O luto

Depois de termos perdido recentemente a enorme Joan Didion, talvez a pessoa que escreveu mais desassombradamente sobre o luto em livros como O Ano do Pensamento Mágico e Noites Azuis (respectivamente sobre as mortes do marido e da filha), volto a este tema por um pequenino livro de Chimamanda Ngozi Adichie, a escritora nigeriana que se tornou um fenómeno literário internacional, intitulado Notas sobre o Luto. Durante o que foi certamente um dos piores anos da sua vida, por conta da pandemia que a separou fisicamente da família (ela vive nos Estados Unidos, mas tinha os pais na Nigéria e alguns irmãos no Reino Unido, e não se viram durante muito tempo), o pai morreu sem se esperar. Parecia bem na última videochamada que os dois trocaram e, apesar da idade, nunca lhe falou de sofrer de quaisquer problemas de saúde. O choque foi enorme para a escritora, que era mesmo a menina do papá e que, para mitigar a sua dor, teve de escrever sobre o assunto alguns textos que são a sua forma de fazer o luto deste pai carinhoso e incrível, um académico sem peneiras e incorruptível num país onde ter status é, como veremos, bastante perigoso. São episódios partilhados por ambos, extremamente bonitos e sinceros, e também o relato do escândalo que é sempre qualquer morte imprevista, bem como a impossibilidade de sair para consolar e receber consolo, abraçando os que, tal como ela, sofreram o desgosto. Lê-se de um fôlego.

Comentários

  1. Luto, um tema com a máxima densidade psicológica, fonte inesgotável da literatura. Lembro-me de um grande texto de Rentes de Carvalho que, estando na Holanda, regressou à sua aldeia porque o pai morrera. Ah, e o livro de José Luís Peixoto.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ah, e o "Fazes-me falta" de Inês Pedrosa que referiu tê-lo escrito aquando da morte do pai. E Rosa Montero em "A ridícula ideia de não voltar a ver-te" afectada pela morte do marido. E tantos mais. E nunca se diz a falta. Mas faz-se a tentativa e, se não cura, esbate, torna a vida mais vivível.

      Eliminar
  2. António Luiz Pacheco13 de janeiro de 2022 às 10:28

    Ora vejam só a quantidade de livros sobre o tema afinal... não tinha essa noção, confesso.
    Porém é tema que não me é caro, talvez por isso o venha ignorando!

    Saudações e saudades cá da Cidade Morena... os primeiros dias são os que mais nos fazem sentir a falta do e dos que deixámos.

    ResponderEliminar
  3. Eu ainda acrescentava o livros “Os níveis da vida” de Julian Barnes, sobre a morte da mulher

    ResponderEliminar
  4. E ainda há o "Paula", da Isabel Allende, sobre a morte da filha.
    Filipa

    ResponderEliminar
  5. Maria da Conceição Teixeira Dias Dias17 de janeiro de 2022 às 00:34

    Obrigada , vou ler este livro !

    ResponderEliminar

Enviar um comentário