O que ando a ler

Ui, ando a ler muito menos do que gostaria, porque estou numa fase de trabalho tão intensa que trago coisas para ler em casa e depois, quando me deito, leio dez linhas de um livro e caio de sono. Mas, sim, este que agora tenho em mãos vou levá-lo até ao fim provavelmente em pouco tempo, porque é uma novela curta, tal como, aliás, a anterior que li do  autor. Trata-se de Canción, criação do guatemalteco Eduardo Halfon, de quem já aqui falei a propósito do deslumbrante Luto, publicado no ano passado, que falava do mistério que rodeava a morte de uma criança, cujo nome, Salomón, viaja também, curiosamente, para este livro. Canción trata, entre outras coisas, do sequestro do avô do narrador (narrador esse chamado Eduardo Halfon, como o autor) em plena guerra da Guatemala, nos anos sessenta; mas principia com a ida de Halfon ao Japão para um congresso sobre literatura libanesa e logo nos transporta até à sua infância, mais especificamente a um almoço em que Eduardo conhece a priminha Berenice, o tio Salomón lê nas borras do café um futuro que nunca confessa, o tio Nono está doente numa cama do andar de cima e um grupo de militares faz o dono da casa levantar-se da mesa do almoço de família e fecha-o no seu escritório, deixando toda a família gelada de medo. Agora entrou ao barulho o senhor Canción, que foi carniceiro e esteve preso, mas isso já não posso contar. Adivinho, porém, mais uma pérola de um grande escritor.

Comentários

  1. Eu ando a ler "Viagem a Portugal" de Saramago há imenso tempo. Apesar de gostar muitíssimo de ler Saramago, este livro, com as suas visitas constantes a igrejas, não me torna a leitura fluida. Prefiro histórias com mais vida. Então leio contos de Clarice Lispector, que sempre trazem luz e doçura, esta manhã li "Começos de uma fortuna" e "Mistério em São Cristóvão". Admirável como Clarice já morreu há tanto tempo e os seus contos são tão plenos de vida e de vibração.
    Também tenho na pilha de candidatos para as manhãs enquanto tomo café, um dos livros de contos de Tchékhov, mas hoje não me apeteceu mergulhar os olhos em nada que seja russo.

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    1. António Luiz Pacheco2 de março de 2022 às 03:22

      Há livros que se lêem e outros que se vão lendo... é esse o caso.
      Há quem não consiga, mas muitos de nós lemos vários ao mesmo tempo, dentro desse conceito: um que se lê a fio, e outro ou outros, que se vão lendo alternadamente, ensaios, biografia, viagens, etc.
      Boas leituras

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    2. É verdade. Eu também faço parte desse grupo que lê vários ao mesmo tempo. Mas é a primeira vez que "vou lendo" um Saramago, até estou admirada comigo mesma!
      Boas leituras para si também, caro Extradordinário António Luiz Pacheco.

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  2. Acabei a "Trilogia" de Jon Fosse, de que não esquecerei os diálogos entre as personagens principais e já destaquei "A Consciência de Zeno", de Italo Svevo para ser a leitura seguinte.

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  3. Bom dia!
    Por causa assunto do post do passado dia 23/2, lembrei-me de um pequeno livro que tinha lido uns tempos atrás e que em muito fala da importância dos livros e da leitura. Assim, estou a reler "A Casa de Papel" do escritor argentino, Carlos María Domínguez. Um pequeno livro, 78 páginas, numa edição da ASA, de 2006, mas com muito para ler.
    Um pequeno excerto :
    Ninguém quer extraviar um livro. Preferimos perder um anel, um relógio, o chapéu de chuva, do que o livro cujas páginas não mais lerem os mas que conservam, na sonoridade do seu título, uma antiga e talvez perdida emoção.
    Uma boa semana de leitura.
    Daqui, da margem esquerda do estuário do Tejo.
    A. Delfim

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  4. António Luiz Pacheco2 de março de 2022 às 04:21

    Tenho andado a ler "Último olhar", de Miguel Sousa Tavares.
    Depois do fiasco que foi para mim "Madrugada suja", e de gostar do "Cebola crua com sal e broa" , era grande a expectativa quanto a este que até já recebeu os encómios bastantes para me fazer esperar obra muito asseada!
    Vou mais ou menos a meio porque não tenho conseguido ler muito, entre a febre tifóide que estou a tratar e o trabalho que não quer saber de doenças nem fraquezas. Ainda ontem (feriado) tive de disponibilizar 10 horas, e ir a Porto Amboim (a 540 Km por má estrada, daqui) avaliar um problema. Cheguei estafado e nem jantei (também não almoçara senão uma sanduíche de atum que levei) portanto foi dormir directo, sem leitura sequer das notícias - só hoje soube que o barril do crude está nos 111 USD. Segura-te Angola! E vocês aí preparem-se para andar de bicicleta...
    Bom, voltando ao tema do romance Sousa-Tavariano: - Não sei o que diga. Estou a gostar, há mesmo partes de que gosto bastante, como a infância de Pablo e a guerra, o campo de concentração, apesar dos muitos dejá vu, suponho que eu e o autor lemos os mesmos livros, o que é natural. Depois pelo meio aparecem uns episódios pífios, com diálogos fracos ou mal conseguidos a transmitir umas idéias sobre o matrimónio e os filhos, que não percebi ainda o que têm a ver com o resto, mas lá chegarei.
    Também há umas conversas sobre as vidas dos personagens que me soam a guião de telenovela foleira, um bocado pirosos até.
    Mas estas partes é passar adiante pois não parece que contem para o enredo em si, e, depois lá frente batem certo. Estes outros personagens acho-os assim um bocado cinéfilos, construídos como para aqueles filmes em que os actores estão sempre glamourosos e nem se despenteiam nunca, sem um vinco na calça! Há ali qualquer parte que ainda não consegui colar pelo que vou esperar pelo desenrolar da acção, dando-lhe esse benefício pois a parte da guerra, a juventude do Pablito, estou a gostar.
    Também já notei algumas incongruências, por um lado o pai do Pablo quando se foi alistar nos "rojos" nunca tinha dado um tiro, mas mais à frente é dito que caçava e fazem-se paralelos com caçadas. Não bate certo e acho que um escritor atento, deve reparar nesses detalhes. Fora outras situações agronómicamente erradas, como falar dos campos preparados para semear em Maio, quando as searas já estão quase maduras; o detalhe dos agriões na horta do alemão; podar os pessegueiros na Primavera, quando estarão em flor... mas isso sou eu que exagero em notar detalhes.
    O balanço é positivo no geral, posso dizer. Mas aguardo pelo fim para uma conclusão mais definitiva e então falaremos.
    Já algum dos Extraordinários leu este "Último olhar"?

    Falando no geral, há qualquer coisa que não sei classificar e me escapa, mas parece-me haver um défice na credibilidade que os autores portugueses não conseguem transmitir aos diálogos, aquilo parece que são forçados, não são fluidos, não sei explicar. Ao contrário dos Norte e Centro, Sul, Americanos.

    Saudações cá da Cidade Morena.

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    1. Li e gostei, António Luiz.

      Claro que é um livro escrito muito ao estilo de "reportagem", um romance devia exigir um "mais alma". Mas o Miguel Sousa Tavares, nunca será um romancista clássico, é demasiado objectivo.

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    2. António Luiz Pacheco2 de março de 2022 às 06:19

      Tem toda a razão na sua apreciação!!!
      Não tinha visto sob esse prisma, por isso é bom frequentar este espaço de luz e trocar opiniões menos conhecedoras com quem sabe.
      Como disse, estou a gostar bastante das partes mais "reportagem" e um bocadinho menos da parte "côr de rosa" , se é que me faço entender.
      Obrigado pelo seu sempre claro e útil esclarecimento!
      Abraço!

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  5. Acabei de ler "Requiem para o Navegador Solitário", de Luís Cardoso.

    Achei-o um livro bonito, sobre um Timor antigo (quer ser sobre o começo da II Guerra Mundial), que talvez continue a ser mais actual do que seria desejável, porque há coisas que demoram mais a mudar, em países mais "tribalistas"...

    Não deixa de ser curioso (mas muito credível), ser uma mulher o centro de toda a história, num mundo de homens...

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    1. António Luiz Pacheco2 de março de 2022 às 06:24

      Sobre esse Timor, recorda-me um livro que li há muitíssimos anos: "Funo", de Carlos Brandão, um jornalista deportado para lá, que esteve muitos anos em Timor, nomeadamente durante a ocupação japonesa a que assistiu na primeira pessoa.
      Um relato muito interessante.
      Abraço

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    2. Eu tenho esse livro que era do meu pai, salvo erro é a 1ª edição, de Carlos Cal Brandão; como estamos em maré de invasões qualquer dia vou relê-lo.

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  6. Boa tarde,
    Sigo sempre com interesse este tema "O que ando a ler" até, imagine-se, tenho lido alguns livros que aqui são falados.
    Neste momento estou a ler, quase a terminar, o livro "Para quê tudo isto" biografia de Manuel António Pina da autoria do seu amigo Álvaro Magalhães editado pela Contraponto.
    Sempre fui um admirador deste autor e com esta biografia confirmar que o Pina (assim era tratado pelos mais próximos) era um homem simples e bom. E c sabendo que ada vez mais neste mundo tenebroso fazem falta homens simples e bons. O seu lema de vida era: "Ser o mais bondoso possível sabendo que isso é inútil.".
    "Quando vejo tratar mal alguém mais indefeso ou vulnerável, um velho, uma mulher, uma criança, ou um animal, sou capaz de fazer mal..."
    Leiam, vale a pena.

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