Lídia Jorge nos EUA

Uma vez, há muitos anos, a educadíssima Lídia Jorge fez-me um telefonema só para perguntar se eu via inconveniente em que chamasse a um seu romance O Vento Assobiando nas Gruas, porque eu tinha publicado um livro de poesia intitulado O Canto do Vento nos Ciprestes e alguém teria encontrado ali alguma ressonância. Fiquei parvinha de todo, pois quem era eu ao pé da grande Lídia Jorge (e, além disso, não havia mesmo confusão possível entre as duas coisas)? Soube que o romance objecto da nossa conversa acaba de sair nos Estados Unidos, não só em versão em papel, mas também em audiolivro, com a voz da actriz Cassandra Campbell. E fico feliz, porque é sempre tão difícil a literatura portuguesa chegar a países de língua inglesa que é especialmente gratificante que isso aconteça justamente com Lídia Jorge, não apenas pela qualidade do romance propriamente dito (que ganhou, entre outros, o Grande Prémio de Romance e Novela da APE), mas porque a escritora é das poucas que em Portugal levantam a voz contra a falta de políticas culturais e os tempos difíceis que vivemos em todo o mundo em termos de liberdade de expressão, além de, evidentemente, ser uma pessoa que pensa no Outro e é extremamente educada. Parabéns!

Comentários

  1. Com efeito, descreveu muitíssimo bem a Senhora que é Lídia Jorge.
    Suponho que chamar "Senhora", vá ofender as sensibilidades feministas extremas que considerarão insultuoso este epíteto, mas é o que melhor descreve uma Mulher de grande qualidade e categoria como esta nossa Extraordinária Escritora. É a prova de que se pode ser mulher, feminista e feminina, ter influência e defender causas, sem perder a categoria nem a postura serena e feminina.
    Pronto... está dito, é a minha opinião, lembro que as opiniões são como os umbigos: toda a gente tem!

    Quanto a ser publicada nos EUA, é de facto o que entre nós se diz "uma lança em África" (bolas que hoje estou a ser incorrecto com'ó caraças!). Portanto está de parabéns a Escritora e estamos todos nós que devemos regozijar-nos com estas distinções, penso eu.
    Esperemos ter brevemente boas notícias na cultura, lá para os lados do ministério da dita onde se aguarda que haja nome que seja mesmo da cultura e venha defendê-la e promovê-la, porque as ferramentas aí estão, os nossos artistas, os nossos autores, muitos dos quais vão tendo destaque internacional, assim o próximo (espero que haja um próximo...) ministro seja pessoa da cultura!

    Saudações à Extraordinária Lídia Jorge cá da contra-costa, e, a todos os Extraordinários comparsas deste blog, cá desde a Cidade Morena!

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    1. Caro Antonio luiz pacheco. “opiniões são como os umbigos” acho que não é bem assim. Pelo menos segundo o Herman José.:-)

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    2. Há outras versões... mas achei que esta é a que melhor se adapta ao entorno!
      In der tat... diria o Herman J.

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  2. Bom dias Extraordinários Leitores:
    Certo dia, num Encontro de Escritores em uma modesta biblioteca, contudo muito bem fornecida de monografias e demais documentação, tinha sido convidada a Escritora Lídia Jorge. A sala estava bem cheia como há muito tempo não se via. E a simpatia e a excelente prelecção da Escritora prendia todos os presentes. Falou-se da sua obra, do oficio da escrita, dos leitores, de hábitos de leitura, dos hábitos dos leitores... No final da exposição verbal da Escritora, e já no tempo concedido às perguntas, um leitor já velhinho, algo receosamente, pôs a mão no ar e pediu licença para falar. Licença que naturalmente lhe foi concedida. Dizia o Senhor ter somente a instrução primária, contudo desde há muitos anos que lia. E também desde há muitos anos que fazia aquilo que a Doutora Lídia ali falara, ou seja, ele apontava as suas leituras. Ele sabia exactamente o que havia lido e quando. E mais disse o ancião Senhor, que tinha lido o livro dela [que era o livro que ali se analisava, "O Vento assobiando nas Gruas"] e que tinha gostado muito. E deu até como exemplo certa e determinada passagem que o havia tocado muito particularmente. A Escritora tudo ouviu, concordou, diria até algo comovida. E no fim da sessão, bem no fim mesmo, abeira-se do primevo Senhor e diz-lhe: "Permite-me que eu lhe dê um abraço? E um beijinho?". O velhote absolutamente sensibilizado com a atitude de demonstração de apresso, acedeu comovidamente. E a Escritora concluiu: "É que é mesmo para pessoas como o Senhor que nós escrevemos."
    Conheço o Senhor, diria mesmo, conheço aquele ancestral Senhor até muito bem. E sei que é com alegria e muita emoção, que o ouço repetir esta história, muitas, muitas e muitas vezes mesmo.
    Excelentes Leituras
    Celeste Silveira

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    1. Bonita história!!!!! Belo momento.

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  3. Os dias que se arrastam, correm melhor se aqui chego e vejo que se fala de livros.
    Tento compreender as(os) mettooanos, mas tenho a vaga ideia que aquilo é algo que foge à minha pobre inteligência.
    De Lídia Jorge sei da belíssima escrita, da amabilidade, do bom senso, e só quem assim quer ser, poderia fazer esta pergunta a Maria do Rosário Pedreira. Fiquei também a pensar onde «O Canto do Vento nos Ciprestes» casa com «O Vento Assobiando nas Gruas», mas é tão bonito sabermos destas histórias…
    Mais ainda quando a páginas 25 de «O Vento Assobiando nas Gruas», Lídia Jorge escreve;
    «Não sejas estúpida, Milene, quando necessário, uma pessoa deve socorrer-se das palavras dos outros. Pois para que servem as palavras dos outros senão para nos servirmos delas?... Vendo bem, nem uma única palavra que pronunciamos é nossa. Alguém as criou antes de nós… Nada nos pertence…
    Era como se João Paulo ainda estivesse a entrar pela porta do living-room da avó Regina, como se estivesse a aproximar-se da mesa e a dizer, naquele instante – Ouviste, Milene? Ouviste bem? Nada nos pertence. Nós é que temos a mania…»

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  4. Além de excelente escritora, Lídia Jorge é das raras autoras que pratica a intervenção cívica, onde contempla as suas diversas vertentes: literária, cultural, política, social. Fá-lo de forma pausada, clara, acessível a todos, educativa afinal. Ser publicada nos EUA é um feito notável, reservado a poucos, depois de já ter sido objeto de estudos académicos numa universidade estrangeira, desculpem não conseguir identificá-la de momento. Esta relutância em dar um título ao seu livro nas condições descritas é mais um dado revelador da excelência da sua personalidade.

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  5. Na versão inglesa/americana o título de Lídia Jorge está como "The Wind Whistling in the Cranes". Estou interessado, como é evidente tratando-se de mim, na leitura em português.
    O assobio do vento é sempre um título sugestivo, que o diga quem vive no alto de um planalto a 800 metros acima do nível do mar, sem resguardo montanhoso cerca.
    Aquilino Ribeiro, a abrir "A Casa Grande de Romarigães" começa com uma rabanada de vento literário - "O vento que é um pincha no crivo"...
    Agora permita-me a Anfitriã que, sobre o vento, traga aqui a tradução de um poema chinês de Wang Xiaoni , com o título original The Whistling Wind.
    Para não haver equívocos, Xiaoni não tem a ver com a marca de telemóveis Xiaomi e a tradução é do dr. Google, com alguns arranjos imperfeitos da minha parte.
    O vento assobia no alto,
    ora alto, ora baixo,
    soando um tanto melancólico,
    um tanto agourento.
    Um velho
    passa cambaleando por mim,
    a mão a agarrar com força
    o gorro grosso e acolchoado de algodão
    enquanto o vento continua assobiando. . .
    O vento assobia dentro dos meus ouvidos,
    ora forte, ora fraco,
    soando bem solene,
    meio selvagem.
    Uma criança que volta da escola
    passa correndo por mim, rindo de alegria;
    um punhado de pedaços de papel colorido
    ao mesmo tempo dança pelo ar
    enquanto o vento continua assobiando. . .

    De repente, sinto uma alegria inexprimível:
    meu cabelo preto
    está despenteado ao vento,
    está cantando ao vento.

    Para o Pacheco, algures na contra-costa das terras morenas, um abraço destas terras mais de pró-costa, tais os ventos que ora assobiam.

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    1. Ora, que trocadilho (in)feliz... ahahah!
      Quando falei em contra-costa estava a fazê-lo no sentido geográfico, em menção à estadia da Escritora em Moçambique e nunca me ocorreu que podia ter outra interpretação, política!
      Faz-me lembrar o que se dizia antes do 25/04, sobre Portugal ser um celebrado país de marinheiros, onde havia um almirante e cerca de dez milhões de contra-almirantes!
      Eheheh!
      Grande abraço.

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  6. Há assim pessoas, de uma delicadeza ímpar, daquelas que julgamos boas demais para serem verdade. Mas são. Gosto de ler Lídia Jorge. E quando, por exemplo, discorre ao longo de uma entrevista, ouvi-la não é prazer menor. Fico bem contente por mais esta porta que abriu. Merece. Parabéns, Lídia Jorge.

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  7. Sigo este blog de há uns tempos a esta parte e adoro esta breve leitura matinal... Nunca li nada de Lídia Jorge, mas fiquei curiosa. Alguma sugestão de livro para iniciar-me nas suas leituras? Obrigada.

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    1. Talvez um livro de crónicas de titulo”Em Todos os Sentidos”.

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    2. Sobre a Lídia Jorge já muito disseram os que me antecederam nos comentários ao post de hoje. Já, sobre o “roubar” palavras, e até versos inteiros, a textos já, anteriormente, escritos, gostaria de citar Rosa Maria Martelo, que na Apresentação do livro “Antologia Dialogante de Poesia Portuguesa” (Assírio & Alvim, Maio de 2020), diz (p. 7) que esta antologia foi “organizada em função de um princípio de escrita que Fiama Hasse Pais Brandão designou por epígrafe, segue os fios que ligam certos poemas a outros que os precederam e que são retomados, celebrados, interrogados ou mesmo “emendados”. Trata-se menos de estabelecer diálogos entre textos do que pôr em evidência vínculos já existentes, pois os textos mais actuais não teriam existido, no mínimo da mesma forma, sem aqueles que os precederam e com os quais se relacionam.”
      E mais adiante (p. 8) “cada texto seria, então, uma homenagem a outros textos sem os quais não poderia ter existido; mas uma homenagem dinâmica, transformadora. Isto porque escrever é sempre um modo de ler, reler, revisitar o passado da literatura”.
      Gostaria, ainda, em relação ao comentário de Fernando da Costa, agradecer-lhe o lembrar a admirável página que referiu do Aquilino Ribeiro, que nos remete para a importância do vento no nascer, e crescer, duma floresta.
      Acho que só para ouvir o vento vale a pena ter nascido, diz Alberto Caeiro no poema A espantosa realidade das coisas [“Poemas Inconjuntos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa, Edições Ática, 3ª ed. 1963, pp. 81-82] e que escolhi para epígrafe dum poema que escrevi, inserido no livro “No Reino de Mnemósine”, e que, abusivamente, vou aqui deixar

      Vento
      Acho que só para ouvir o vento vale a pena ter nascido
      Alberto Caeiro

      Só se ouve o vento passar. Dele, o menos visível
      dos fenómenos naturais, tentamos esculpir a
      força da rajada, a doçura da brisa suave. Assusta
      a amplitude das ondas e a frágil resistência que
      lhe opõem as árvores, os muros, quando furioso
      sopra. Apenas, Éolo, divindade abstracta,
      nos defende das arbitrariedades dos ventos,
      divindades que representam o ar. Comanda-os,
      vigia-os, a pedido de Zeus, mas nada pode
      para evitar catástrofes, se forem determinadas
      pelo Destino, deus mais poderoso que todos os
      outros. Na intemporalidade do mito, enfrentamos
      invisíveis obstáculos, conforme a ordenação do
      universo. Ao ritmo da sabedoria dos anos,
      ausentou-se o real. Agora, só a vista e o mar
      à volta enfrentam o horizonte, sobressaindo,
      que brilha dentro da ausência aí criada.
      Eu, que agora entro, quero agradecer, à Maria do Rosário Pedreira, cuja poesia muito admiro, esta lufada diária, que é Horas Extraordinárias.
      Manuel Dias da Silva

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  8. Na Amazon vendeu até ao momento 0 cópias.

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    1. De facto a Amazon não vendeu nenhuma cópia porque não está à venda. A Covid não permitiu que esta edição de autor, tivesse tido divulgação. Fiz apenas duas dúzias de exemplares.

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    2. Penso que o comentário era sobre a edição americana.

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    3. obrigado pelo alerta

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  9. Lídia Jorge
    "A História de Vida da premiada escritora portuguesa, também bolseira Gulbenkian, que ainda apresenta, em exclusivo, a história de vida de uma das suas personagens de ficção."

    Fonte : https://gulbenkian.pt/videos/lidia-jorge/?utm_source=Informa%C3%A7%C3%A3o+Gulbenkian&utm_campaign=95346e1629-Enews_Gulbenkian_20220203&utm_medium=email&utm_term=0_e941074765-95346e1629-221130937

    cumprimentos para todos
    Russell Boncey - Fontainebleau

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