Cinquentenários...

É estranho pensar que alguém que ainda conserva um certo ar de garoto, e tem um riso malandro quando ouve uma piada, possa ter completado  cinquenta anos de carreira literária... Falo de Nuno Júdice, o poeta que é muito provavelmente o contemporâneo mais traduzido e com a obra mais extensa da poesia portuguesa; se não estou em erro, uns quarenta livros, começados com esse título que haveria de mudar para sempre a forma de fazer poesia em Portugal, A Noção de Poema, publicado ainda nos Cadernos de Poesia da Dom Quixote, em 1972, e seguido de Crítica Doméstica dos Paralelepípedos, de 1973, na mesma colecção. Pois bem, para comemorar a bela efeméride, até porque já houve prémios com fartura ao longo do percurso, entre eles o da Rainha Sofia, em Espanha, que não é para qualquer um, nada melhor do que mostrar aos leitores, sobretudo aos mais novos, uma síntese deste incrível projecto literário, na forma de uma antologia que abarca estes cinquenta anos de criação poética e, ainda por cima, é da responsabilidade do próprio autor. Aí está, por isso, 50 Anos de Poesia, uma selecção pessoal pensada e muito significativa, que servirá de puro deleite e, ao mesmo tempo, de excelente introdução para quem precisa de conhecer. Parabéns, Nuno Júdice!


 


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Comentários

  1. Acho que vou pedir como prenda de aniversário:). Aprecio a poesia de Nuno Júdice.

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  2. Bom dia!
    Nem vou esperar que me o ofereçam. Já me o ofereci!
    Do Nuno Júdice tenho lido tudo ou quase tudo.
    Peguei na "Covergência dos Ventos" , livro de 2015 e encontrei um poema muito actual.
    Chama-se "Guerra".
    Leiam-no.
    Daqui, da margem esquerda do estuário do Tejo.
    Com um abraço.
    A. Delfim

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  3. Manuel Dias da Silva22 de março de 2022 às 04:20

    Estou totalmente de acordo relativamente à importância e influência, na poesia contemporânea, que Nuno Júdice proporcionou. Acho uma excelente ideia a antologia que vai ser publicada. Só não a irei comprar porque, dele, tenho a Poesia Reunida 1967-2000 e O Mito da Europa.
    É um poeta extraordinariamente prolífero. De 1972 a 2017, publicou 64 livros: Poesia, 32; Ficção, 18; Ensaio, 10; Teatro,4.
    Como homenagem, transcrevo um poema que encontrei, há já uns bons anos, numa revista chamada Algarve

    Pão Caseiro

    No celeiro onde amassavam o pão
    as mulheres não falavam dos tempos que haviam de vir.
    A massa é que fermentava, debaixo das mantas e dos trapos,
    enquanto a lenha acesa aquecia o forno.

    Não sei já do que falavam as mulheres
    que amassavam o pão. Pela janela, o que entrava era o cacarejo
    das galinhas quando os galos se punham à luta; e um vento
    frio fazia o céu ainda mais azul, nesse fim de Inverno,
    com a Páscoa à porta e o forno pronto.

    As mulheres que preparavam o forno morreram,
    quase todas. Uma ou outra ainda espreita, da janela, o mundo
    que já não lhe pertence. Ninguém acende o forno; o pão
    compra-se de manhã, no supermercado; e as galinhas vêm
    mortas do aviário.

    No celeiro, onde a massa fermentava, debaixo
    das mantas e de trapos, só o vento ainda entra, pelas frinchas
    da porta, procurando as mulheres que ali deviam estar,
    para as obrigar a queixarem-se do frio, das doenças de ossos
    e do reumático, enquanto apertavam os xailes ao ombro.

    Na casa vazia, o vento cansou-se de soprar e fugiu
    atrás das nuvens que empurra para o Sul, como dantes se enxotavam
    as galinhas para tirar o pão do forno.
    Debaixo das mantas velhas, já nada fermenta a não ser estas imagens que meto no forno
    do poema, para as dar aos pássaros da memória
    - migalhas que sobraram da infância.

    Manuel Dias da Silva

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  4. A "materialidade" do afeto o apresenta; poesia veste NJ e se lhe expressa (força) a causa feminina através o manto indelével das palavras: o tempo e a graça são, são vigorosos.

    Parabéns !

    Cláudia da Silva Tomazi

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  5. Pergunto a mim mesmo:
    -Mas eu que tanto gosto de ler sou incapaz de ler um livro de poesia?
    Só me lembro de ter lido um livro de poesia e, por acaso, de até ter gostado- do Pedro Homem de Mello (não sei se é com dois ou três tês).

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  6. Tambem nao sou particularmente apreciadora de poesia.Destaco David Mourao Ferreira,sem duvida um grande poeta do amor.

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