poder,
onde mal chegou o progresso,
ficas tu, ó minha terra, beijada
pelo sol. Para alguns és feia no parecer,
mas é para onde, eu, anseio o regresso.
Zêzere
Rio da infância, da juventude. Confidente
de mágoas. Passava num curso rasgado
de montanhas, por altas paisagens. Cada
momento vestia-se de um sossego
harmonioso. À volta crescia um silêncio,
à sombra de nostálgicas árvores. Nos
campos, os melros exibiam o seu canto.
A subtil tepidez das férias mergulhava
nas águas do rio. E aí, despertando íntimas
paisagens, entrava no pensamento.
Transbordavam, assim, palavras certas,
para entregar às águas a solitária angústia,
que permanecia embargada na garganta.
Bom resto de domingo e desculpem se me excedi.
Manuel Dias da Silva
O Coro
ResponderEliminarNão, não existe justiça, mas existem limites. E aqueles que pretendem estar fora de todas as regras, como os outros que entendiam dar uma regra a tudo, ultrapassam igualmente os limites. Abri as portas para que o vento e o sal venham sanear esta cidade.
NADA
Existe, uma justiça, aquela que me violenta. Sim, ides recomeçar. Mas isso já não é comigo. Não conteis mais comigo para vos fornecer o perfeito culpado, não tenho a virtude da melancolia. O velho mundo, é preciso partir, os teus carrascos estão cansados, o seu ódio é agora demasiado frio. Sei coisas de mais, e até o desprezo fez o seu tempo. Adeus honrada gente, aprendereis um dia que não se pode viver bem quando se sabe que o homem não é nada e que a face de Deus é hedionda.
Albert Camus em «Estado de Sítio», tradução João Pedro de Andrade, Colecção Miniatura nº 154, Livros do Brasil, Lisboa s/d
... " Sou eu nos versos tão nossos,
ResponderEliminarinspirados no que sentimos
e sentindo pelo que ainda viveremos
além de hoje que somos ! "
Estrada de Papel, Saulo Adami
Belo!
EliminarTranscrevo de Eça de Queiroz ("O Primo Basílio", Lello & Irmão – Editores, Porto, S/D, pp. 192; 196).
ResponderEliminar[ …]
- Que tens tu, filha? Estás toda no ar!
Nada. Tinha-se zangado com as criadas...
- Ai! Estão insuportáveis! - Contou as exigências da Justina, os seus desmazelos. - E muito agradecida ainda que ela se me não vá! Quando a gente depende delas!... - E pondo pó-de-arroz no rosto, com uma voz lenta: - Lá o meu senhor foi para o Campo Grande. Eu estive para ir jantar fora com... - Suspendeu-se, sorriu, e voltada para a Luísa, mais baixo, com um tom alegre, muito sincero: - Mas olha, a falar verdade, nem sabia onde, nem tinha dinheiro... Que ele coitado com a sua mesada mal lhe chega. Disse comigo : nada, vou ver a Luísa. Também os homens sempre, sempre, secam!... - Que tens tu para jantar? Não fizeste cerimónia, hem?
E com uma ideia súbita:
- Tens tu bacalhau?
Devia haver, talvez. Que extravagância! Porquê?
- Ai! – exclamou – Manda-me assar um bocadinho de bacalhau! Meu marido detesta o bacalhau! aquele animal! Eu é a minha paixão. Com azeite e alho! – Mas calou-se, contrariada. – Diabo!
- O quê?
- É que hoje não posso comer alho…
[ …]
E vendo Luísa entrar:
- Mandaste arranjar o bacalhau?
- Mandei.
- Assado?
- Sim.
- Grácias!
[ …]
E como Juliana entrava com o bacalhau assado, fez-lhe uma ovação!
- Bravo! Está soberbo!
Tocou-lhe com a ponta do dedo, gulosa; vinha louro, um pouco tostado, abrindo em lascas.
- Tu verás – dizia ela. – Não te tentas? Fazes mal!
Teve então um movimento decidido de bravura, disse:
- Traga-me um alho, srª Juliana! Traga-me um bom alho!
E apenas ela saiu:
- Eu vou ter logo com o Fernando, mas não me importa!... – Ah! Obrigada, srª Juliana! Não há nada como o alho!...
Esborrachou-o em roda do prato, regou as lascas do bacalhau dum fio mole de azeite, com gravidade. - Divino! – exclamou. – Tornou a encher o copo, achava aquilo “uma pândega”.
*************
Obrigado Celeste Silveira pelo delicioso trecho do livro "A Biblioteca à Noite" (que comprei, exectamente há três anos), de Alberto Manguel, do qual tenho, também, "Uma História da Leitura" e "Uma História da Curiosidade", que recomendo vivamente. É o bibliófilo mais conhecido do mundo, a quem alguém já chamou "o Don Juan das bibliotecas". É um escritor que muito admiro, não só pelo que escreve e como escreve, mas também, por ter doado, à cidade de Lisboa, a sua fabulosa colecção de 40 mil volumes.
Manuel Dias da Silva
Ainda bem que gostou Extraordinário Manuel. E olhe, adorei também recordar este trecho que o Manuel aqui amavelmente colocou. Sabe que me lembro do tempo em que li com voracidade o Primo Basílio.? Lá para os finais da década de oitenta. Num Verão, muito "Verão". E que bela leitura foi! Eu que nada sabia sobre a trama nem sobre o seu final... recordo bem, a leitura foi Extraordinária. Ainda hoje tenho essa obra, como uma das que mais gostei do Eça.
EliminarAgora caro Manuel, também tenho que lhe dizer uma coisa: é que fiquei mesmo com uma grande vontade de comer uma posta de bacalhauzinho bem regado de azeite, do bom, e bem temperadinho de alho, sabe, assim bem picadinho... Essa é que é "Eça"!
Boas Leituras para si. E um Excelente Fim de Semana.
Celeste Silveira
Então ouviu o pranto. Isso acordou-o: um pranto suave, fino, que talvez por ser fino conseguiu atravessar o emaranhado do sono, chegando ao lugar onde se aninham os sobressaltos.
ResponderEliminarLevantemo-se lentamente e viu a cara de mulher encostada à ombreira da porta, ainda obscurecida pela noite, a soluçar.
- Porque choras, mamã? - perguntou; pois mal pôs os pés no chão reconheceu o rosto da mãe.
- O teu pai morreu - disse-lhe.
E depois, como se se tivessem aberto os diques da sua pena, deu uma volta sobre si própria, uma e outra vez, até que umas mãos alcançaram os seus ombros e conseguiram deter a convulsão do seu corpo.
Juan Rulfo - Pedro Páramo
Que belo livro trouxe aqui!!!!
EliminarComo diz a nossa Extraordinária Celeste, é tão bom revisitar os livros que já lemos e guardámos, de que gostámos, como velhos amigos que são e ficam connosco!
Para que conste... não me vou ao bacalhau, que não tenho, mas vou comer uma barriga de albacora que coloquei em salmoira... cozida no vapor, com batatas e claro, azeitinho mais a competente cebola picadinha!
Eheheheh!
Que maravilha!... Hoje despertámos o gosto e amor pelos livros e leituras e, também, pela gastronomia.
EliminarManuel Dias da Silva
“Hoje, que já estou a meio do arco da minha vida; que já li todos os livros, inclusive os tatuados na lua, na minha pele e os escritos com ponta de agulha no cantinho dos meus olhos; que já vi e tive o suficiente; que já desregulei sistematicamente todos os sentidos; que já amei e odiei; que já icei imperecíveis monumentos de cobre; que já desesperei de tanto esperar pelo Deus-Menino- sem, durante mito tempo, ter percebido que não sou outra coisa senão um ácaro a cavar canais na Sua pele de luz vetusta; que já os anjos povoam o meu cérebro como espiroquetas; que já toda a doçura do mundo me deleitou; e definharam Abril, Maio e Junho; hoje, que já a pele me escama, debaixo do anel, em milhares de folhas de bíblia; hoje, o vivaz e absurdo hoje, tento desordenar os meus pensamentos e ler as runas das janelas e das varandas jungidas de roupas húmidas do prédio da frente, aquele que dividiu a minha vida em duas partes, assim como o náutilo fecha o compartimento em que já nãoi cabe e se muda para outro maior, na espiral de madrepérola que lhe resume a vida. Mas este texto já não é humano e já não o consigo perceber. Aquilo que ficou do outro lado – o nascimento, a infância e a minha adolescência – transparece por vezes pela porosidade do paredão desmesurado, em farrapos compridos e enigmáticos, anamórficos e distorcidos, pulverizados por inúmeros meios de difracção, pelos quais chego ao pequeno quarto onde volto de vez em quando. Madrepérola sobre madrepérola sobre madrepérola, azul sobre azul sobre azul, todas as idades e todas as casas em que vivi (se é que não foi tudo uma alucinação do Nada) são filtros deformadores doa anteriores, filtros que se misturam aos anteriores. Não se descreve o passado escrevendo sobre coisas antigas, mas sim sobre a névoa entre mim e esse passado.”
ResponderEliminarOFUSCANTE – Mircea Cartarescu